O vice que não quebrou o adversário. Por Dornélio Silva

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O vice que não quebrou o adversário. Por Dornélio Silva
O petista Dirceu Ten Caten, vice de Hana Ghasan. Foto: reprodução

No artigo Por que a máquina perdeu no Pará listei os cinco principais motivos da derrota do continuismo representado por Hana Ghassan. Faltou, porém, um sexto motivo: talvez o mais revelador da lógica que condenou a chapa governista antes mesmo de a campanha começar: a escolha do vice.

O que os números já indicavam

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A engenharia de uma chapa competitiva no Pará não é um detalhe protocolar; é cálculo territorial e de identidade. Dr. Daniel vencia com folga em dois eleitorados que decidem a eleição estadual: o voto evangélico e o voto de direita.

Diante disso, a regra básica da aritmética eleitoral apontava para uma só saída para Hana: compor a vice com alguém capaz de furar justamente esse bloqueio: um nome ligado às igrejas evangélicas ou ao agronegócio.

Era o movimento óbvio de contenção de danos. Esses grupos perceberam a brecha, se mobilizaram e chegaram a lançar nomes próprios. A chapa governista tinha, ali, a chance de reduzir a vantagem do adversário no terreno onde ele era mais forte.

Por que o vice foi para o PT mesmo assim

A decisão, porém, não obedeceu à lógica eleitoral — obedeceu à lógica dos acordos. Helder Barbalho tinha compromisso com o presidente Lula e, por isso, manteve a vaga de vice com o PT, entregue a um deputado petista, Dirceu Ten Caten. Pesou também a pressão interna: o cacique do PT paraense, senador Beto Faro, ameaçava: se o vice não ficasse com o PT, lançaria candidatura própria ao governo.

Essa ameaça atacava o único objetivo que Helder não podia perder: vencer no primeiro turno.

Uma candidatura de Beto Faro fragmentaria o campo governista e empurraria a disputa para o segundo turno — exatamente o cenário que Helder queria evitar. Para blindar o primeiro turno contra uma dissidência à esquerda, a chapa abriu mão do único movimento que a protegeria à direita.

O erro de leitura

Aqui está o paradoxo que, a meu ver, define o sexto motivo: o PT já estava dentro da coligação de Hana. Colocá-lo também na vice não somava um voto novo, apenas carimbava a chapa com um rótulo que, no Pará de hoje, repele eleitorados decisivos.

Em vez de abrir uma frente nova, o vice petista reforçou a identidade que o adversário queria colar em Hana e, no limite, freou sua ascensão nos setores onde ela mais precisava crescer.

Some-se a isso o fator que não se concretizou: Mário Couto, à extrema-direita, não conseguiu se viabilizar e foi derrotado antes da disputa. Se tivesse ido às urnas, provavelmente fragmentaria o voto de direita e forçaria o segundo turno que Helder temia. A não-viabilização de Couto, somada à vice petista, ajuda a explicar por que Dr. Daniel conseguiu consolidar o campo adversário e fechar a conta já no primeiro turno.

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O mapa que selou a conta

A geografia do voto confirma o diagnóstico. O Pará está nitidamente dividido:

Sudeste e sul paraense: dominância da direita e do agronegócio.

Sudoeste paraense: mesma lógica.

Baixo Amazonas: direita dominando.

Metropolitana e nordeste paraense: as regiões de equilíbrio, onde a eleição se decide.

Marajó: o único reduto confortável da esquerda — e com peso eleitoral insignificante, cerca de 5% do total de eleitores do estado.

Numa correlação de forças assim, a chapa governista precisava de um vice que disputasse o eleitorado das regiões onde perdia, não um nome que confirmasse sua marca nas poucas áreas onde já era forte.

O vice petista fez o contrário: reforçou o já conquistado e deixou intocado o que precisava ser conquistado. Apostar a composição da chapa na identidade que mobiliza, no máximo, 5% do eleitorado — ao custo de reforçar o rótulo que repelia a maioria do estado — foi uma troca estruturalmente ruim.

O sexto motivo não é apenas “um nome errado na chapa”. É o sintoma de uma decisão tomada pela gramática dos acordos partidários — compromisso com Lula, contenção de Beto Faro, garantia do primeiro turno para a eleição de Helder ao Senado — em detrimento da gramática do eleitorado paraense.

Helder conseguiu seu objetivo pessoal, o mandato de senador, mas pagou o preço de não eleger a sucessora. A vice que deveria quebrar o impacto do adversário terminou confirmando o enquadramento que o derrotou.

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∎ Dornélio Silva, paraense, é cientista político e diretor da Doxa. Leia também dele: A esquerda no Pará se esfacelou. Centro domina o cenário municipal. e ainda: O eleitor preferiu o continuísmo em vez da alternância de poder.

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

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