por Helvecio Santos (*)
Minha irmã Nildinha, meu irmão Etelvino e o Ronaldo, ex-genro do meu inesquecível amigo Bigode, que nos ofereceu o transporte, voltávamos do sítio da nossa família na Costa de Óbidos.
Estávamos em uma voadeira de alumínio de uns cinco metros por um de largura, motor de popa, daquelas que os padres usavam ou usam nas visitas aos ribeirinhos. A noite nos pegou na altura do Paupixuna e, sem holofote, o Amazonas é um breu.
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Lá pelas tantas, vislumbramos uma luzinha e rumamos para lá. Era a casa do “Seu” Quimito, amigo do papai e, conferida a descendência, gentilmente nos abrigou.
A consideração com o “Velho Comandante” era tanta que nos serviram um jantar à base caça e TV, dentro de casa, pois lá fora a carapanãzada não dava trégua.
Na manhã seguinte, antes do sol nascer, soltamos amarras, melhor dizendo, empurramos a voadeira em direção a água e botamos o caiaque pelo meão da correnteza. Na altura da ilha do Bom Vento, veio o susto. Um baque forte e lá se foi a hélice do motor, provavelmente quebrada no casco de uma tartaruga. Por azar, estávamos fora da rota dos barcos e, a duras penas, remando, batemos os costados no remanso do Tapará.
Estávamos sem água e os últimos biscoitos ficaram juntamente com palavras de agradecimento pelo acolhimento da noite anterior e, com a sede como companheira, constatei, “in loco”, uma realidade que até então me recusava a ver.
Entre as toras que trazidas pela água ficam nos remansos, o visual era caótico! Recipientes, sacos, roupas, pedaços de isopor e fezes humanas. Já tinha ouvido falar que tartarugas, na busca de alimentos, morriam por ingerir pedaços de sacos plásticos, mas não imaginava que o rio que fazia parte da minha infância, de onde pegávamos água para beber, dava nojo de ser visto. Mais parecia um depósito de lixo, melhor, um lixão que ondulava ao sabor das ondas.
Não era necessário exame em laboratório! O juízo dizia que a água do Amazonas era imprópria ou, no mínimo, não era recomendável para ser bebida.
Desde então nunca mais viajei pelo Amazonas. Não houve oportunidade e nem vontade, mas pela crescente poluição que vejo em Santarém, nem é preciso viajar para afirmar que está pior.
Comparativamente, já que o rio é nossa estrada, imaginem como ficaria a rodovia Presidente Dutra (Rio/São Paulo) se os ônibus que nela trafegam despejassem o sanitário diretamente na via. Isso é o que os barcos fazem com nossos rios/estradas e as autoridades nada fazem.
Praticamente todo ano vou a Santarém mas, cada vez mais, a alegria em rever familiares, amigos e lugares que me remetem a uma infância e adolescência de muita luta mas de muita felicidade, é embotada pela crescente degradação que vejo e, o pior, todos se calam e o silêncio serve como sinal de permissão.
Num giro de 360 graus e também no chão e no ar, a poluição está por todo lado por obra do nosso povo e com o consentimento ou participação dos governantes. Como já disse anteriormente em artigos com este enfoque, o que mais dói é que algumas medidas administrativas envolvendo a população resolveriam grande parte dos problemas.
Se pensarmos na água como uma riqueza de valor superior ao petróleo, a poluição nos rios toma contornos de irracionalidade. A cidade despeja esgoto, os barcos despejam esgoto e o lençol subterrâneo é contaminado por fossas sanitárias. Assim, não é preciso muito esforço para imaginar o que bebem aqueles que não têm dinheiro para comprar água mineral.
Não é possível esperar mais!
Rede de esgoto e estação de tratamento são obras para ontem. Também os barcos deveriam ter caixa coletora e, a cidade, bombas de sucção em caçambas para coleta dos dejetos que, processados, virariam adubo.
Nesse festim irracional, os ônibus dão uma grande contribuição. A cada arrancada uma nuvem tóxica “preteja” o ar. Os barcos também contribuem fortemente, mas os ônibus, comparativamente aos barcos, são uma ofensa maior, pois são “sucatas” importadas dos grandes centros, onde os empresários são obrigados a renovarem a frota em intervalos regulares. As “sucatas descartadas” servem ao povo santareno com as bênçãos das autoridades responsáveis.
Completando o festim macabro, há também a poluição sonora e a poluição visual.
O componente mais ilustre da poluição sonora é o complexo exibicionista dos donos de “carrão” com suas possantes caixas de som instaladas no porta malas dos veículos. Em altíssimo volume, obrigam os circunstantes a partilharem seu gosto (?) musical, normalmente um “axé bunda” com letras de duplo sentido, apelando para a sexualidade com conotação imoral, num verdadeiro acinte aos bons costumes. Caso de polícia, pelos decibéis e pela imoralidade das letras.
Alter do Chão, narciso de tudo que acontece na sede do município, não poderia ficar de fora da “moda”! E, com um toque de criatividade, além dos “carrão”, os donos de barraca esmeram-se em acabar com a paz de um local que já foi paradisíaco e, na disputa de ritmo e decibéis, não se escuta música nenhuma. Vira uma mingau de notas musicais que certamente um dia será vendido quentinho, em cuias, na pracinha central. De prático, um incômodo que afugenta os freqüentadores ou lhes dá uma baita dor de cabeça.
Já no quesito poluição visual, não erro muito se disser que ficaríamos entre os primeiros numa disputa nacional. Os letreiros estão por toda parte e cada vez mais os comerciantes aumentam o tamanho e instalam braços de sustentação para o meio da rua.
A impressão é que não há nenhum ordenamento quanto a tamanho e locais de instalação. Já os “outdoors” merecem um capítulo à parte que este apertado espaço não permite discorrer.
A poluição visual também está na ocupação dos espaços públicos os quais deixam de sê-lo e se transformam em privados, sem que para isso os ocupantes precisem possuir título de posse. Como “seria cômico se não fosse trágico”, é a versão nanica da febre da “privataria” que foi moda no passado e, criticada quando era conveniente, recentemente virou virtude copiada e aplicada em alguns aeroportos.
Nessa privatização às avessas que se dá nos espaços públicos de nossa cidade, os melhores exemplos são nossas belas praças Monsenhor José Gregório e da Matriz que diariamente são ocupadas por camelôs.
Tempos atrás ouvi um “sociólogo” dizer que o comércio informal era um fenômeno social, produto da crise que atravessávamos. Hoje somos a sexta economia do mundo e, pelo que o Governo Federal propala, estamos navegando em “céu de brigadeiro” frente à crise mundial. Se mesmo assim a informalidade tem esse fôlego, imagino como estão as praças das cidades de alguns países europeus, sabidamente alcançados pela crise mundial.
O fato é que em Santarém somente à noite as praças são do povo. De dia prestam-se ao comércio de redes e “bugingangas” chinesas, compradas na 25 de Março, em São Paulo, enchendo o bolso de poucos e nada acrescentando à cidade, o que é inconcebível!
Na minha modesta opinião, trata-se de uma esperteza comercial. Penso que funciona assim: com somente um alvará são ocupados diversos pontos de venda (camelôs) com mercadoria dada em consignação pelo lojista dono do alvará.
Esta é a explicação, no meu ponto de vista, da origem da mercadoria. Já os “empregados”, mantém-se numa parceria conveniente com o titular do alvará. Este não recolhe encargos sociais pois não tem empregados e ganha vários pontos de venda. O “empregado” não tem horário, ganha sobre o que vender e pode beber sua cervejinha mexendo com as mulheres enquanto espreguiça-se numa cadeira de praia. Alguém tem explicação melhor?
Minha sugestão é que a prefeitura disponibilize uma assessoria para os que quiserem se organizar em sociedade, dispensando a taxa do alvará por um determinado tempo e dando prazo para a desocupação do espaço público. Teríamos mais carteiras assinadas, mais alugueres, espaços públicos limpos e livres para serem freqüentados por todos.
Ah! Ia esquecendo! Como findou a visão do lixão no remanso do Amazonas?
Chegamos em Santarém por volta de 16h, com muita fome e muita sede, rebocados por um barco que, contrariando a ética marítima, cobrou o reboque. Já que na navegação o socorro gratuito é um dogma, percebi que um mandamento sagrado para os marítimos também já estava poluído.
No dia seguinte, este “caboco” viajou para o Rio de Janeiro e, desde então, passou a fazer da sua escrita, arma de luta, numa, às vezes, incompreendida tentativa de ajudar a salvar o que nos resta da beleza que a natureza nos deu.
Creiam, dói-me fazer este depoimento, mas amor não é sempre dizer palavras bonitas. Às vezes é preciso usar palavras duras.
P.S: dedico estes escritos à minha irmã Nildinha, companheira de aventuras para lembrar com gargalhadas até o resto da vida.
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* Santareno, é advogado e economista. Reside no Rio de Janeiro. Escreve regularmente neste blog.

Caros Jeso, Pedro e Darivaldo, obrigado pelos “posts”que considero elogios. No entanto, entristeço-me quando percebo que coisas fundamentais, no meu entendimento, como poluição dos nossos rios, poluição visual e poluição sonora, significam muito pouco para nossa gente. A prova do que afirmo está no fato de que somente 03 santarenos se pronunciaram sobre o artigo em comento. Em sentido contrário, notícias como “Nova série na Record News”, consegue mobilizar 35 leitores. Fico triste pois coisas que são fundamentais para nosso bem estar e das futuras gerações, não têm tanta importância quanto assuntos banais, mormente fofocas (não estou dizendo que o artigo que cito é fofoca). Sonho com o dia em que um artigo como o meu, onde aponto situações críticas e até, humildemente, ofereço soluções, venha a gerar um longo debate e após, encontrada a melhor solução, seja levada aos entes públicos envolvidos e cobrada a implementação. Brevemente submeterei à apreciação de voces, “ACESSIBILIDADE”. TAPAJOARAMENTE, SAUDAÇÕES AZULINAS,
Helvecio meu amigo,
Teu texto é maravilhoso e folclorico.Como sempre é um prazer lê-lo.Volte sempre.Abração.
Darivaldo Coimbra
Jeso, sem querer te enviei o texto incompleto. Segue o restante.
Obrigado
Caro Helvécio,
Tudo o que se você falou, infelizmente, faz parte do cotidiano do povo brasileiro, pois tudo parece “normal”, principalmente no quesito sujeira e falta de educação, seja ela presente nas classes A, B, C, D, E, F, …. Todas essas pragas já fazem parte do cotidiano, e ai daquele que ouse se indignar, pois veem logo com aquela frase surrada, “os incomodados que se retirem”.
Aqui na “mangueirosa” talvez seja o pior lugar em termo de poluição sonora (os jornais dizem isto). É nos ônibus, com passageiros escutando o tal de (TECNOMELODY),
em alto volume, Igrejas Evangélicas em toda parte com seus educados decibéis e por aí vai. E o pior, ninguém faz nada. Os telefones disponíveis estão sempre ocupados ou desligados e não conheço lugar que foi “visitado” pelos agentes da lei.
O lixo em Belém está desde o Aeroporto até em frente das casas dos bacanas. Quem passa pelo Ver-O-Pêso, sente o quanto o lugar é “bem cuidado”. Um mal cheiro insuportável. E ainda querem que turistas visitem nossos cartões postais. Uma vergonha. Enfim, nós estamos na “selva” e salve-se quem puder.
Abs
Parabéns pelo texto, Helvecio, que trafegou na linha “guevavista” do “hay que endurecer, pero si perder la ternura jamás”. Poético e contundente!