Viver para contar

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por Ademar Amaral

A melhor maneira de se vencer uma tentação, é ceder a ela.
Oscar Wilde

Ademar AmaralSe você pretende passar um desses fins de semana aprazíveis numa casa de veraneio ou num sítio de algum amigo ou parente, e se for levando na bagagem o livro “Viver Para Contar”, autobiografia do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, é melhor desistir desse programa enquanto há tempo.

Trate logo de optar por permanecer em casa e ficar lendo em paz.

Leia também do autor – A noiva de maio.

Ou então, se você for um desses leitores compulsivos, faça a coisa certa de uma vez: vá, mas não leve esse livro com você. Não corra o risco de abrir e começar a ler o livro no sítio, para as pessoas não pensarem que você ficou lelé da cuca.

Acreditem: é começar a leitura para ter certeza que a partir daí você não vai conseguir mais fazer outra coisa na vida. Não irá mais prestar atenção em nada que não seja viajar junto com o grande Gabo, ligado nas peripécias que ele viveu para driblar as dificuldades e realizar uma prodigiosa vocação de escritor.

Pois então, para o seu bem e de seus anfitriões, e para não ser um sujeitinho antipático, o melhor, como já disse, é deixar o livro bem guardado na estante até a semana seguinte.

A obra é tão cativante e de tal forma envolvente que dá uma enorme pena de ir em frente sem a irresistível vontade de ler cada página mais de uma vez. É texto para se degustar lentamente, parágrafo a parágrafo, para ir cozinhando bem devagarinho em fogo brando, sem deixar de apreciar nenhum dos mil sabores literários que o excepcional talento do autor nos reserva.

A descrição da viagem de barco que ele fez com a mãe de Barranquilla para o vilarejo de Aracataca (a Macondo de Cem Anos de Solidão), pelo rio Madalena, é simplesmente impagável e cheia de diálogos furtivos, onde cada meia palavra vale uma abordagem profunda do pensamento humano.

Ficamos sabendo já na primeira linha, que o objetivo da mãe, mesmo, é forçá-lo a abandonar essa maluquice de se tornar escritor, para poder concluir o curso de direito que ele ameaçava jogar pela janela. Mas o final desse imbróglio nós todos sabemos: ele resolveu se lançar no abismo literário da sua vocação, contrariou os pais e acabou mais tarde como um dos maiores escritores da América Latina, consagrado com um Nobel de Literatura no currículo.

Por tudo isso, é sempre recomendado – digamos – dar uma paradinha em certas passagens da obra para meditar um pouco sobre o que se está lendo. Focar na mensagem principal do livro, toda ela centrada na vasta experiência e vivência do escritor e na maior riqueza que um ser humano pode possuir nesta vida terrena, que é a própria ventura de viver.

Falo da ventura de viver intensamente como foi a existência de Gabriel Garcia Márquez, desde quando, ainda criança, deixou mesma Aracataca, um vilarejo na Colômbia caribenha, para sair no mundo em busca de angariar conhecimento, desenvolver sua latente vocação e nos legar uma escrita apaixonante.

Navegar na leitura do Gabo é quase como ter o privilégio de saborear uma mulher especial que só muito raramente a vida nos concede. Assim como aquela mulher especial, um livro desses é para se aproveitar cada parte, de pouquinho, buscando novos caminhos onde não há saídas e descobrindo água abundante no pior dos desertos, mas nunca com aquela pressa fatigante dos amores culpados.

É ir saboreando um pedacinho por vez, como se cada parte, gesto, ou palavra, fosse um naco eterno de sabedoria. Então, na falta dessa mulher especial, leia Viver Para Contar, mas volto não o leve junto com você para o tal fim de semana no sítio do amigo. Faça isso e você será considerado uma pessoa indigesta, no mínimo um ser antipático e de difícil convivência.

Mergulhado no livro, nada, nem uma boa piada ou história que o tal amigo lhe conte terá o menor crédito ou interesse. Porém, se você teve uma boa dose de sorte na vida, se não foi tão incompetente a ponto de ter sabido conquistar e preservar ao seu lado uma dessas mulheres extraordinárias da criação, faça ainda melhor e fique o fim de semana com os dois: a mulher e o livro.

Livro, mulher, livro, mulher de novo, vá levando na manha que sobra sempre tempo e energia para tudo. Eis aí dois vícios que não causam nenhum mal à nossa existência: o vicio do amor e o do conhecimento.

Um de cada vez ou reunidos na dose certa, são um santo remédio que alivia os males do corpo e da alma, e também são a receita ideal para o fim de semana de um homem inteligente.


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One Response to Viver para contar

  • LINDO…AMEI TUDO.

    MAS ATÉ PRA NÓS QUE É LEITOR, TÁ GRANDE…. A PLEBE NUINCA VAI LER ISSO TUDO!!! E NÓS PRECISAMOS E TEMOS QUE FAZER A PLEBE LER…

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