A importância de um “laudo” sobre o rio Tapajós

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Do jornalista e professor universitário Manuel Dutra (foto), sobre o post Estrago ambiental a “olho nu” no rio Tapajós:

Manuel Dutra - Blog do JesoCaro Jeso,

Quero parabenizar o deputado Dudimar Paxiúba pelo seu trabalho em favor das populações do Tapajós, notadamente quanto à grave ameaça de contaminação do vale do grande rio.

E quero também discordar quanto à necessidade de pesquisa de campo, urgente, a fim de verificar os níveis da degradação. O deputado afirma que basta a observação a “olho nu”. Dessa forma, não teríamos respostas a estas perguntas, que se acham na Carta Aberta ao governador do Pará:

1. “O Rio Tapajós e seus principais afluentes estão sofrendo processo de contaminação por elementos físicos e químicos estranhos à sua composição hídrica natural?

2. Esta pergunta se desdobra (em caso afirmativo): Que elementos contaminantes são estes? Quais os níveis da presença de elementos estranhos nas águas do rio? Há riscos para a saúde animal e humana? Há contaminação da fauna aquática, especialmente das espécies mais consumidas na região? Há contaminação do plâncton e da cadeia alimentar? Já existe contaminação humana? Há mudança de coloração das águas do Tapajós?

Portanto, há, sim, necessidade da pesquisa, da mesma forma e até com mais apuro do que se fez há 30 anos. Não sei se o deputado Paxiúba recorda o que ocorreu naquele momento, quando eu fiz dezenas de reportagens denunciando não só a mudança de cor do Tapajós, mas tudo que isso significava em termos de saúde pública, tanto dos garimpeiros quanto das populações próximas.

Naqueles anos foram realizadas pesquisas por cientistas da UFPA, do Instituto Evandro Chagas e da Universidade de Kumamoto, do Japão. Foram verificados os níveis de contaminação das águas, dos peixes e da cadeia alimentar e foram examinadas dezenas de pessoas cujo sangue e o sistema nervoso central se achavam comprometidos, com níveis de mercúrio no organismo muito acima do mínimo aceito pela Organização Mundial de Saúde.

Se o deputado Paxiúba está acompanhando a presente campanha, deve ter percebido que estamos iniciando uma luta que promete ser longa. A necessidade da pesquisa visa à obtenção de um dado concreto, científico, sobre o qual se possa trabalhar, inclusive denunciar, de maneira idêntica como foi feito da outra vez em que o Tapajós ficou tomado pela ameaçadora poluição física e química.

Demos um prazo ao governo do Estado a fim de que este gerencie esse trabalho, chamando e financiando instituições reconhecidamente capazes de executar o trabalho de campo e de laboratório. É por isso que solicitamos que o trabalho se faça por pesquisadores da área acadêmica – da UFOPA e da UFPA e também pelo respeitadíssimo Instituto Evandro Chagas.

O que nós pretendemos, com isso, é justamente fugir das observações apenas “a olho nu”. Nós queremos a prova irrefutável, a partir da qual poderemos, inclusive levar ao Congresso Nacional e a outras instituições a situação medieval da garimpagem e da mineração em geral, que se pratica à revelia das leis ambientais, causando danos às populações, danos que, agora, poderão ser irreversíveis.

Se a SEMA E A SEICOM já vêm realizando essas pesquisas há razoável tempo, onde estão os seus resultados? Além disso, queremos que a pesquisa seja realizada por pessoas/instituições sem vinculações administrativas com o governo do Estado e por pesquisadores que nunca tiveram e não têm vínculo administrativo com a atividade mineradora. Se essas instituições encomendaram tais pesquisas, quem é que as está executando?

Demos ao governo o prazo até junho deste ano, findo o qual esperamos ter recebido respostas às principais perguntas que lhe endereçamos. Se não houver as respostas, a luta prosseguirá, a olho nu ou por outros meios para conseguirmos comprovar a degradação e as ameaças à saúde pública – dos próprios garimpeiros e das populações envolventes – e à economia regional.


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8 Responses to A importância de um “laudo” sobre o rio Tapajós

  • Prezados , é extremamente acertada a proposta da pesquisa sobre os impactos físicos e químicos, porém é preciso ficar atento ao impacto social , ou seja a modificações antrópicas no leito e nas matas ciliares que protegem o rio Tapajós.
    Estamos falando de municípios que não apresentam infraestrutura de saneamento adequada para mitigar o impacto dos dejetos humanos ( orgânicos e inorgânicos). E também estamos falando de um processo de desmatamento que aflige as comunidades e certamente provocam alterações no Rio , com pouca vegetação secundária , a terra e demais materiais são levados para o Rio com as grandes chuvas.

    Temos que observar de forma a integral as possibilidades de impactos , mas a questão social é tão urgente quanto a questão física e química.

    1. De pleno acordo com o que diz Lygia Zamali. Pelo que se vê, a questão do rio Tapajós é complexa e exige a presença e participação de amplos setores sociais a fim de se evitar uma catástrofe que pode inviabilizar a vida no coração da Amazônia. O que agora estamos fazendo, com a Carta Aberta ao governador do Pará, deve ser o começo de uma ação que envolva múltiplos agentes, pois se trata de um problema que em muito extrapola um “caso” a ser resolvido tecnicamente. É um problema social, cultural e político amplo e como tal deve ser visto, mesmo que as “autoridades” não queiram vê-lo.

  • Caro Jeso, recentemente, esteve em Santarém o Helenilson Pontes, atual governador do PA. O quê ele disse sobre essa questão, da possível poluição do vale do rio Tapajós ?!

    1. Heleno, ele recebeu das mãos dos líderes do movimento que pedem o estudo sobre a degradação do rio Tapajós. Disse que o Governo do Pará e a Ufopa havia iniciado entendimentos para que fosse realizado o tal estudo.

  • A postura do deputado realmente em parte elogiável, mas, partindo de uma autoridade que representa a região e o Estado do Pará no Congresso Nacional, no todo é sofrível mediante a gravidade do problema da poluição do Rio Tapajós. Falta dados, informações precisas, não há consistência no que ele fala. Há vários órgãos federais, estaduais, municipais, Ongs, empresas nacionais e internacionais que atuam na região, com muitas informações que poderiam ser estudadas e fundamentar uma fala de Dudimar Paxiúba.
    O deputado é de Itaituba e conhece a “olho nú” algumas das problemáticas da região e é justamente isso que preocupa. Uma “autoridade” com mandato, mas sem o devido preparo e sem o necessário interesse para ir além do trivial. Dudimar já atuou e ainda deve ter área de garimpos assim como membros de sua família. Ele sabe muito bem como é o trabalho rudimentar de garimpagem que em pleno século XXI permanece sendo praticado na região do Tapajós.
    Para ilustrar menciono que ainda no ano de 2012 o deputado em discurso no plenário em Brasília representando o PSDB poderia falar sobre educação no dia do professor….. se limitou entre outras coisas a elogiar educadores que fizeram história em Itaituba, entre estes a sua saudosa mãe a respeitável professora Hilarita Paxiúba, de quem com muito orgulho fui aluno.
    Ao final daquele então morno pronunciamento o deputado falou algo interessante “uma ação da polícia federal na região do Tapajós para combater a garimpagem ilegal em terras indígenas e as ações de destruição ambiental …. salvem o Tapajós” concluiu.
    A ação da Federal se concretizou culminando com explosão de balsas “dragas”, invasão em terras indígenas e a morte de um índio.
    O correto trabalho da Polícia Federal deveria ter sido intensificado, não houvesse o infeliz incidente que culminou com a morte do indígena. Mas as operações pararam definitivamente, infelizmente para o Rio Tapajós e para a população que aqui vive.
    O governo Federal desconhece as especificidades da região, o governo Estadual não tem interesse nenhum em que haja um desenvolvimento sustentável nesta região. Há poucos eleitores e o possível progresso (com a exploração correta pode gerar e socializar a riqueza mineral, florestal, turística) daqui é visto como ameaça pois pode fortalecer o sonho de criação do Estado do Tapajós. É fato que quando Itaituba “bamburra” na região e principalmente em Santarém que a maior parte do dinheiro circula.
    Voltando um pouco a ação da Federal. Este ato da PF sobrou de forma bastante negativa para o deputado Paxiúba. Assessores dele contam que o deputado ouviu nos corredores do Congresso comentários sobre a operação e se adiantou na tentativa de ser reconhecido como a autoridade que trouxe a PF para botar moral na bagunça da garimpagem na região e na destruição acelerada do Tapajós. Merecia e merece elogio, mas, foi e é repudiado pela maioria dos garimpeiros e comerciantes da região. Grande parte é claro só pensa em ganhar, não tem consciência e nem quer saber como vai ficar a sobrevivência na região. Muito menos imaginam que podem estar provocando a própria morte e de muita gente.
    A garimpagem nos moldes de séculos passados que ainda é praticada destrói tudo: agora com mais eficiência menos homens e mais máquinas modernas e potentes, PC, Dragas, Balsas, Bombas de Sucção, cianureto, mercúrio.
    Tudo isso em milhares de pontos de garimpagens em grotas, igarapés, margens de rios que desembocam no antes belo Rio Tapajós. O lixo disso tudo, “caldo” de fezes, de sucata de balsas, motores, óleo diesel, lubrificantes, além do que é produzido pelos homens que lá trabalham…. tem como destino final justamente o rio Tapajós.
    Infelizmente este um uma penumbra do quadro real que há anos vem detonando o Tapajós.
    Pior ainda é ver a tímidas incursões do representante da região lá em Brasília. Ao invés de fazer pronunciamentos mornos e sem dados convincentes, o mesmo deveria utilizar os meios que dispõe como parlamentar para apresentar dados reais. O custo (não o salário) de um deputado é bem superior a R$ 100.000,000 (cem mil reais) mês aos cofres públicos para estar brincando com coisa séria. Neste caso não apenas a beleza do rio Tapajós, mas de milhares de pessoas que vivem ou sobrevivem no seu entorno.
    É este tipo de representante… não sei se apenas desinformado, desinteressado, mal assessorado que dispomos. Infelizmente.
    A carta aberta ao governo do Pará é uma boa iniciativa, não do nosso parlamentar, mas de um grupo de pessoas precisa ser reforçada com um maior envolvimento da população. Os próximos passos devem contemplar isso.
    Pouco se pode esperar das populações diretamente beneficiadas com a garimpagem, como aqui de minha cidade Itaituba. A ausência, distanciamento do poder público, federal e estadual e a omissão, incompetência do Municipal são gritantes em relação a questão ambiental desta região. A estrutura pública funciona mal e porcamente. Resta buscar o sustento a qualquer custo, e este, aqui vem principalmente da produção do ouro. Cerca de 60% da economia local ainda é fundamentada na garimpagem.

  • Acredito também que o melhor caminho seja da mobilização em massa, (população) não podemos deixar que as coias piores mais doi que ja estão. Caso contrário teremos alfuentes do rio tapajós, sem transformarem em tietês do norte em alguns anos. A sociedade tem que mobilizar-se, um dia vi uma foto da cor da água em alter-do-chão, olha se for daquele jeito, a coisa não está boa não. Precisamos criar mecanismos para frear a contaminação de produtos quimicos, principalmente.
    Não aos perversos que estão poluindo o rio Tapajós.

    Fica aqui a minha indignação.

  • Caro Manuel Dutra,
    A ocupação da bacia hidrográfica do Tapajós e a urbanização sem planejamento são os primeiros elementos a indicarem degradação. Some-se a isso a atividade garimpeira, que desestabiliza fisicamente o Tapajós, dando uma conformação de rio novo face à grande quantidade de material diluído e suspenso em suas águas. Portanto, há contaminação: o Tapajós é um rio antigo, de águas claras e a alteração da cor é indicação fundamental. Falta determinar a intensidade de cada contaminante e suas consequências.
    Acredito que municípios como Santarém e Itaituba podem realizar os primeiros exames, expeditos e indicativos, de monitoramento da qualidade dessas águas.
    Nessa situação, é importante a mobilização para a criação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Tapajós.

    1. E eu que pensava que já havia um Comitê da Bacia Hidrográfica do Tapajós e também do Rio Amazonas, o maior rio do mundo e de extrema importância nacional e até mesmo mundial. Lamentável que nossas autoridades não tenham compromisso ambiental com nossos rios que muita gente pensa que é lixeira.

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