Impressões

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por Josué Vieira (*)

I
Ao escrever é comum negarmos o eminente. Aquele estágio de aproximação das pressas momentâneas. Por isso, para se falar das emoções em furor, precisaria conhecer e cumprimentar o lado cativo do abandono. Metaforizei as digitais das entradas, uma palavra amena para sentimentos fugazes, pois o momento proporciona as despedidas em cacos. A felicidade é efêmera; o amor de eterno possui apenas história, seu teor emociona, no entanto permanece no depender.

II
A impressão que passa é que a cada rajada de vento são pedras invisíveis atiradas sob o corpo inerte que se anuncia ao rio. Ainda noite, ou quase, pois o néctar deste momento daqui a pouco chegará ao fim, quando da direita raios novos de um dia tardio, nascidos envelhecidos, se colocarem ao dispor das areias do tempo.

Enquanto não chega, o corpo amacia-se no orvalho findo de uma noite idem. São trivialidades de uma descrição esquecida na memória de um dia-de-nunca-haver. Um momento que se fez historia sem sê-la. Logo, a mim restou metástase.

III
Nasci em uma família classe média, daquela com seus futuros e esperanças moldada pelos livros ou interesses dos outros. Minha irmã casou com um bancário de família meia besta e de riquezas findas. Fui o último a sair de casa, quando aconteceu foi por causa do afundamento do piso da cozinha. Não voltei mais na casa. Comprei uma Kit-net próximo dos galpões de trigo e arroz localizados próximos a beira de cais.
17 anos em cima de uma datilografia, depois computador, pela necessidade da saúde voltei aos anos colegiais do lápis e da caneta. Se hoje escrevo é porque as idéias estão nas pontas dos dedos de unhas roídas, toca nas carnes.

IV
Não sei se o Sr. está me compreendendo, mas não é uma raiz mais desenvolvida do que há no seu pulmão, é um outro que surgiu devido ao desenvolvimento deste que há três anos foi diagnosticado. Em exemplo é como algumas células malignas se rebelassem contra os sistemas de controle do organismo e se tornassem independente. Metástases se formam a partir de situações graves. São o selo definitivo de malignidade, quando surgem, quase sempre é incurável. Em muitos pacientes, a primeira manifestação clínica de um cancro está relacionada com suas metástases.

V
É longe de todas as probabilidades cotidianas de minha identidade, que me torno fuga, a longitude das certezas, que de verdade, resta-me os fios da mentira. Um simples hoje para um amanhã sem mistério ou aura esperançosa pairando nos deveres, compromissos e alegrias, por isso não há esquiva em minhas palavras, sempre direitas e carniceiras, é pela negação que vejo o brilho dos fatos, pela gorda palavra: momento, que me torno presente.

VI
A mesa deste velho sisudo: comprimidos, duas caixas, copo de leite deixado na noite anterior, muitos cigarros e baganas, um som baixinho ecoando pegadas no ambiente, lembra a velha dos Floyd. A manhã escapa seus primeiros raios pelas frestas da janela entreaberta, já são 6:16, é o que avisa o celular, faltando 14 minutos para que estes pedaços de idades amanheçam definitivamente para o mundo. Dona Val, vizinha, já de pé anuncia-se para mundo com o volume no três de seus Phillips, a tapioquinha besuntada de cabeça de touro cagueta a mania de 24 anos na criação dos moleques; Sandra a menor daquela casa aparece no quintal com punhado de quebradinho para os patos e galinhas, já seria hora de se comprometer com o mundo.

VII
A fumaça do cigarro posto no cinzeiro transmuta o tempo em nicotina, preocupações para dias urgentes em vidas sem adjetivos. Novamente de baixinho um som se faz substantivo naquela aliteração de ações, gole-trago-gole-algo.
“Fiz por onde estar sem um níquel se quer meu pai, abandonei os cadernos por preferir a vida simples. Estou perto de Novo Progresso, trabalho na fazenda do sogro, mas nada de garantia, tarefas, tarefas e poucos tapinhas na costa. Me casei… to sem dinheiro, precisando de uns trocados para levar a vida de onde estou, prometo que logo reenvio o valor”. Latejam nos olhos, que umedecidos rastejam pelo ar buscando um ponto qualquer, claro, escuro, amarelado, um ponto sem muito de transcendental, ponto e final.

O quintal quieto em sua grama alta. Lá no distante daquela areia um corpo amanhece na praia. A Kit-net, a praia, gole, escrever. Sr. Sr. Sr. e ainda sim a cabeça voltada para o quintal lembra Metástase.

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* Santareno, é poeta e escritor.


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Santareno, é poeta e escritor, além de professor universitário. Escreve regularmente neste blog.

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