por Marcos Santos (*)
Faço este relato como forma de chamar a atenção das autoridades responsáveis pela saúde pública em Santarém, e também para provocar o Ministério Público Estadual, que infelizmente em nossa cidade tem pouca atuação quando o assunto são os atos administrativos do governo municipal com o setor da saúde. Pessoas morrem todos os dias pela falta de um serviço decente e humano nas unidades médicas do país.
Pois bem. Na madrugada de terça-feira (25), sentindo fortes e insuportáveis dores no estômago, fui levado, à minha revelia, à emergência do PSM (Pronto Socorro Municipal). A caminho do hospital, o taxista puxa assunto e diz que acabara de deixar um paciente, parente seu, naquela unidade de saúde. O motorista já me antecipava o que eu encontraria por lá: “Você vai sofrer mais quando chegar ali do que a dor que está sentindo agora, amigo”.
O homem ficou esperando alguma resposta à sua observação, mas naquele momento ignorei qualquer tentativa de conversa. A dor era maior. Fechei os olhos, torcendo para que o carro chegasse o quanto antes no hospital municipal. De casa para o pronto socorro eram apenas algumas quadras, mas a dor fez o caminho parecer mais longo.
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Enfim, chegamos.
Fui levado por minha acompanhante até a recepção, onde a atendente, com um humor abaixo da linha de cintura e um sentimento indiferente com as pessoas que recorrem diariamente ao serviço de saúde pública ofertado pelo município, fez o meu atendimento. A mulher me pediu identidade e começou com uma sabatina interminável.
Perguntou nome da mãe, bairro onde morava, idade, data de nascimento, se aquela era a primeira vez que recorria ao hospital e muitas outras perguntas, que considerei desnecessárias naquele momento. Se o meu problema fosse mais grave, certamente teria morrido sem antes responder a todas as perguntas e sem ao menos receber socorro médico. Por algum momento, me perguntei: “Meu Deus, o que estou fazendo neste lugar?”
Durante todo este tempo trabalhando na imprensa santarena produzi matérias que retrataram o sofrimento dos pacientes e também destacaram o atendimento precário na emergência do hospital municipal em Santarém. Os relatos eram surpreendentes e chocantes. Nas minhas reportagens, as pessoas sempre se queixavam de maus tratos dos funcionários, além do descaso e abandono pelo Poder Público com o setor da saúde. Para mim, tudo servia para um bom lead e uma boa matéria para fazer capa e vender jornal. Nada mais que isso.
Mas desta vez, porém, eu era o próprio personagem da minha matéria e pela primeira vez senti na pele o sofrimento dessa gente. Hoje, percebo que meu papel como jornalista estava aquém do verdadeiro propósito jornalístico. Por um instante fiz uma pausa nos meus pensamentos, suportando cada vez mais aquela dor desgraçada e buscando encontrar alguma forma de mudar essa situação. Infelizmente, não posso fazer muita cosa, a não ser continuar escrevendo e denunciando o estado de abandono deste importante setor para o cidadão.
Alguns minutos se passaram até que finalmente a moça encerrou aquela sessão de perguntas e me encaminhou ao setor de triagem. O enfermeiro que me atendeu, acostumado a atender tantos doentes, tratou-me como mais um pobre coitado e fez seu serviço analítico superficialmente. Tirou minha pressão, preencheu mais papel e mandou que aguardasse no corredor para ser atendido pelo médico plantonista. Àquela altura, já me retorcia de tanta dor. Meu corpo estava frio e transpirava suor gélido e preocupante. A porta do consultório do médico finalmente abriu. Uma sala pequena e desconfortável. O profissional começou o atendimento.
Voltando um pouco no tempo, lembro-me que duas pessoas antes de mim foram atendidas pelo ‘doutor’. E, curiosamente, ambas saíram com menos de cinco minutos de consulta. Pensei: “Ou o caso delas não é tão grave ou é um médico excelente”.
Quando o ‘doutor’ iniciou minha ‘consulta’ percebi o porquê da brevidade no seu atendimento às pacientes anteriores a mim. O cara nem perguntou o que eu estava sentindo, nem me olhou nos olhos. Pegou a papelada, carimbou, assinou as vias, e entregou dizendo:
-Tome este medicamento, faça uma ultrassom e aguarde até o remédio fazer efeito, depois volte.
A dor era tanta que não consegui questionar com ele o motivo pelo qual fez um atendimento tão superficial. Simplesmente segui a ‘orientação’ e retornei ao enfermeiro. Lá, ele me aplicou uma dose de buscopan, na veia. A medicação não fez efeito. Retornei e novamente outra aplicação, desta vez, de um remédio mais forte. Fiquei com um troço ligado à mão, que tive que carregar até que melhorasse. O enfermeiro disse que a dor passaria e que pela manhã eu deveria retornar para tentar fazer a tal ultrassom.
Fui pra casa, carregando aquele trambolho, passei pelas pessoas que estavam na sala acompanhando seus doentes. Os olhares delas se voltaram para mim e pareciam pedir socorro.
Antes de deixar o hospital, fui levado pela minha acompanhante à emergência do PSM. Fiquei estarrecido com o que presenciei. Um amontoado de doentes, que agonizavam sobre as macas e também pelo chão. Olhares tristes e desesperados. Neste instante, minha dor declinou diante do sofrimento daquelas pessoas. Crianças, jovens e idosos entregues à própria sorte, esperando um milagre para poderem voltar para suas casas. Crianças enfermas foram largadas na própria recepção e ali ficaram.
Aliás, havia mais pessoas deitadas sobre as cadeiras tomando soro. O calor era infernal. Os parentes improvisavam abanadores com pedaços de papelão para suportar o clima quente. Choro. Ouve-se muito choro de crianças. As mães, aflitas, não escondem o medo de perder o filho naquelas condições. O drama é coletivo e a solidariedade entre os acompanhantes logo se espalha, aumentando a esperança de familiares e doentes. As pessoas buscam se ajudar, já que ninguém do corpo médico do HM aparece para dar uma palavra de conforto às vítimas do descaso.
Enfermeiros e demais funcionários assistem tudo passivamente. Uns veem TV, enquanto outros desfilam de um lado para o outro, torcendo para que a madrugada acabe logo e traga o dia seguinte para também voltarem para casa.
-Toda noite é assim. Todo dia é assim. Aqui está superlotado e não tem médico para atender a demanda – disse um enfermeiro, fugindo a novos questionamentos quando disse que era jornalista.
Deixei o hospital sentindo ainda mais dores. No caminho de volta pra casa, aquelas imagens insistiram em me acompanhar. Demorei a pegar no sono e fiquei pensando no sofrimento de centenas de pessoas que perdem suas vidas por causa de um sistema falho e inoperante. Dormi dopado e quando acordei no outro dia pensei que tivesse tido um pesadelo, mas logo percebi que não foi um sonho. A marca da agulha que anestesiou meu corpo estava bem visível e me trouxe de volta àquela madrugada que não vou esquecer jamais. A imagem do sofrimento de dezenas de pessoas me acompanhará por um longo tempo ainda.
A partir desse dia nefasto, decidi me tornar mais vigilante e cobrar todos os dias das nossas incompetentes autoridades um serviço mais digno e mais humano à população. Acionarei o Ministério Público se preciso for e exigirei que o órgão ministerial também cumpra seu papel fiscalizador e passe a ser mais atuante, pois esta é a sua função.
O MPE precisa e deve acompanhar in loco o drama dos cidadãos santarenos na emergência do PSM, se possível durante a noite. A imprensa também precisa ser mais independente e livre para mostrar a verdade nua e crua e não se prender aos releases publicitários, que dão destaque aos incompetentes e responsáveis pelo caos na saúde pública em Santarém. É hora de dar um basta nesta situação de calamidade.
Eu não serei cúmplice desse crime atroz que é cometido todos os dias contra pessoas inocentes!
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* É jornalista, editor do Portal na Hora e do jornal Tribuna do Tapajós
Também conheci esse inferno, em circunstancia é claro nada agradáveis e como você também não conseguia dormir a noite lembrando tudo o que vi naquele lugar, e digo uma coisa, imdependente de política e administração municipal e tudo mais…os profissionais que trabalham la deveriam ter um pouco mais de humanidade, pelo menos educação e respeito.
Sentir na pele é dureza amigo!
Raros os profissionais de saúde que atendem os pacientes com respeito. Dá para contar nos dedos.
O pior é que acham que os procuramos por causa da sua cara bonita, ou da beleza do lugar.
caro amigo jeso ,vc é uma pessoa inteligente. a culpa não é só do pt, mas tem a mão do PMDB da parte do deputado ,pq o secretario de saúde é o filho dele nada contra porem coinscidentemente ele é o vice-prefeito .vc caro amigo jeso acha q ele vai dar conta das duas funções. gostaria q vc com toda sabedoria q deus lhe deu comentase esta dupla função.,
Caro Espião, o cargo de vice-prefeito, pelo menos em Santarém, é apenas decorativo. Não vejo problema algum, portanto, que o ocupante do cargo exerça a função de comando de outra pasta no governo.
A VIDA REAL
há dois anos presenciei essa mesma cena ao socorrer uma amiga, que após todo esse processo de identificação e triagem interminável foi atendida por um médico em exatos 3 minutos. Relatei essa história aqui mesmo no blog.
Impressiona-me o João Alho argumentar que o hospital atende outros 20 municípios e que é financiado apenas com recursos do município de Santarém, isso não é verdade, recursos do governo Federal e até do Estado também financiam o Hospital Municipal que até pode ter como principal mantenedor o município.
Se atendemos outros municípios, isso é facilmente comprovável, portanto temos argumentos muito sólidos para reivindicar junto ao Estado e Governo Federal a ampliação dos investimentos em saúde pública. Não será por falta de uma justa justificativa que não teremos atendida essa reivindicação. Ou será que os investimentos, mesmo que aquém de nossas necessidades, estão sendo geridos de maneira a contemplar os vampiros que adoram as palavras “comissão” e “percentual”?. Denuncias não faltam, vimos muitas aqui mesmo no blog. A má gestão ou gestão mal intencionada só contribui para agravar o que já era difícil.
Achar que os pacientes provenientes de outros municípios agravam o problema e que por isso deveríamos pleitear algum recurso desses municípios para melhor atender em nosso hospital municipal é um argumento absurdo que tenta justificar o injustificável.
Em nossa região de Juruti a Almerim, do Alto Trombetas a Jacareacanga nosso município é a metrópole e o centro econômico e educacional. É onde todos os municípios sem exceção vem adquirir parte do que consomem, desde alimentação, vestuário, infra estrutura e principalmente serviços. Todos contribuem com a arrecadação fiscal, seja municipal, estadual ou federal. São esses mesmos municípios, junto com a migração nordestina, que ajudaram Santarém a ter a grandeza que tem hoje em nossa região. Se nos mandam seus doentes, nos deram também alguns de seus melhores filhos, que em nossa cidade vieram estudar e hoje contribuem como profissionais liberais, professores, empreendedores, escritores, músicos, funcionários públicos, Resumindo: sempre nos deram muito.
Não podemos ter o mesmo olhar míope e pensamento mesquinho que Belém sempre teve com relação ao oeste do Estado do Pará. Enquanto Santarém não trabalhar a integração regional, com um olhar generoso e uma atitude de responsabilidade para com os outros municípios de nossa região, não construiremos as condições para sermos um novo Estado da Federação. E caso esse Estado aconteça será um Estado de grupos e de interesses privados e não um Estado de direito e do cidadão. Será o Estado da miséria para o povo e de farra com os recursos públicos para os vampiros espertalhões. Isso é o que temos visto e essa é a real questão.
Como sempre: Quem administra a saúde pública, tem os melhores planos de saúde. Quem administra o transporte público, não anda de ônibus. Na educação, seus filhos estudam nas melhores escolas particulares. E assim vai…
Assunto saúde é pra ser tratado na mais alta das prioridades que existem dentro de um governo. Se prefeita, governador falaram e não cumpriram na hora de votar, manda essa cambada de gente sem compromisso com os cidadãos santarenos e paraenses pra muito longe da urna, nem deveriam ter suas legendas estampadas…se esse povo gosta ou não do PT, façam uma busca no GOOGLE da palavra: MENTIROSO e vejam quem aparecerá o primeiro da lista. Seria menos complexo formar uma cooperativa pró-saude, beneficiando os desfavorecidos, do que acreditar em partidos e políticos irresponsáveis. Será que existe um cidadão de atitude em Santarém pra cuidar disso?
Antes de mais nada, nosso país não tem problemas quanto a legislação na administração pública, nossas normas são eficientes. No entanto, a prática é bem diferente das normas.
Nosso maior problemas não estão centrados em legendas partidárias, estão sim voltados para a gestão da coisa pública, o governo é formado por pessoas políticas, e é justa aí que reside nossas mazelas.
Essas pessoas (não somente os gestores, mais seus auxiliares, secretários, agentes, e todos que ajudam a formar uma administração), não se sentem compromissados com o princípio da Supremacia do Interesse Público, muito menos em preservar princípios básicos como a moralidade, eficência, impessoalidade. Entra governo (muda-se partidos) sai governo (muda-se partido), e a NEGLIGÊNCIA em relação a bens fundamentais da vida como SAÚDE e EDUCAÇÃO, é passada de mão em mão (e às vezes de partidos para outros partidos).
O que nós temos hoje são pessoas comprometidas muito mais com a iniciativa privada do que com a coisa pública, muitas vezes temos um mesmo profissional que é excelente, pontual, responsável, cumpridor das suas obrigações e que trabalha num hospital privado, na escola privada… e quando vai cumprir o mesmo trabalho em um órgão público é muitas vezes relapso, pois esse meio (começando com o seu gestor) NÃO TEM COMPROMISSO a quem de direito. É claro, que existem exceções a regra, cada vez mais raro, mas existem.
Por fim, os administradores precisam separar URGENTEMENTE, o que é público da sua vida privada. O que é público é para todos, e devem ser administrados com ISONOMiA E EFICIÊNCIA para todos.
PPI Programa Pactuado Integrado – João leia isso.
Oculista.
Mais não era esse Governo/ da Maria e do Aguerrido PT, que apregou pelos quatro cantos , que tudo ia mudar….que no seu governo Santarém se tornaria uma nova Bruxelas….que aqui ninguem roubaria e nem deixaria roubar…..Que jamais os Governos do PT/ Maria seriam deleterios e Perdularios. Iriam mostrar o que é governar, ao nosso povo.. a vida do Povo de Santarem, seria lembrado antes do Governo Maria e deposi de Maria…pelo que estamos assistindo…..
Já fui testemunha desse escandalo que é a saude publica em santarém, quando um primo meu teve necessidade de atendimentos. Com certeza essas crianças que sofrem nesse hospital se vierem a falecer irão todas para o Céu, pois sairam do Inferno.
é uma situação complicada. não muito diferente de demais hospitais públicos do brasil e da américa latina, mas é uma situaçao que PRECISA ser mudada. Porém, fica complicado. Um hospital pequeno serve de referência para 20 cidades da região e a própria Santarém. Porém, é financiado somente com os tributos mocorongos, enquanto as cidades vizinhas, que usufruem do serviço, pagam seus tributos em suas cidades, mas nunca chegarão aqui na nossa. Se houver uma fiscalizaçao maior em cima das pessoas de outras cidades, poderemos pegar algum dinheiro para reformar esse hospital e acabar com esse caos.
Há 7 leitos de UTI para santarém e todas essas cidades. 7 leitos não cobrem nem a demanda santarena…
Mas só uma pergunta: você melhorou da sua dor? Se a resposta for sim, então o hospital – visto que é um lugar onde se procura saúde – foi bom para você…
Caro João,
Não é só no Brasil e na América Latina que acontece isso. Nos EEUU, no rico estado da Califórnia, no auge da crise de 2008/2009, pessoas que perderam seus empregos e bens se amontoavam nas ruas em busca amparo habitacional e por saúde. Na França não é muito diferente, principalmente para os emigrantes e descendentes destes.
Infelizmente este é o retrato da saúde pública em nosso Município. Temos, de um lado, uma grande maioria agonizando a espera de um singelo atendimento que possa senão curar, mas, pelo menos, minimizar a dor sofrida, enquanto que de outro lado, nós deparamos com notícias de desvios de recursos direcionados à saúde pública operacionalizado por estes amontoados de bandidos acéfalos e imbecis que hoje gerenciam nosso Município.
Se tivéssemos uma instituição fiscalizadora – Ministério Público – independente política e administrativamente, todos, indistintamente todos, já estariam em seus devidos lugares, ou seja, atrás das grades, no entanto, lamentavelmente, temos uma condescendência jurídica com essa gente que chega a pontos extremos.