Sob o céu de Caxias

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por Célio Simões (*)

Ainda sem possuir casa em qualquer dos balneários mais próximos a Belém, eu e minha família costumávamos aguardar ansiosamente as férias de julho para um giro pelo nordeste, desfrutando das maravilhosas praias, da ventilação intensa vinda do Atlântico, das compras que pareciam não ter fim a preços convidativos, isso tudo na companhia dos nossos grandes amigos dos tempos de solteirice, Miguel e Carmem, cada um dos casais às voltas com três filhos adolescentes.

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Raimundo “Bucica”.

As viagens eram feitas de carro, com as estradas ainda livres do flagelo dos assaltos, porém carentes de maiores confortos, pois estávamos na era das “carroças” no dizer do Collor. Veículos sem ar condicionado ou direção hidráulica, sem as películas de proteção solar, despidos de retrovisores do lado direito e o pior é que achávamos tudo muito normal, porque jamais tínhamos experimentado coisa melhor.

No início de 1993, preparamo-nos – eu e Miguel – para mais uma das incursões nordestinas, planejando ir até a ensolarada Natal. Compartilhávamos a mesma opinião de não revezar a direção com as esposas, não pelo velho estereótipo que persegue o sexo feminino de campeãs de “barbeiragens” (“…mulher quando dirige bem faz a curva na mesma hora que a estrada faz…”, segundo o Chico Anísio), porém por uma tarefa mais espinhosa.

Quem não estivesse dirigindo, tinha por obrigação apartar as brigas da molecada no banco de trás, ávidos por apreciar das janelas a bela paisagem que ia se descortinando, à medida que as distâncias e a topografia uniforme das fazendas paraenses eram vencidas, dando lugar ao relevo montanhoso e belo que marca a pré-Amazônia maranhense.

Entusiasmado com a aventura, troquei minha cansada Chevrolet Marajó, cuja mala mostrava-se capaz de suportar uma mudança, pela recém-lançada Fiat Elba, de capacidade ainda maior, somada à vantagem do estepe ser colocado na frente, sobre o motor.

Todo veículo sobre rodas deveria adotar essa comodidade, pois num eventual furo no pneu não haveria a necessidade de descarregar os volumes do porta-malas em busca do socorro. Abstraindo essa digressão, praticamente eu me considerava pronto para a viagem, já cuidando de detalhes como reserva de hotéis e pernoites, quando a sorte (ou a falta dela) começou a alterar o que se afigurava um aprazível descanso.

– Célio, comprei uma F-1000 cabine dupla novinha para nossa viagem…
– E eu comprei um Fiat Elba, também zerinho. Vai ser uma moleza este ano.
– Mas uma Elba é pequena para teu pessoal. Pensei em te vender a minha F-1000 usada, que nunca deu problema.
– Miguel, a melhor marca de carro é o “NOVO”. Deixa que eu vá na Fiat, porque o Celito está excursionando pelos Estados Unidos, presente de 15 anos, e seremos somente quatro pessoas.
– Pensa bem. Teu carro é novo, mas não tem ar condicionado. A F-1000 tem!

Não teve mesmo jeito. Depois de muito papo, meu “mui amigo” apresentou-me o recibo do preço pago, no padrão monetário da época, o desmoralizado CRUZEIRO, corroído diuturnamente pela inflação: “RECEBI do Dr. Célio Simões de Souza a importância de Cr$-450.000.000,00 referente à venda de uma F-1000 Placa AO-4869 de minha propriedade. Belém, 28/04/93. Assina: Miguel Sampaio”.

Depois de morrer com a grana, dediquei os meses de Maio e Junho a revisar e embonecar o carro, que tinha um belo visual e uma máquina potente. A refrigeração interna amenizava o calor inclemente de Belém e me fez sonhar com aquele bólido vencendo a estrada até Natal. A Fiat Elba foi ficando em segundo plano, apesar do cheiro bom de plástico que atestava sua fabricação recente a cada uso que dela se fazia.

Sábado, 07.07.1993. Para adiantar a viagem, às quatro da madrugada já estávamos na BR-316 rumo à Pará-Maranhão e recebíamos no rosto a brisa fresca do alvorecer. Miguel, sua esposa Carmen e os três filhos iam à frente ainda com as luzes de sua zero bala acesas; eu viajava a uma distância segura de uns cinqüenta metros, com os meninos dormindo o sono solto próprio da adolescência.

Quando clareou, já estávamos bem longe de Belém, embora viajássemos em velocidade moderada, tudo em nome da segurança. Não paramos nem para o almoço, para evitar o torpor ao volante, contentando-nos com frutas e um pequeno lanche, o ideal segundo os entendidos para manter em alerta as reações e vencer a fadiga visual da rodovia.

Planejávamos avançar o máximo possível para pernoitar na agradável Serra de Tianguá, já em território cearense, só que a zebra resolveu interferir naquela viagem que até então se mostrava impecável.

Já havíamos atravessado todo o Estado do Maranhão no sentido oeste-leste quando identifiquei que o motor da F-1000 usada que eu dirigia com tanto esmero começou a falhar. Não havia ainda celular e tentei através da buzina e do “pisca-alerta” comunicar ao Miguel que algo não ia bem com o carro, mas ele sumiu no horizonte de asfalto, enquanto o meu foi parando sem força, até exalar um forte cheiro de queimado.

Estacionei no acostamento, levantei o capô e o que vi me provocou enorme desalento: uma fumacinha saindo de dentro da máquina, que aparentava estar muito quente. Eram 14 horas e o sol estava de lascar.

Para minha tranquilidade, não mais me vendo, o Miguel voltou. Reunimo-nos e confabulamos, porém ele não sabia o que fazer. Só sabia que era grave. No meio daquele deserto, com cinco crianças para dar conta, olhamos no entorno e vislumbramos um barracão de palha com três ou quatro mulheres que apreciavam a cena.

Fomos até elas e feitas as apresentações, mostraram-se receptivas e dispostas a propiciar a ajuda que fosse necessária para nos tirar daquela aflitiva situação. Uma delas revelou que estávamos a 20 Km da cidade de Caxias, que se hoje é um próspero município maranhense, naqueles idos era uma urbe acanhada e carente de recursos materiais.

Informou ainda que mais à frente, uns 3 km dali, havia a oficina do seu “Saracura”, que consertava qualquer tipo de veículo, a gasolina ou diesel. Miguel partiu em busca do homem e eu fiquei tomando conta dos seus e dos meus familiares, albergados no tal barracão, que uma delas discretamente confidenciou à minha esposa tratar-se de um prostíbulo, onde elas exerciam “a mais antiga profissão” com os caminhoneiros. Fazer o quê?

Meia hora depois chegou o Miguel trazendo a bordo o tal mecânico. Fiquei mais apreensivo ainda ao comprovar só no bafo que o homem estava com a cara cheia da “mutamba” e nem falar direito conseguia. Assim mesmo, levantou o capô e pôs-se a mexer no motor, vez por outra mandando eu “bater na chave”. Nada.

Numa dessas, houve um curto e os fios pegaram fogo, fazendo desaparecer nossa derradeira esperança de recuperar aquela porcaria. Mandamos embora o porrista incompetente e ficamos “de molho” no barracão das “meninas”, que se desdobravam naquele exíguo e paupérrimo ambiente para nos ofertar todo o bem estar possível.

Uma delas ficou à margem da estrada proibindo que qualquer motorista encostasse para uma sonhada aventura amorosa. A cada hora que passava, uns dois eram mandados embora até mesmo de maneira ríspida pela improvisada “plantonista” contanto que não se fossem engraçar com qualquer delas em tão insólita situação.

Caiu a noite e repartimos entre nós toda a alimentação que dispúnhamos, insistindo para que elas aceitassem. Foram colocadas cadeiras do lado de fora do barraco e ficamos ali, jogando conversa fora, esperando pelo milagre de um socorro que não vinha, enquanto o céu nos ia presenteando com um dos mais belos espetáculos que já tive oportunidade de ver – uma torrente de estrelas de intenso brilho, dando a impressão de que iam despencar sobre nossas cabeças, como que a compensar todas as agruras até então vividas naquela desastrada viagem.

O luar era um espetáculo à parte, lembrando as praias santarenas das épocas de piracaias. Deslumbrado, atinei de onde viera a inspiração de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco, que compuseram essa pérola de canção, homenageando no distante ano de 1914 o inigualável firmamento dos sertões nordestinos:

“Não há oh! gente ou não
luar como este do sertão…”

Assim ficamos sob a magia daquele indescritível céu de Caxias, quando lá pelas 22 horas – após exatamente oito horas de sofrida expectativa, passou um caminhão e se dispôs a rebocar a F-1000 até a cidade, onde nos abrigamos no único lugar disponível, não mais que uma minúscula estalagem onde dormimos em redes, praticamente uns por cima dos outros.

Dia seguinte obtive a informação que mais interessava. Havia em Caxias um exímio mecânico de motor a diesel, seu Gildo, capaz que resolver o problema que transtornara nossa viagem. Era um sujeito moreno, estatura mediana, franzino, de poucas palavras. Mesmo com rápido e superficial exame, identificou o defeito: a junta do cabeçote tinha estourado e havia necessidade de trocá-la e refazer a fiação que fora queimada.

Um laivo de otimismo me invadiu quando foi acenado que a demora seria de um dia de serviço, tempo gasto para uma incursão pelas ruas da cidade natal de Coelho Neto, Gonçalves Dias e Vespasiano Ramos, admirando os prédios históricos cuja arquitetura remonta ao fim do século XIX.

O mais anedótico, porém, ainda estava para acontecer. Miguel, cuja tendência inata de negociador o transformou em vitorioso empresário em Belém, me chamou em particular e entre sério e preocupado fez valer seu conhecido senso de justiça:

– Amigo, não acho correto a gente ter vindo embora sem recompensar “as meninas”… Claro que ele se referia às moradoras do prostíbulo que nos abrigou das 14 às 22 horas, à margem da estrada, sem atender sequer um único “cliente”.

– Recompensar como parceiro? Não tenho a menor idéia de como fazer isso, nem sei calcular esse tipo de “faturamento”, retruquei.
– Mas eu sei.

Ato contínuo, meu companheiro de viagem, apelando para seu acurado tino comercial, sacou do bolso uma caneta, um pedaço de papel e mostrou competência na estimativa dos “lucros cessantes”:

– Vê bem, amigo, nós “empatamos” as moças durante umas 8 horas, foi ou não foi?
– Acho que foi.
– E elas vão ficar assim, sem ganhar nada?
– Pois é…
– Presta atenção. O atual salário mínimo é Cr$-4.639.800,00, o que dá por dia Cr$-154.660,00 e por hora mais ou menos Cr$-5.000,00. Multiplica pelas oito horas que elas não atenderam a clientela e são Cr$-40.000,00.

Acrescenta a bondade que elas tiveram em nos facilitar a vida e ficamos assim: Eu entro com Cr$-25.000,00 e tu te coça com mais Cr$-25.000,00 e estamos conversados. Enquanto seu Gildo conserta a F-1000 eu volto lá e digo que os Cr$-50.000,00 significam uma retribuição pelas atenções recebidas.

– Mas irmão, ainda vou pagar o mecânico e a pensão…
– Não importa. Elas foram a nossa única esperança durante todo aquele tempo e até esse dinheiro é pouco para recompensá-las.

Fiquei imaginando se as circunstâncias fossem outras, quem de nós ali franquearia seu lar para aquelas meninas, deserdadas da sorte, mas que tiveram a grandeza de nos tratar como se fôssemos os próprios donos da casa. Tirei com satisfação a grana do bolso e dei para o Miguel.

Fizemos mais. Os atropelos com o veículo encurtaram o passeio só até Fortaleza. Seu Gildo, apesar do desqualificado do físico era um craque, porém perdemos um enorme tempo. Natal ficaria para a próxima vez. Afora o numerário deixado em recompensa, da capital cearense trouxemos inúmeras prebendas para nossas estimadas amigas, como redes novas e utensílios domésticos, haja vista que nos estenderam a mão quando mais precisávamos.

Aprendi uma enorme lição que me ficaria na memória para o resto da vida. Superado o trauma empreendemos a viagem de volta, pernoitando em Tianguá.

O céu nordestino insistia em repetir seu espetáculo de luz, quase uma réplica de árvore natalina, permeada de um luar ofuscante, jamais presenciado por todos nós. Debruçado no parapeito do hotel-fazenda lembrei que no ano anterior (1992) o consagrado cantor e compositor Djavan lançou uma música de muito sucesso chamada “SE”. Fiquei cantarolando baixinho:

“Você disse que não sabe se não,
mas você não tem certeza que sim!
Quer saber?
Quando é assim, deixa vir do coração…”

Minha esposa aproximou-se de mansinho para não atrapalhar aquele momento mágico.
– Qual a razão do romantismo?
– Saudade…
– De um momento só nosso?
– Nem tanto… Da minha Fiat Elba novinha em folha que ficou na garagem de casa. Como diz o Djavan, sem saber que não ou ter certeza que sim, deixei falar o coração e viajei nesse trambolho f.d.p. que eu vou vender no feirão da Praça da República assim que chegar a Belém. Dito e feito.

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* Advogado, é membro da Academia Paraense de Jornalismo. Escreve regularmente neste blog.


Publicado por:
Advogado e escritor, nasceu em Óbidos. É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Reside em Belém e escreve regularmente neste blog.

3 Responses to Sob o céu de Caxias

  • Que crônica porreta. Realmente o cálculo do pagto. das “meninas” foi hábil. Esperamos outras crônica, obrigado por nos proporcionar uma leitura prazerosa.

  • Saborosíssima essa crônica do Célio Simões. Ri muito na parte do levantamento monetário de qto deveria se pagar “às meninas”. rsrsrsrs

    Parabéns!

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