A égua galopante

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galopante

por David Marinho (*)

Os moradores da comunidade de Santarém-Mirim, na região de lagos do Ituqui, contam um caso sobrenatural que aconteceu por aquelas bandas, sobre uma visagem ou assombração que se manifestava na forma de um estranho cavalo que não se sabia de onde saia e nem para onde ia, já que ninguém criava esse tipo de animal naquelas redondezas.

Esse fato acontecia de vez em quando, pois os moradores dessa localidade eram surpreendidos com o tropel desse cavalo que galopava à noite num ramal próximo da vila, e os cães saiam em algazarra para dentro do mato, latindo bastante sobre este animal estranho, porém, alguns cães pareciam que levavam coices, pois logo voltavam amedrontados com os rabos entre as pernas, e ganindo, pedindo arrego aos seus donos, como tivessem visto algo assombroso.

Porém um dia, um morador de nome “Zé Caruara”, famoso por tomar seus pileques além da conta, se invocou com essa putaria e disse que qualquer hora que tomasse umas boas cachaças iria encarar esse fato do jeito dele, ou seja, na porrada, e ainda ia trazer o tal cavalo amarrado pelo pescoço como fosse um carneirinho…

Passados alguns dias, era chegada à hora de sua prova, pois tinha nascido um filho seu, o que foi só um pretexto para ele encher a cara de manguaça, e seus primos, companheiros de copo naquela noite enluarada, querendo ver a desgraça dos outros, lembraram-no da promessa heróica de agarrar o cavalo à unha como se diz, na mão limpa.

Parece que o capeta estava até ouvindo a conversa deles, pois logo em seguida ouviu-se o tropel do “cavado do cão” lá para o meio do mato e era só o que a cachorrada queria para sair em disparada latindo atrás de sua possível presa.

O morador desafiado pelos colegas e querendo mostrar bravura, tomou mais uma talagada da maldita “Correinha”, comendo um tira-gosto de espetinho de escorpião, que entrou rasgando sua garganta, cuspiu no canto da sala e disse:

– Daqui a pouco voltarei montado nesse cavalo endiabrado!

Sua esposa, com o filhinho recém-nascido no colo, temerosa pelo pior, ainda tentou fazer o marido desistir dessa idéia maluca, mas ele bateu o pé e confirmou sua disposição de encarar o “bicho”.

Saiu meio cambaleando rumo ao matagal de onde vinha o ruído do tropel, até que sumiu na mata e aos olhos de quem os observavam e torciam pelo sucesso de seu herói. Passados alguns minutos, ouvi-se novamente o galope cadenciado do eqüino misterioso, mas logo a corrida foi acelerada, acompanhada de um relincho do animal como se assustasse com alguma coisa em seu caminho, continuando esse ruído acelerado se afastando, até que não se ouviu mais nada…

O silêncio era total entre o pessoal que ficou na expectativa do resultado da façanha, olhando-se entre si, chegaram até pensar que o “cavalo do cão” tinha levado o “Zé Caruara” para os “quintos dos infernos” com corpo e alma…

Enquanto tentavam entender o fim daquela loucura, eis que surge numa carreira louca, o herói que parecia estar totalmente sóbrio, trazendo algo na mão como se fosse um pano, e era, pois trazia uma espécie de saia de mulher na cor marrom, que molhada de suor recendia uma forte catinga de inhaca de cavalo.

Chegando próximo ao pessoal, resfolegava de cansaço, com os olhos arregalados. E logo foi inquirido por alguém:

– Cadê o cavalo, “Zé Caruara”? Seu frouxo!

“Zé Caruara” sentou-se num tamborete, pediu mais uma dose de pinga, e contou o acontecido no ramal dizendo:

– Quando cheguei ao ramal, tentei orientar-me de onde vinha o cavalo, escondi-me atrás de uma moita, quando o cavalo passou próximo a galope, saltei no pescoço do animal que vinha com os olhos brilhando com o reflexo da lua e uma grande crina esvoaçante, mas ao agarrar-me em seu pescoço, ele estava muito suado e liso, aí fui escorregando para a barriga do bucéfalo que logo percebi que não era um cavalo e sim uma baita de uma égua, pois não encontrei o “instrumento” para agarrar-me, sem apoio cai ao chão, mas ainda tive tempo de segurar no rabo da égua que ao ser arrastado, arranquei o rabo da diaba, que agora à luz do candeeiro verificamos que é uma saia de mulher, o que acredito agora que a égua era “virada” de alguma moradora desta vila.

Então todos que escutavam atônitos, exclamaram:

– Ai meu Deus! Quem será!?…

Nisso, uma famosa fuxiqueira da vila disse logo:

– Será que é a… ? (ia sobrar para alguém que eles não gostavam…).

No outro dia, só de sacanagem, “Zé Caruara” pendurou a saia da égua, ou melhor, da mulher, no beiral de sua casa, e logo apareceu uma mocinha da vila, querendo resgatar a tal saia, jurando de pé junto que era de sua mãe…

Então, aquela família teve a certeza de que alguém daquela vila “virava” égua mesmo. “Zé Caruara” virou-se para a adolescente e disse:

– Ninguém vai levar porra nenhuma de saia, sua filha de uma égua!!! Depois desse episódio, acabaram-se os galopes no ramal, e a vila voltou a ter tranqüilidade.

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* Santareno, é projetista e gestor ambiental. Escreve regularmente neste blog.


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5 Responses to A égua galopante

  • Égua ! Davi Marinho, olha que não sou corajoso no mato, mas para montar numa égua tão bonita assim, mesmo com a idade que estou . Completarei no próximo 07/11/2013, Sómente 69 aninhos de idade, ía me atrever em uma noite de nuar; pegar o rabo dessa formosa ÈGUA ! Te garanto não ía morrer de indigestão. Tenho dito e tá falado.

    1. Pois é doutor Luiz, com uma égua dessa todos gostariam de ser “peão” e montar em “pelo” como se diz na região, ou seja, sem sela…

    1. Caro Auri de Sousa

      Existem vários recursos estilísticos e figuras de linguagem, e a ALEGORIA é uma composição simbólica, feita de vários elementos que formam um conjunto coerente e reenviam termo a termo para o conteúdo significado.
      A ALEGORIA é um recurso retórico-estilístico em que se fazem corresponder, de modo minucioso e sistemático, um nível de significados literais e um nível de significados figurados. A alegoria pode ser considerada como uma metáfora ou como uma comparação prolongadas, devendo o seu intérprete ter a capacidade de descobrir sob os significados literais e patentes, que em si mesmos têm coerência, outros significados, significados de outra ordem. Metáfora continuada com significado diverso daquele diretamente enunciado.
      Este texto não é nenhum trabalho acadêmico, e sim um enunciado popular de narrativa sucinta que tenta figurar uma cultura popular. E se houve o entendimento, houve a comunicação, o que importa.

      Cordiais Saudações

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