por Clecionaldo Vasconcelos Neves (*)
O termo Ethos utilizado por Leonardo Boff tem origem na Grécia e significa valor, ética, hábitos, costumes e harmonia. Para os gregos antigos significava a morada do homem e nos momentos de conflitos este homem, voltava para a sua casa isto é, a natureza, uma vez processada mediante a atividade humana sob a forma de cultura, faz com que a regularidade própria aos fenômenos naturais seja transposta para a dimensão dos costumes de uma determinada sociedade.
Para Boff, “Três problemas suscitam a urgência de uma ética mundial: a crise social, a crise do sistema de trabalho e a crise ecológica, todas de dimensões planetárias.” Nesta ótica, para o autor estas questões perpassam pela crise do Ethos Mundial.
Nesta perspectiva, a crise social tem como pano de fundo a transformação tecnológica, a robotização, a informática e também os avanços na comunicação planetária, como afirma o autor, ou globalizada produzem uma desigualdade sem precedência, aumentando as diferenças sociais: ricos, pobres, dominadores, dominados.
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Por outro lado, a crise de trabalho como afirma Boff: “as novas formas de produção cada vez mais automatizadas dispensam o trabalho humano, […]. Com isso, destroem-se postos de trabalhos e tornam-se os trabalhadores descartáveis, criando um imenso exército de excluídos. […].
Nota-se que as invenções criadas para facilitar a vida humana, tornam-se mecanismos de exclusão e a qualquer preço busca-se uma satisfação hedônica, um prazer pessoal destruindo e desrespeitando o ser humano em sua essencialidade. Para o novo paradigma, existe uma pergunta central: “Haverá desenvolvimento sem trabalho? Haverá uma sociedade de plena atividade que garanta a subsistência individual?”
Para Márcia Mello as mutações do trabalho na sociedade estão classificadas em duas vertentes: a vertente rígida, onde o trabalho se classifica como formal, de carteira assinada e a vertente da flexibilidade, onde outras formas de trabalho se apresentam tentando dar ao trabalhador condições para produzir e também de ter prazer, lazer e entretenimento. Logo, para Rifkin:
[…] começando a perceber que, muitas vezes, ganhos de produtividade não levam a mais lazer, mas às filas do desemprego. Para compreender como um sonho de um amanhã melhor pode se transformar num pesadelo tecnológico é necessário revisar as raízes utópicas da outra visão tecnológica, aquela que prometia um futuro isento de necessidades, de exaustão e das exigências implacáveis do mercado.
Percebe-se que há necessidade de romper com uma moral oficial para desembocar numa ética mínima oficial, que se constrói no coletivo, nas relações sociais, onde a produtividade, o ócio, a competência deva ser direcionada para uma formação social libertadora que respeite e assegure ao cidadão condições de ser criativo. Em outras palavras, através de competências e habilidades desenvolver uma criatividade capaz de sustentá-lo.
Nesta direção, a educação é um vetor primordial: ou serve de instrumento ideológico, ou serve de meios para se atingir os fins. A problemática do trabalho infantil elucida bem a função social da educação. Houve várias tentativas na história da educação brasileira de alocar as crianças e os adolescentes no espaço escolar.
Atualmente, o exemplo que configura está afirmativa está no programa Mais Educação, do Governo Federal, onde crianças e adolescentes que atendam um perfil, a assim chamada situação de risco, que é: a questão da pobreza, renda familiar, drogas, crimes, a questão do letramento passam a freqüentar à escola em tempo integral. Para Mello “Erradicar o trabalho infantil significa manter políticas de valorização salarial e bolsas de estudo que permitem á criança ficar na escola. Infelizmente […] corrupção implantados no Brasil sacrificam as políticas […] das crianças.”
Na ótica da crise ecológica, o autor analisa a questão da globalização, a elaboração do princípio da autodestruição, o dando irreparável à biosfera. Para Boff “Numa palavra, vivemos sob uma grave ameaça de desequilíbrio ecológico que poderá afetar a Terra como sistema integrador de sistemas. Ela é como um coração.” Logo, o trabalho cósmico realizado durante bilhões de anos poderá ser desfeito. Percebe-se este fato nas transformações ecológicas sentidas no mundo inteiro. Em outras palavras, a Terra grita e reage a ação do homem.
Nesta perspectiva, Zygmunt Bauman afirma que na contemporaneidade há uma crise ontológica e que a incerteza de estilo pós-moderno gera a procura da religião, ou seja, o ser humano vive uma crise existencialista e a todo custa tenta compreender a sua razão de viver. Não tendo respostas, tenta encontrá-las no transcendente.
Como exemplo: o caso das “terras caídas” que ocorreu em março deste ano numa localidade chamada de URUCURITUBA, próximo a Cidade de Santarém, fenômeno natural que muda o percurso do RIO AMAZONAS, a geografia e a vida dos moradores desta comunidade. Numa pesquisa realizada com setenta moradores desta comunidade, 3% das famílias dizem que é ação da natureza, 17% afirmam que as terras caídas é fruto das ações humanas, mas 80% dos entrevistados afirmam com convicção que é castigo divino.
Outro exemplo que revela a crise que estamos vivendo segundo Bauman é o caso recente o cardiologista Paulo Jenings que morreu afogado e o corpo não foi encontrado. Os moradores da região onde o médico sumiu dizem que naquela região existe um “encante” e que o doutor Paulo não morreu, mas, está encantado.
A mentalidade do caboclo Amazônida cria um universo para explicar tudo o que ocorre na vida.
Esta crise desemboca num conflito religioso, político, econômico, cultural e social e essencialmente ecológica. Logo, famílias dilaceradas, destruídas, aniquiladas. Jovens sem perspectivas, sem futuro, alienados e legados ao fracasso tendo como conseqüência a violência.
Esses guetos sociais, culturais, religiosos e principalmente o econômico agem sem ética, sem piedade e a qualquer preço buscam seus objetivos não importando os meios e sim os fins como mencionei anteriormente. O resultado disse percebemos em nossas realidades e com mais notoriedade a crise entre Israelenses e Palestinos.
Também podemos citar a forma como a Amazônia é explorada, principalmente o oeste do Pará: a atuação dos madeireiros, o agronegócio, a luta pela terra, prostituição infantil, a escravização e venda de mulheres para o mercado sexual, as drogas e as conseqüências causadas na sociedade. Estas ações fazem ocorrer um êxodo rural, onde os colonos vendem suas terras e invadem as periferias e aumentam o desemprego e cresce a violência.
Outra situação é a sensação de segurança. Que resposta pode ser dadas às ações terroristas? Para o alemão Robert Kurz , entretanto, era previsível que a série de atentados acontecesse a qualquer instante: “Não há proteção absoluta contra a barbárie, não há nenhum escudo espacial que nos proteja da barbárie que se alastra neste planeta.” A ambiência de medo virtual que vincula nas redes sociais aterrorizando a população de Santarém instaura o medo e provoca pânico social.
Nesta perspectiva, nota-se uma busca ou tentativa de se ressignifica o conceito de ser humano, de humanidade e percebe-se que ao mesmo tempo em que se busca um processo democrático onde se respeite as diferença, mais opressão se causa. Logo, pode-se perguntar se o mundo globalizado pose ser melhor ou pior para o eco-sistema? A humanidade já chegou ao fim do túnel ou existe ainda um subsolo no fim do túnel?
No tocante a globalização, Boaventura afirma que há uma corrente de alternativas sociais produzidas pelos movimentos sociais e pelas organizações não governamentais na luta contra a exclusão e a discriminação dos povos. No entanto, esses grupos precisam criar uma forma de rede para poder ter organização, logística e política para combater em bloco a hegemonia planetária dominadora que através de um processo pedagógico, apoiada por muitas instituições religiosas, por capital estrangeiro, por intelectuais, pela educação e pela grande parte da mídia crescem dominando e causando exploração e as desigualdades sociais.
É notório que sob o olhar do ocidente, há cumplicidade feita de silêncio, hipocrisia e manipulação grotesca de tantas mazelas espalhadas pelo mundo.
Observa-se que o processo de globalização é irreversível. Logo, para Velério
A globalização, segundo a maioria, é um processo inevitável. É determinante que, do ponto de vista da ética, encontremos trincheiras para enfrentar o avanço destes processos, procurando inocular nas dinâmicas sociais comportamentos alternativos capazes de assegurar alguma simetria nos processos econômicos para favorecer a constituição sadia dos indivíduos e promover integridade nas relações afetivas.
No tocante a crise social, a crise do trabalho e a crise ecológica, Leonardo Boff afirma: “Para resolver esse três problemas globais, dever-se-ia, na verdade, fazer uma revolução também global […], de uma ética mínima, a partir da qual se abririam possibilidades de solução e de salvação da Terra […].” Nesta ótica, o autor afirma que deverá ser feito um acordo ético que perpassa por todas as representações sócias como a religião, a educação, a política, a cultura promovendo uma grande revolução do ethos criando uma grande rede conectada.
O autor propõe uma desconstrução da hegemonia social, mas também, um diálogo a partir das experiências vividas pala própria sociedade, uma reinvenção da emancipação social, um combate a monocultura linear. Logo, ressignificar os valores, a ética, a arte, a fé talvez seja o ato mais difícil do ser humano, pois vivemos um momento em que a sociedade hegemônica produz uma consciência da inexistência. Em outras palavras, esquecemos o que fomos o que somos e o que podemos ser tornando-nos marionetes sem capacidade de reflexão, reação e atitude.
Para uma base ética planetária, Boff aponta formas argumentativas, ou forma de raciocínio: O utilitarismo social que a partir de Hobbes, Hume, Bentham elaboram os princípios do ethos utilitarista, sendo: o princípio da conseqüência teológica:
Segundo o utilitarismo, não existem ações em si mesmas lícitas ou ilícitas, intrinsecamente boas ou más, como quer a posição deontológica clássica (baseada no dever, como “não mentir. […]. O princípio de utilidade: as conseqüências devem ser úteis à realização do bem para os homens […]. princípio do hedonismo: o bem ganha uma realização ótima quando satisfaz necessidades e atende a preferências humanas, portanto, na proporção em que produz prazer, alegria e felicidade […]. Princípio social: o cálculo deve incluir a perspectiva social, objetivando a felicidade do maior número possível de pessoas e de seres vivos, como animais e plantas.
A aplicabilidade dos princípios utilitaristas ao mundo globalizado requer uma leitura crítica, pois o que deve haver é uma ação voltada para o planeta e não para a sociedade, centrada na ação coletiva, buscando o bem para todos e não para uma minoria da população. Está ação utiliza-se dos meios para atingir seus fins que é um planeta saudável equitativo beneficiando toda a biodiversidade.
Na ótica da ética da ação comunicativa e da justiça, Boff afirma que esta tendência ético-moral fora elaborada a partir da escola de Frankfurt seguindo a tradição marxista e os ideais da democracia. “Benjamin, Adorno, Horkheimer e especialmente Habermas submeteram uma poderosa reavaliação crítica o iluminismo, chamado também de modernidade.” Nesta perspectiva, busca-se analisar o resgate da dimensão ética da modernidade. Para Habermas, na filosofia e crítica-social, o projeto de modernidade não está acabado […]. A justiça é sempre justiça para todos […]
Outra forma argumentativa, ou forma de raciocínio é o essencialismo apontado pelo autor fundado numa ética da natureza, ou ética do ser tendo como teóricos Aristóteles, Tomás de Aquino buscando a valorização da dignidade humana. Seu princípio norteador é a metafísica que apregoa a imutabilidade da natureza, ou do ser.
Entende- se que a ética mundial fundada nas tradições religiosas tem como finalidade o combate à violência. “Seu expoente é Hans Küng que insiste:” Não haverá nenhuma nova ordem mundial sem ethos mundial. “Mas realisticamente assevera: não haverá nenhuma ordem mundial em uma paz entre os povos; e não haverá paz entre os povos se não houver paz entre as religiões; e não haverá paz entre as religiões se não houver diálogo entre elas. Estabelecido este diálogo, pode-se criar a paz religiosa, base para a paz política.” Logo, haverá uma consciência de responsabilidade tendo como base o ethos mínimo mundial, pois a religiões não perderão sua identidade, mas encontrarão pontos convergentes capazes de transformar o mundo planetário.
O autor acentua também a ética fundada no pobre, no excluído tendo como teóricos Dussel, Hinkelammert. Nesta perspectiva a questão central é o processo de inclusão, pois os marginalizados também produzirão conhecimentos epistemológicos. Logo, com eles e a partir deles pode-se fazer uma leitura crítica, valorativa, ideológica sobre todos os sistemas constituídos. Em outras palavras, criticar os sistemas impostos, dominantes, absolutos, donos de uma única verdade.
Por fim, o autor apresenta sua própria visão sobre um ethos mundial. Nesta perspectiva, o Phatos e o cuidado com a nova plataforma do Ethos humano e Planetário, segundo Boff aponta para algumas direções: “Sinto, logo existo: Qual é a experiência-base da vida humana? É o sentimento, o afeto e o cuidado. Não é o logos, mas o pathos. Sintio ergo sum (sinto, logo existo). […]. Pathos é a capacidade de sentir, de ser afetado e de afetar.
Nesta ótica o pathos não se contrapõe ao logos (razão), mas deve ser uma ação integrada, holística onde o imperativo para uma ethos mínima mundial tem como base a ética: do cuidado, compaixão pela terra; da solidariedade, como lei cósmica, como solidariedade política, subjetividade da natureza; ética da responsabilidade busca-se a sobrevivência de todos; ética do diálogo onde todos têm vez e voz; ética da com-paixão e da libertação que se compadece do outro, do excluído e a ética holística não significando uma homogeinação social, mas, um saudável convívio com a adversidade e transversalidade cultural. Portanto, para Boff :
“Em termos, o nosso tema de um ethos mundial significa, holisticamente: poder identificar por trás das muitas morais históricas, seja do passado, seja do presente, o mesmo ethos, aquela intenção originária de organizar a casa humana, aquela boa-vontade que Kant colocava como pré-condição para qualquer discurso ético e como o único valor sem ruga nem mácula, boa-vontade que instaurou (bem ou mal) normas, leis e ordenações, visando ao” viver feliz” e” ao bem com-viver”.
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
BOFF, Leonardo. Ethos mundial: um consenso mínimo entre os homens. Brasília; Letraviva, 2000.
LIBERAL, de Costa Mello Márcia (organizadora). Ética e Cidadania. Editora Mackenzie, 2002.
RIFKIN, J. O fim dos empregos. Makron Books. São Paulo 1995. .
SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo. Cortez, 2006.
SCHAPER, Valério G. A globalização: Economia, injustiça, violência e miséria. 2006, p.1
www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult 94u 2868.html
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* Santareno, é professor, radialista e acadêmico do curso de especialização em Jornalismo Cientifico, da Universidade Federal do oeste do Pará (UFOPA).
Professor Neves, nessa sua análise do Ethos e o consenso mínimo, no que diz respeito a mudanças no campo do trabalho, indago se a flexibilização e a desregulamentação das normas trabalhistas, podem afetar o mínimo existencial assegurado ao trabalhador na Constituiçao brasileira? Isso tudo na sua visão pode ser avanço ou retrocesso social?