Amigos para sempre

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por Carlos Antônio Barbosa da Silva (*)

Éramos dois magricelos. Ele cor de sebo; eu tuíra, vindo do Paraná de Dona Rosa. Ele, clássico com sangue de poeta nas veias, se aquilo poderia se chamar de veias, mais parecia com traçados de rios azuis sob a pele branca e transparente – como de osga – que o sol desconhecia. Braços longos, ágeis, canelas duras como de escocês. Vestia calça curta bem engomada que o cinturão parecia procurar a última presilha.

Usava galocha conga sete vidas sempre com balador pendurado no pescoço, sua arma preferida e certeira, não tanto quanto do nosso amigo fogueteiro. No bolso da calça, sempre um canivete com mil funções adquirido na Zona Franca de Manaus. Raras pessoas tinham bicicleta. Que eu me lembre somente o “Pió Pió”, Geiel, Orlando e ele com uma marca jamais vista no Brasil.

Ademar, Célio e CarlosAdemar, Célio e Carlos

Fizemos molecagem que até hoje Deus não desconfia. Até pra comprar cartão da carne todas as tardes no mercado ele vestia-se elegantemente. Hoje esse tipo tem adjetivo – almofadinha. Magro, voltava do mercado com sua cesta procurando sempre andar sob a rede elétrica para proteger-se das chuvas.

Faltou imaginação das professoras da época em aproveitá-lo como modelo matemático para ensinarem a conferir nas costelas visíveis, aparentes, que ele não tinha nenhuma preocupação em mostrá-las. Andava sempre a prumo e elegante como nosso ex-presidente da República, cabelos tesos e emplastados de brilhantina.

Não recordo de seu barbeiro predileto: Jacó, Geraldo ou Dadá. Acólito preferido do frei Rodolfo, pelo domínio do latim, coletava oferendas como um “cameriere” de hotel cinco estrelas. Batina vermelha com pala branca bem engomada, impecável, que subia a Rua Bacurí tal qual uma senhora da mais alta corte inglesa. A missa aos domingos tinha mais emoção quando ele iniciava os cânticos como um rouxinol no galho de uma pitombeira.

Na sala de aula, sentava com postura de manequim. Admirado por todos os professores e com razão – estudioso, lia todas as edições da revista “O Cruzeiro” que comentava de modo cômico as charges de Péricles, o amigo da onça.

Fizemos passeio para fazenda Salve Silva, enquanto uns trepavam nas fruteiras outros pulavam na água ou andavam a cavalo, ele concentrado fazia uma narração do passeio.

Amigo fiel, coitado daquele que aceitasse andar de parelha. Batia, mordia, chutava, amarrava, corria atrás do Mauro sua presa predileta.

Sete de Setembro formava no pelotão ao lado de Luiz Guilherme, Renato Jordão, Roosevelt, Paulo Roberto, Orlando Santos, Rui Airton, Marcos Alves e eu. De tanto garbo, peito pra frente barriga pra trás, ele era o destaque com seu uniforme de gala que ostentava lapelas no ombro com divisas e uma cordoalha verde e amarela entrelaçava o ombro como a farda de um militar do mais alto escalão do nosso exército.

Sob o comando do Cabo Moura essa turma foi convidada a fazer demonstrações nas cidades de Juruti e Terra Santa. Foi o maior sucesso, multidões nas calçadas agitavam bandeirinhas e folhas de piririma, aplaudindo o exército estudantil do colégio São José. As pessoas se apertavam ficavam na pontinha do pé pra ver o nosso destaque que com muito orgulho e determinação empunhava a bandeira brasileira com passos firmes e cadenciados, determinando o alinhamento do nosso pelotão.

Nas festas da ARP com o conjunto Alberto Mota, dançava com suas lindas irmãs, tal qual Carlinhos de Jesus. Suas irmãs sentadas na mesa de acordo com as mais rígidas etiquetas sociais encantavam os rapazes que necessitavam de boas doses de “lambreta” ou bacardi – carta ouro – para atravessar o salão, pedir licença a seus pais, e convidá-las pra dançar.

No futebol, não gostaria de relembrar sua frustrada posição de zagueiro central, mas como não podia ser diferente, era o mais elegante com meião branco dois dedos abaixo do joelho. Porém, preocupava-se mais com o uniforme do que com a presença dos atacantes na área.

Seus ídolos eram: os remadores da costa de Óbidos, lá pra banda da Capela, que venciam as mais fortes correntezas fazendo roncar o remo, jogando água pro alto; Miguel Venâncio – o “Megué” – corpo de atleta grego que desfilava no carnaval fantasiado de “Durango Kid”; e o Silvio, atacante do Mariano, chute forte e indefensável – todos bons de porrada.

E, eu caboclo do interior – “intério” como chamavam – com quinze anos desembarcava em Óbidos para continuar os estudos iniciados com a professora Lourdes Diniz, pouco acima do Recreio dos Ferrari a duas horas de remo da nossa casa.

Muito mais magro que meu colega, morei na Rua Bacurí ladeado por casas de grande valor arquitetônico que nenhuma diferença fazia pra mim naquela época. Gostava de subir a Rua Bacuri passando a ponta dos dedos nas superfícies de texturas carapinhadas. Prestei exame de admissão ao ginásio com professor Chuvas e ingressei na primeira turma do ginásio São José.

Não fui um bom aluno com exceção as aulas de desenho. Meu desenho polêmico foi um bode, espocando de tanto comer farinha suruí com água, numa praia da cidade vizinha, e até hoje carinhosamente chamamos os moradores daquela cidade de “Espoca Bode”. Em contrapartida nos intitularam de “Chupa Osso”.

Tinha sotaque rasteiro e lutava bem, que meu colega de fino trato nunca me venceu, sendo essa sua maior frustração.
Certo dia derrotei o amigo numa partida de pião. Foi a oportunidade que ele há tempos treinava inspirado nos filmes de “Cowboys” que assistia no cine Naomí, onde o artista sacava o revolver em frações de segundo. Como era bom moço e não portava armas de fogo, treinou sacar o cinturão com a maior destreza e deu-me três lambadas na costa em menos de um segundo e saiu correndo dizendo: tá pago, tá pago, tá pago!… Hoje sou arquiteto e ele é o brilhante advogado Célio Simões.

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* Era arquiteto, urbanista, empresário, escritor e cronista. Projetou e construiu a “Praça do Estreito” em Óbidos, em homenagem à garganta do Rio Amazonas. Foi membro fundador e primeiro Presidente do Conselho Fiscal da Academia Artística e Literária de Óbidos. Faleceu prematuramente em 05.08.2013.


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6 Responses to Amigos para sempre

  • Legal ver a menção ao belíssimo Paraná de Dona Rosa em Juruti, lugar de onde saiu mta Ge te bem sucedida espalhada pelo mundo e lugar de origem do prefeito de Juruti o Marquinho.

  • Legal.

    Conheço o Ademar e o Célio ( Tio ) de afinidade como o a chamo , sempre que escreve gosto de ler os seus causos .

  • Cá está, mais uma vez, o Célio e companhia contando sues belos causos. Gostei da menção aos Espoca bodes, pois tenho muito orgulho de ser um.
    Mais uma vez, parabens Célio.
    João R. Farias.

  • Caro Jeso, quanto à nota no rodapé da crônica, o falecimento do Carlos ocorreu em 05.08.2012, tendo feito um ano em 05.08.2013. Releve a falha.

  • Essa dupla junta, de prosa em qualquer lugar, causa dor na barriga de tanto rir pelos “causos’ lembrados.

  • Belos tempos, belos dias.
    Boas amizades.
    Agradeço em especial ao Dr. Ademar que muito contribui na formação de nossos alunos da UFPA com informações de uma tarde que vale por um curso, quando em visita técnica à empresa da qual faz parte.
    “Amizade bem construída, amizade multiplicada.”
    João Mota

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