Golpe de 64: uma reflexão sociológica

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por Hermes Corrêa Bessa (*)

Hermes Bessa - Blog do JesoApós cinquenta anos do início da criação do “monstro”, esse nosso artigo não pretende esgotar, resumir ou ocupar o lugar da verdade absoluta ou coisa desse tipo. Pretendemos sim, dialogar e mostrar alguns detalhes, no meio de milhares, que foram cruciais para a criação do “monstro”.

Aconteceu que os Estados Unidos, muito preocupados com a proliferação dos ideais marxistas e reformistas, que estavam eclodindo pelo mundo, perceberam a possibilidade dos países da América do Sul, assim como o Brasil, se transformarem numa extensão dos ideais comunistas e socialistas da União Soviética. Nesse período o mundo estava dividido pela guerra fria.

Aconteceu que os EUA tomaram conhecimento dos discursos reformistas do presidente João Goulart (“Jango”), divulgando uma nova forma de governo para o povo. Eles, os EUA, interpretaram isso como sendo perigoso para os seus interesses. Não queriam uma nova Cuba de Fidel Castro por aqui.

Dentre diversos detalhes, indivíduos e grupos da sociedade brasileira, como a classe média, a classe média alta, a igreja católica e a imprensa, dentre outros, tramaram com os militares um golpe no Governo do Jango.

É aí que a coisa começa. É aí que o monstro começa a ser gerado no ventre da sociedade brasileira.

tortura - pau de araraTortura: marca registra do ditadura militar no país

Todos esses grupos, já citados, não tinham ideia com quem estavam se metendo. Pensaram que em pouco tempo após a tomada do poder, os militares devolveriam o Brasil para a classe média e alta através de eleições diretas e populares. Não foi isso que aconteceu!

A verdade é que a classe média brasileira queria retirar o Jango do poder a qualquer custo.

Em poucos dias, esses mesmos grupos da classe média (direita brasileira) e classe média alta (direita brasileira) somente vão perceber o que estava acontecendo quando tomam consciência da “RASTEIRA” dada pelos militares. É aí que a coisa muda de figura. Um golpe dentre do outro.

É nesse momento que o Brasil será transformado em MARIONETE dos Estados Unidos da América, e por outro lado, os grupos antiditadura ficarão nas mãos da União Soviética e de Cuba, do ponto de vista ideológico. É agora que serão gerados os verdadeiros grupos com estilo de SUBPRODUTOS desses dois países.

O Brasil vai se vê no meio de uma TRAMA. Desencadeada naquilo que chamamos de ANOS DE CHUMBO. E isso tudo por causa, basicamente, de dois grupos e seus interesses internos, ou seja, a direita sendo manipulada pelos Estados Unidos, através dos militares, e isso por meio de muito dinheiro sendo injetado na nossa economia e nos bolsos deles, querendo fazer as vontades e desejos da classe média, e do outro lado a esquerda sendo manipulada por comoções de ideais comunistas e socialistas.

Sendo que esse segundo, como não tinha dinheiro como o primeiro, passaram a “bancar” os seus ideais com dinheiros de assaltos a bancos, dentre outras coisas. É aí que o caldo engrossa!

Quando se tenta sair de uma ideologia, geralmente se cai em outra. Foi sempre assim o que aconteceu com o Brasil em todos os momentos da sua história.

É válido lembrar que há a história, dentro da ditadura, que não se conta ou pouco se comenta, nos livros de história ou na mídia, dos diversos militares que ficaram CONTRA o golpe e as práticas de torturas.

É válido relembrar, também, que tais práticas de torturas, sumiços de prisioneiros políticos, assassinatos, dentre outras barbaridades, acontece, somente, quando os grupos, que são SUBPRODUTOS da União Soviética e de Cuba, começarem a pegar em arma para realizar a luta armada contra a ditadura.

É aí que virá para o Brasil, como tipo importação, às técnicas de tortura até então nunca visto, como a maleta que dá choques elétricos, etc. Tal prática já tinha sido aplicada pelos Estados Unidos no Vietnã.

Na ditadura todos perderam. Inclusive os próprios militares. Há diversos episódios dessa história, em especial um, que foi a criação do navio presídio para “guardar” militares contrários ao regime, em alto mar. Ficaram presos e recebendo torturas os militares que não aceitaram participar do MONSTRO.

As esposas e filhos dos militares, contrários à ditadura, eram humilhados e desrespeitados quando queriam vê seus parentes na prisão. A maioria dos presos eram oficiais.

Olhando as torturas nos militares e pelos militares, nosso pequeno e modesto texto, pretende mostrar que os grupos que quiseram sair do sistema de Governo de Jango, aparentemente comunista, acabaram caindo em outro, talvez até muito pior que o dele.

Na sociedade as coisas acontecem assim como no período da ditadura militar: os grupos mais influentes da sociedade quiseram dá um golpe num governo e acabaram caindo em outro.

Acredito que se o Jango estivesse vendo, ou podendo falar alguma coisa para as pessoas que retiraram ele a força do poder, diria essa frase: “BEM FEITO PRA TODOS VOÇÊS, NÃO QUIZERAM CRIAR O QUE NÃO CONHECIAM, POIS AÍ ESTÁ: O MONSTRO!”.

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* É doutorando em Psicologia Social pela Universidade Argentina John F. Kennedy (Buenos Aires). Sociólogo, é presidente do Sindicato dos Sociólogos do Oeste do Pará – SINSOP.


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7 Responses to Golpe de 64: uma reflexão sociológica

  • O golpe de 64 foi um capítulo curioso na História do Brasil. Havia uma política anticomunista nos Estados Unidos, devido a Guerra Fria. Eram tempos que os Estados Unidos estavam investindo maciçamente contra os soviéticos, seja em tecnologia espacial, militar e influência econômica e política o redor do mundo.
    A CIA atuava com força na América Latina. Patrocinando ditaduras, grupos de Direita, golpes de estado. Aqui encontraram o ambiente propício para agir. Com grupos entre os militares tentando há tempos aplicar um golpe de estado no Brasil, esses grupos se tornaram aliados inestimáveis para avançar com seus planos.
    Somente a forma como João Goulart pode assumir (parlamentarismo), já mostra como esses setores estiveram atuando desde o início para reduzir o poder do presidente ou manter sua influência acima dos planos dele.

  • Creio que Carlos Lacerda foi um dos primeiros a perceber o monstro que tinha ajudado a criar, quando viu que não poderia satisfazer o desejo de se tornar presidente, nem pelo voto nem pela mão dos militares.
    O bicho tinha saído do ovo e começou a comer tudo.

  • Só faltou dizer que foram os EUA que decretaram a “revolução”. Pela cara do articulista, ele só soube das coisas por ouvir dizer. Devia ser um bebê ou nem nascido naqueles anos. Não deve ter vivenciado nada. Os conspiradores podiam até almejar a ajuda dos americanos, mas os os gringos não foram determinantes na derrubada de Jango. Foi coisa de brasileiros mesmo. Essas versões para inglês ver são disseminadas pelos que sobraram das esquerdas derrotadas e dizimadas, que hoje estão no Poder, com o propósito de minimizar sua própria incompetência ao serem derrotados e ainda tentar impor à posteridade a tese de que a derrotada foi para uma “potência estrangeira” e não para os milicos daqui mesmo. Nessa versões delirantes, falta verdade à bessa.

  • Ufaaa!!! Enfim um pouco de honestidade intelectual por essas bandas!!! Eu ainda acrescento mais caro Hermes. Não fosse a inabilidade politica e a total falta de percepção do que se passava ao seu redor, e ainda tendo ao seu lado um cunhado irresponsável(Leonel Brizola) que ao nacionalizar empresas americanas certamente despertou ainda mais a ira dos EUA esse golpe certamente não teria acontecido. Diante de todo esse barril de pólvora no qual o presidente Jango e seus aliados se meteram e somando-se o contexto da guerra fria a situação dele ficou insustentável.

  • O interessante caro Hermes, é que as reivindicações de grande parte do povo abandonado desse país e sustentado por programas sociais frágeis, como o Bolsa Família (acho até louvável em parte, melhor que essa grana ir parar em paraísos fiscais dos corruptos brasileiros), estão muito longe de proporcionar uma condição de independência sustentável para milhões de brasileiros. Os sintomas sociais atuais não diferem quase nada do período vivido por Jango e tantos brasileiros que almejavam pelo menos uma reforma agrária decente, e investimentos mais sólidos na educação do povo brasileiro, que os daria melhores chances de uma saúde melhor, geração de empregos, e , acima de tudo um mínimo de perspectiva de futuro para gerações que viriam, a partir do momento que o povo decidiu que João Goulart foi eleito democraticamente, para governar o Brasil, e não os três patetas.

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