por Célio Simões (*)
As histórias que se contam das várzeas amazônicas são decididamente fascinantes. Nesse mundo encantado o amanhecer, como o espetáculo mais puro e mais belo da natureza, tem sua mística de encantamento em toda parte. É o oposto do ocaso, quando o sol se esconde melancólico, tisnado e poluído por um mundo que lhe tingiu de rubro a roupagem.
A aurora, ao contrário, é o próprio convite à poesia, é a vida que pulsa no horizonte, primeiro bom dia que recebemos de quem nos possibilita a existência – o sol…
Antes das cinco da manhã fiquei de plantão no cais do porto, em busca de uma carona na primeira embarcação que fosse rio abaixo, passando em frente à propriedade do meu velho amigo, pois seu convite para uma pescaria era permanente, valia para o ano todo e com prazer era feita toda vez que eu chegava de Belém para rever familiares.
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Ele só não se responsabilizava pelo transporte. Por isso eu estava naquela agonia de condenado, querendo porque querendo viajar logo, porque a data já fora previamente marcada.
Até que veio a boa notícia, que me foi dada por um conhecido estivador: “O “Lister” vai sair daqui a pouco e pode levar o senhor. Acerte a passagem com o comandante”.
Meu Deus… pensei com meus botões, logo o “Lister”. Apesar do comandante ser uma pessoa afável, alma de brisa, desses que nenhuma tormenta faz perder a calma, aquele “pô-pô-pô” era um suplício para os ouvidos.
Movido a um heróico motor de dois tempos, de há muito perdera o silenciador e o dono, com sua calma de monge beneditino, não dava a mínima para esse detalhe. Quem quisesse viajar já sabia que as condições eram aquelas. Tanto que antes de iniciar qualquer trajeto, o motorista botava a cara no meio-convés de popa e perguntava para os desconsolados passageiros: “Vocês já conversaram tudo”?
E dava partida na máquina, cujo barulho infernal impedia qualquer bate-papo, mesmo que fosse aos gritos. Sabendo o que me aguardava, viajei assim mesmo, porque meu objetivo era superior ao eventual desconforto material do próprio transporte. Desejava chegar o quanto antes e rever meus parceiros, para a realização da maior e melhor pescaria que até hoje fiz e olha que tenho dezenas delas no meu currículo.
Após quase uma hora de incessante balanço cavalgando as maretas de um assanhado Rio Amazonas, chegamos. Todos na fazendola ainda dormiam. O colorido do céu anunciava a proximidade da manhã. As portas permaneciam fechadas no velho casarão de palha, secular abrigo da família do seu Antônio. Era setembro, plena semana da Pátria. Eu fugira da mesmice dos desfiles escolares, aceitando o convite da simpática gente da roça, para aquela breve temporada de pesca.
Percorri o terreiro, sentindo invadir meus pulmões o inconfundível cheiro de mato. Lá por dentro da casa, o primeiro café foi denunciado pela tênue fumaça que escapava da chaminé de barro. Se tudo saísse como planejado, partiríamos em grupo e a expectativa do que íamos fazer me enchia de uma infinita ansiedade, fazendo o coração pulsar na têmpora.
Aquela pescaria de há muito fora combinada. Já participara de outras, que perdiam por completo a relevância perante a fama e a aura de mistério que gozava nossa futura imbiara: a de maior, mais belo e mais valente dentre os peixes que povoam os rios da Amazônia – o pirarucu.
Após o despertar dos meus anfitriões, entre abraços e tapinhas nas costas, degustei demoradamente a tigela de mingau de crueira com bejú seco que me foi oferecido, tomando reparo de que a caravana, salvo alguns detalhes, estava pronta para a empreitada.
Seu Tote (quem o conhecia por Antônio?), os dois filhos Roberto e Humberto, o Zé “Pangala” (apelido que nem ele próprio sabia a origem) a Duriéia, uma curiboca com muitos aproveitamentos físicos (nome de pia batismal, inspirado numa conhecida marca de biscoito…) e completamente destoante daquelas peles curtidas de mormaço e pela aspereza do tijuco, eu, com meu bronzeado hospitalar, porém com uma grande vontade de participar e ser útil naquele inédito episódio.
Notei que aquela gente portava uma tralha diversificada. Equipamentos diversos, onde sobressaíam arpões, zagaias, hastes, arcos e flechas, espinheis, tarrafas, facões de mato, garatéias, porretes e sabe Deus quantas coisas mais, pelo visto, todas imprescindíveis à captura do famoso peixe.
Qual procissão de reduzidos integrantes, rumamos para o porto – nada mais que um tronco de samaumeira amarrado nos desvãos da restinga – onde a “Diacuí” o canoão que fazia as viagens atravessando o Amazonas para as compras na cidade, nos esperava balançando suavemente ao sabor do remanso.
Nela acondicionamos nossa incômoda carga, tendo o cuidado de ocultar sob a tolda de palha os alimentos, a água potável e outros perecíveis, desatracando em seguida, com os homens ocupando a bordo estratégicas posições de remadores, descendo o igarapé de águas mansas e frias, ao som do canto da passarada, fundo musical que em nada colaborava para o completo despertar do grupo, ainda dominado pelo torpor do sono.
Como que numa involuntária sincronia, na medida em que avançávamos a conversa ia naturalmente animando. Girava em torno do que fazer na hora “H”, quando o peixe estivesse ao nosso alcance, sob nosso domínio e o papel que cada um desempenharia na fantástica missão.
Mantinha-me calado, olhando para os demais com ares de entendido, porém atento aos subsídios da conversa, dela tirando o máximo proveito para evitar gafes. Já pensou deixar escapar um pirarucu dos grandes? Com certeza iam pôr culpa naquele disinfiliz com jeito de almofadinha. Deus me livre. Antes a morte dentro de um igapó, roído pelos dentes de uma piranha caju, ou de milhares de ferroadas de formigas tracuá…
Por ser o mais velho, assim o mais tarimbado, o velho Tote pilotava o barco. Macete para isso não lhe faltava, conhecedor que era daquelas várzeas, mesmo nas épocas de cheias, quando não se vislumbra um único palmo de terra na região dos tesos. Era interessante vê-lo alternar sua destreza no remo, com a habilidade de falar com o cigarro de palha, feito de tabaco migado na mão, pendurado no canto da boca, sem deixá-lo cair ou apagar, contra um vento que já se fazia esperto àquela hora do dia.
Para os ouvintes embevecidos, contava casos passados de pescarias. Sem falsa modéstia, mostrava-se pródigo em exaltar a perícia que possuía até mesmo reconhecida por antigos companheiros, alguns dos quais, frisava com os olhos marejados, já haviam partido desta para melhor…
Ato contínuo recompunha-se, e notando que ainda tinha sob seu domínio a reduzida platéia, prosseguia na narrativa de suas aventuras, desde a adolescência, no aprendizado de um segredo sem o qual nenhum pescador pode ser reputado como tal: a versatilidade no arpão e na zagaia, por via dos quais se gabava abertamente de nunca haver errado nenhum peixe. E explodindo de gabolice, completava, dirigindo-se a mim, em particular – “Pode acreditar, além de nunca errar nenhum, sempre acerto na cabeça, para não estragar o corpo…”
Envolvidos naquela lambança, conversa típica de pescadores, que a quase totalidade das pessoas rotula (com certa razão) ser temperada pela falta de compromisso com a verdade, finalmente chegamos. O igarapé de águas claras, qual enorme serpente prateada, acabava repentinamente num belíssimo lago, ornado de uma faixa alvacenta de praia, berço natural dos ninhos de tracajás lá pelos meados de outubro, quando as fêmeas em desespero procuram o morno dos barrancos para desovar.
Fomos recebidos pelos tucuxis que evoluíam por entre as bicadas certeiras das gaivotas. Causou-me espanto a constatação de ver que até ao meio do lago brotava uma cerca viva de caules bem finos, como se ali tivessem sido colocados propositadamente, com alguma específica finalidade. E foram. Porém ante tamanha demonstração de ignorância, pacientemente recebi de todos – inclusive da própria Duriéia – as devidas explicações.
– Isto é o que nós conhece como a pescaria de pari. Fumus nós que butemos ai, desna do verão passado, quando vinhemos evitá a mortandade de tracajá. Encontremos o lago seco, finquemos a cerca viva de galhos de molongó, uma pranta que verga mas a modo nunca quebra. Agora, neste inverno brabo, quando tudo tá cheio, quarquer coisa que havera de passar por ai, mesmo um surubim gitinho, os galhos se afasta, e o velho Tote joga a zagaia com o arpão de aço, acerta o bicho e garante nossa bóia por vários dias…
– Quer dizer que nós vamos ficar esperando a boa vontade de um pirarucu passar por aqui o dia inteiro? E se não passar, vamos pescar de tarrafa ou espinhel?
– Tú não nega que de peixe tu só entende de piramutaba e isso mesmo quando já está na panela. Fica quieto que eu, tu, Roberto e o Pangala vão fazer zoeira no lago pra espantá tudo eles daquele lado, para passarem para este; o primeiro que meter a cara aqui, o arpão come na costa. Com seu Tote fica o Humberto. Já falei com o Manoel da Josefa e ele cedeu a canoa dele, que tá amarrada ali no paricazeiro; toda a turma fica lá; depois disso pode fazer barulho e bater na água com a pá do remo. Vê se pelo menos pra isso tu presta ô branco da cidade! Te alembra que isto não é uma pescaria de anzol, onde o próprio peixe se ferra!
E assim foi feito. Passamos para um pequeno bote, cujo nome, vim a saber que foi dado em homenagem a um santo: “SÃO PEDRO FILHO”. Fiquei matutando se o fundador da Igreja Católica chegou a constituir família. Pensamento besta, mas resolvi indagar:
– Por que o nome do barco é São Pedro Filho?
– Sei não. Mas eu acho que é o santo da devoção do dono, o Manoel da Josefa…
– Mas São Pedro só teve um, assim eu acho que…
– Olha aqui amigo, toda vez que o Frei Angélico vem aqui para batizar menino, ele arreúne a comunidade e faz discurso, falando dos santos. Não tenho estudo, mas já ganhei dele um livrinho que a Duriéia leu falando sobre o início da religião, chamado As Pistolas de São Pedro. É por isso que todo mundo aqui gosta desse santo…
– Parceiro, com todo o respeito, padre não faz discurso, faz sermão. E depois, o nome certo é “As Epístolas de São Pedro” – você deve ter entendido errado.
– Afinal, nós temo aqui pra pescá pirarucú ou discutir os rumo da igreja? O importante é que o santo também foi pescador. E dos bom! Trata logo de fazer zoada senão nós num vamu pescá coisa nenhuma.
Resignado, embarquei na canoa cujo nome dera a inesperada polêmica, onde os outros já estavam esperando e juntos, começamos uma coreografia de loucos, fazendo barulho na água, gritando, sacudindo a embarcação no sentido contrário ao da maresia, enfim, tudo o que pudesse repercutir nas profundezas do lago. Comecei a notar que suas tranqüilas águas foram ganhando conotações estranhas, como se no peráu houvesse um séquito de viventes caminhando num único sentido, justamente o daquela cerca, a armadilha fatal.
Arrisquei um olhar para o que estava acontecendo com o mestre pescador. Rente aos galhos de molongó, como que hipnotizado por aquele instante galvânico, o velho Tote, agora de pé na proa da galeota, sem mover um músculo, olhar acúleo de serpente atento ao menor movimento, segurava com mão firme a comprida haste, enquanto o Humberto manobrava suavemente o remo, quase um bailado, para imobilizar o barco. Na mão direita empunhava um porrete curto e grosso, torneado a enxó, tirado do mais puro pé de massaranduba, para “acariciar” a fera quando fosse capturada.
Se nossa missão era fazer barulho, não nos fizemos de rogados. Risadas, gritos, assovios, pancadas na água, brincadeira (maldosa) de alagar a canoa, animados com a expectativa de realizar a esdrúxula tarefa que nos fora confiada e ter o reconhecimento do velho líder, homem de poucas palavras, que se excedia no vocabulário apenas quando lutava contra os efeitos da “tinhosa”. Os movimentos entre as vitórias régias cresceram e comecei a notar a uns vinte metros à frente aquele frenesi de peixes em ebulição, dando-me a certeza de que o cardume rumava para o local adrede combinado. Redobramos os esforços, exageramos nos berros, batemos com mais força na água, cantamos em uníssonos as modinhas da época. Extrapolamos!
De repente, a ordem de parar tudo. O velho pescador se ergueu um pouco mais, se empertigou, os músculos do corpo magro e curtido retesados quais cordas de violino. Todos tinham os olhos fixos na cerca de pari, tentando adivinhar onde, quando e em que exato ponto ela se abriria. Silêncio e espera. O Zé Pangala preparou apressadamente seu arpão, pois a ele caberia a tarefa de “secundar” a presa. A operação é relativamente simples. Para garantir que o gigante não rompesse a corda do primeiro arremesso, outra haste seria lançada, tão logo a primeira penetrasse o ambicionado lombo.
Finalmente, após uma espera de noiva, a cerca cedeu, os galhos de molongó se abriram sem quebrar e a haste partiu certeira. Sentindo-se atingido, o enorme peixe tentou o recurso do mergulho para as profundezas, levando de roldão canoa, cerca, tudo. Começou uma perseguição desenfreada para cansar o animal, reduzir sua resistência a zero, abatê-lo de vez.
A montaria onde eu estava se aproximou célere e quando a enorme cabeça aflorou à tona, a segunda haste partiu. Zé Pangala, discípulo do velho Tote nas artimanhas da pescaria, herdara-lhe a habilidade e não gostava de errar. Assim, preso por dois arpões, atados às canoas por grossas linhas “americanas”, começou uma correria sem fim por todos os recantos do lago, um alucinado ziguezague, findo o qual, exaurido completamente em suas forças, o gigante capitulou.
Pude vê-lo chegar resfolegante, as fauces dilatadas, as galhas vibrando num último esforço para fugir, no que foi impedido pela precisa porretada que levou do Humberto, seguido de mais golpes, enquanto o peixe de dimensões incomuns dentre todos os que eu já vira, açoitava com a cauda os flancos da montaria, nos encharcando de água. Unindo todos os esforços, fisgando-o com ganchos de metal pelas ilhargas, embarcamos nosso enorme troféu na “Diacuí”. Estávamos dominados por completa exaustão, molhados até os ossos, porém absolutamente felizes. Não é sempre que se fisga um peixe como aquele.
Questionei aquela gente sobre a licitude da pescaria, onde havíamos capturado uma espécie de futuro ameaçada de extinção. Com a calma que domina o ribeirinho, sem qualquer eiva de arrependimento, me foi dito que só pescava naquele lago determinado grupo de pessoas, todos moradores das redondezas, integrantes da comunidade. Estranhos não eram benvindos e quando apareciam, dali eram postos para correr a toque de caixa, perdendo seus arreios de pesca. Veio uma pergunta que me deu o que pensar:
– Escuta aqui, parceiro, tu viu a quantidade de pirarucu que tinha naquele lago?
– Claro que vi. O lugar estava “assim” de peixe…
– Agora me diz de nuvo: Tu viu quantos nós peguemos pra cumê? Só unzinho, que salgado vai durar dois ou três meses. É assim que nós faz, porque nós já sabemo que pode acabá. Os homi du guverno já vinhero aqui, falaram que não pode pescá na época de reprudução e na piracema, só um pirarucú pra cada família. E nós ainda se comprometemos a tomá conta da praia pra protegê os tracajá!
– É assim? Então não deixem jogar bomba ou pescar de arrastão. Isso é crime e vocês são gente boa…
Desanuviado o ambiente, começaram as apostas, cada qual alardeando como certa sua estimativa para a pesagem. Estávamos munidos de uma balança de mola, pequena e muito prática, que funciona pelo sistema de engate, mas insuficiente para pesar aquele bruto, tal o seu tamanho. Fomos remando até a casa de um morador das margens do igarapé, onde dois homens o colocaram noutro tipo de balança: 80 quilos. Ganhou o velho Tote (ele de novo), prêmio compensatório à sua apregoada experiência. Tirei da mochila a antiga máquina fotográfica e fiz o registro daquela inesquecível proeza, para que meus amigos jamais afirmassem que o episódio era conversa de pescador.
Correu o aperitivo de boca em boca, em repetidas doses, num arremedo de brinde à atuação de cada qual. Os remos novamente se ergueram e logo tomamos o rumo de volta. Manejando o jacumã, vinha eu calado, ainda sob o impacto das emoções, adrenalina a mil, saboreando de antemão a ventrecha assada de brasa e aquela paisagem paradisíaca. Os ribeirinhos, vendo a beleza de pescado desbordando do pavês do canoão, sorriam e acenavam com admiração e cumplicidade. Lembrei que àquela hora, no cotidiano dos meus afazeres, estaria certamente no meio do trânsito conflagrado, respirando a negra fuligem dos veículos que transformam as cidades em palcos de deprimentes espetáculos de competição e de sobrevivência.
Soprava um vento forte, obrigando as imbaubeiras a se curvarem, numa espécie de vênia aos que passavam no córrego de águas claras. Diluída pelo calor do sol de raios fortes, a neblina ia esmaecendo aos poucos. Apenas o som cavo dos remos, qual matracas nas penitências das sextas-feiras santas, o canto esganiçado das piaçocas e o soturno protesto das ciganas vindos das brenhas do aningal, arranhavam a espetacular quietude da manhã. A Amazônia, enfim, despertara.
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Esse texto foi premiado com a Medalha de Prata pela Revista Troféu, de São Paulo, pelo 2.º lugar em concurso nacional de contos sobre a pesca na Amazônia.
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* Advogado, é ex-juiz do TRE/PA. Membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras Jurídicas, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós. Escreve regularmente neste blog.
Meu amigo Dr. Célio,
Mais uma de suas especiais histórias que me fazem lembrar de minha infância, visto que também já participei desse modo de pescar, inclusive eu mesmo fisgando um bonito pirarucu, lá na Ilha de Santa Rita (Juruti).
Parabéns, muito bôa história !!!
Essas estórias nos deixam extasiados, impregnadas de candidura, pureza.