A batalha “indócil” de cada dia. Por Jota Ninos

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A batalha 'indócil de cada dia. Por Jota Ninos
Jota Ninos, internação hospitalar por infecção. Foto: reprodução

Hoje entro no 7° dia de internação hospitalar, por conta de uma infecção na face esquerda decorrente da diabetes descontrolada. Mas uma boa notícia neste momento: na batalha “indócil” de cada dia para manter a glicemia em índices baixos e ajudar a cicatrizar a ferida: registramos 156 na medição da glicose no sangue, menos da metade de quando cheguei aqui.

A média diária continua em torno dos 200, que tem sido o meu “normal” nos últimos anos, dos 18 em que descobri carregar essa “doença do diabo”, como sugere seu nome.

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Se comparado com a linguagem do nosso “deus mercado”, esse é um dos menores índices do meu IBVG – Índice da Bolsa de Valores Glicêmicos (rsrs). Diferente da Bolsa de Valores Monetários, no meu IBVG ganha mais quem perde mais…kkkkk

Comparando minhas veias com terra cultivável, sou um território de “veias canaviais” ou espaços “canavenais” onde o açúcar disputa lugar com o meu sangue…rs Cresci como menino gordo (menino do buchão…rs), bom de boca, glutão. Sempre sedentário e defensor do “ócio criativo” (e não preguiçoso, como dizem – maldosamente – alguns). Sempre exercitei mais o cérebro do que os bíceps.

Desde a infância, li mais livros do que joguei bola, assisti mais TV e cinema do que caminhei pra gastar calorias. Um dia a conta chega. Tudo isso me levou à adquirir a Diabetes Mellitus.

Prestes a completar 63 anos em julho, com dois casamentos já desfeitos, 5 filhos e 6 netos, acho que chegou a hora de mudar o paradigma em minha vida. Ano que vem pretendo me aposentar e tenho que perseguir o mínimo de qualidade de vida para o tempo que me resta.

E poder realizar projetos pessoais há muito engavetados como publicar livros (tenho um pronto, outro em finalização e um terceiro já iniciado), produzir programas de comunicação e criar uma projeto pra discutir cinema, uma grande paixão. Ao diabo, as batatas! parafraseando Machado.

Ouço há muito tempo de amigos e parentes o eterno mantra que os gordinhos detestam: faça boa alimentação e exercícios! E sempre começo um ciclo, que depois de algum tempo será interrompido. A palavra a ser perseguida é REGULARIDADE. Não tem como, de uma hora para outra, eu virar um super-atleta ou vegetariano (como era meu pai, que vivia puxando minha orelha antes de morrer). Basta diminuir os exageros aos poucos. Essa é a meta quando sair daqui.

Mas voltando à minha infecção, houve uma regressão drástica. Quando fui internado há 7 dias, ela ocupava mais de 80% de minha face esquerda. Hoje creio que não chega a 20% do mesmo espaço. Antibióticos, analgésicos e insulina, formaram uma força-tarefa para combater a bactéria e a glicose pelos meus espaços “canavenais”.

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Assepsia diária com drenagem da ferida (o pior momento do dia) quando as solícitas enfermeiras espremem minha alma! Afundo no leito enquanto minha ferida é pressionada. A dor dos primeiros dias foi diminuindo à medida que a secreção foi surgindo em menor quantidade. A vermelhidão do inchaço some aos poucos, e a pele endurecida começa a voltar ao normal.

Minha médica disse que só me dará alta quando conseguirmos acabar com a infecção totalmente. Depois é voltar pra casa, pro trabalho e pros amigos e parentes que me esperam lá fora. Alguns me visitaram por aqui, outros me mandam mensagem e torcem de longe.

Para fechar esse texto, vou falar dessa adolescente de 18 anos que entrou na minha vida em 2008 e não me larga. À época que descobri a maldita, fiz uma poesia que já publiquei várias vezes em minhas redes sociais e republico agora, para continuar exorcizando essa filha do Diabo que me rouba a paz:

Soneto diabético

O diabo não foi nada ético 
Muito menos democrático
Ao tornar-me um ser diabético
E deixar-me mais lunático…

E nem deus foi tão herético
Nem tampouco, antipático
Ao tornar-me um ser dietético
Muito embora homeopático…

E assim continuo um cético
Um sujeito problemático
Muito embora mais dialético

Com um desejo em si, catártico
De livrar-me de um mal hermético
Que destrói meu ser errático…

❒ Jota Ninos é jornalista e servidor publico do Judiciário paraense. Leia também dele: O homem que paria livros e Por uma gestão descentralizada da Secult.

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

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