A saga dos Almada

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* O perfil de um lusitano arrogante

por Célio Simões (*)

Célio Simões - Blog do JesoRegressando da aula de matemática da escola da professora Glória Corrêa Pinto, com o livro de “problemas” de Carlos Galante embaixo do braço e as mãos em brasa, vítima dos “bolos” aplicados pela famosa mestra, contemplei pela enésima vez a moldura no alto da “bandeira” da porta principal da casa da minha avó, repetindo mentalmente a indelicada frase ao ler nela a palavra “ALMADA”:

– Gente analfabeta. Prefiro apanhar agora a escrever errado o sobrenome “ALMEIDA”.

Eu praticamente convivi às turras com aquele patronímico, atribuindo ao meu avô materno, o Coronel Juca Simões, a culpa por haver comprado uma casa tão aprazível e não ter tomado a iniciativa de remover aquele adorno de ferro caprichosamente rebuscado que o antigo dono provavelmente mandou gravar como um marco a perpetuar sua passagem pela cidade. Mas quem foram os ALMADA?

Após muito garimpar nas antigas corografias sobre a história de Óbidos, tecendo os fios de uma complicada teia de aranha, foi possível recuar aos tempos do Brasil Império, quando, apesar dos laços políticos já terem sido rompidos com Portugal desde 1822, ainda vivíamos sobre o regime monárquico de D. Pedro II.

Não se sabe como, talvez pela migração muito grande de portugueses para o Brasil, até Óbidos, perdida nos confins da Amazônia, foi aquinhoada com sua cota de famílias lusas, que lá se estabeleceram e prosperaram atuando nas mais diversas atividades, predominantemente comerciais como as padarias ou a criação de gado, onde utilizavam a mão de obra nativa quase gratuita, até mesmo porque assim era permitido pelo Código de Postura Municipal.

Por essa razão enriqueceram rapidamente e como soe acontecer com as pessoas abastadas, ressalvadas as exceções, tornaram-se extremamente arrogantes, ditando as regras sobre os costumes, a economia, a política, a religião e outros aspectos da vida social, que desaguaram na Cabanagem, o violento movimento popular contra esse estado de coisas.

A família Almada não fugia à regra. Manoel Joaquim Soares de Almada era um robusto e bigodudo português, casado com D. Jerônima e tinha um casal de filhos: Antônio e Maria Clara, esta tratada carinhosamente como “Clarinha”.

Possuíam eles um grande comércio na rua da beira, faturando também com aviamento de pequenos e médios plantadores de cacau, a quem emprestavam dinheiro a juros exorbitantes, o que lhes garantia uma vida sem sobressaltos numa cidade onde nem mesmo tinha como ser gasta tamanha fortuna; essa mesma fortuna que servia de escora para o modo áspero e soberbo com que tratavam empregados, prepostos, vizinhos e todas as pessoas da comunidade.

Clarinha e D. Jerônima não compartilhavam com aquele tipo de conduta. A mãe porque não tinha vontade própria, era um zero à esquerda, limitava-se a obedecer. A palavra do marido era uma ordem, cumprida sem rebuços. Já Maria Clara nascera sobre o signo da meiguice e da simplicidade.

Jovem de rara beleza, olhos verdes, cabelos louros à altura dos ombros, cintura fina num corpo escultural, lábios de grande sensualidade, vivia como que num cárcere privado, vigiada de perto pelo pai e pelo irmão.

Apesar dos vinte e dois anos, não tinha namorado, embora ardesse de desejo por Pedrinho, rapaz de origem humilde, morador de uma das modestas casas da “Ladeira do Céu”, que laborava como “ferreiro cintador”, profissão hoje extinta, que consistia no corte e na soldagem dos aros de ferro que envolviam as rodas dos carros-de-bois, únicos veículos existentes naqueles distantes anos. Bem apessoado, o esforço inerente ao serviço braçal moldou-lhe o físico, do qual jamais tirou proveito para qualquer tipo de desordem.

Ao contrário. Como bom devoto, empenhou-se ajudando a Congregação Mariana dos Moços nas atividades de restauração da Capelinha do Bom Jesus, para dar-lhe o aspecto aconchegante que por muito tempo ostentou.

E foi num domingo, durante um ato religioso, seu primeiro e rápido contato visual com Clarinha. Jamais a esqueceu. Paixão à primeira vista, que a férrea vigilância paterna não deixava prosperar, conquanto ansioso por revê-la. Tinha consciência que sua modesta atividade profissional obstava uma abordagem mais direta.

Conhecendo bem o português, seria submetido a clamoroso vexame. Pensando bem, o quanto tinha a filha de suave e educada, tinha o pai de grosseiro e apaideguado em suas atitudes e concepções. Passou a sofrer. Um sofrimento sem precedentes, uma dor física e profunda no coração que palpitava em descompasso pela impossibilidade de concretizar o sonho de abraçar a mulher amada.

Refugiou-se na bebida; alimentava-se precariamente. Sem vintém, emprestava dos amigos para curtir suas fantasias etílicas, sem pagar o que devia; virou alvo da pilhéria dos próprios credores. Anos a fio de desencanto pela felicidade barrada mercê da intransigência do “portuga”, que dele não queria nem ouvir falar. Maria Clara também padecendo horrores, resignou-se. Seu coração não tinha lugar para outro homem. Sabia da decadência física e moral de Pedro, lembrando que era a causa de sua desdita. A ela as notícias chegavam pelos vizinhos, como é praxe nas cidades do interior.

Passou-se o tempo. Um belo dia as coisas mudaram para ele, tomaram novo rumo. Corria o ano de 1888. Seu padrinho de pia, compadre dos seus pais e vizinho de sua casa, o respeitado senhor de terras Antônio Rodrigues de Souza, foi eleito Vereador e o levou também para trabalhar na Câmara Municipal de Óbidos.

Ficou encarregado de toda a documentação oficial do poder público municipal e mostrou-se um habilidoso redator, a despeito da mediana instrução que tinha. Abandonou o trabalho de “cintador”. Deixou a bebedeira e as extravagâncias de lado e passou a guardar cuidadosamente uma parte de seus estipêndios, cultivando um plano para apresentar-se perante a reduzida sociedade local como a pessoa sensata e empreendedora que antes fora.

Sentia que desta vez tinha condições de se casar. Maria Clara estava cada vez mais linda e o amor de ambos, torturado, dificultado, contrariado, crescia na mesma proporção que as circunstâncias teimavam em afastá-los. Com as economias do novo emprego, comprou uma casa pequena, porém com uma visão privilegiada da bela curva do Rio Amazonas no seu irreversível caminho para Santarém. Após dias sonhando acordado e sem qualquer chance de ser recebido na mansão dos Almada, resolveu escrever ao chefe da família, expondo na carta sua situação.

Foi sincero. Reconheceu que antes do trabalho na Prefeitura não havia mesmo como ser aceito. Agora não! Estava em condições, inclusive financeiras de desposar Clarinha. Tinha uma profissão com prestígio social. Que consultasse o pai o coração de sua filha e a deixasse decidir livremente. A resposta, também numa carta, veio truculenta, impessoal e desmoralizante para uma pessoa de bem, ocupante agora de um cargo destacado. No linguajar estropiado do lusitano, dizia o seguinte:
“Sinhore Pedro Marques de Oliveira:

Reçuvi sua bóça. Tanho a dzer-lhe que a rapariga não tain querere eu sou o dono da família e não tanho que dare satisfações, porque quando não qremos eu e a Jaronima ninguém mais tem querere. Fasça seus bérços e trate de procurare oitra que não tanha quaina zelle. Quem seus bérços não faz na mizeria morre. Cuida da tua vida ó gajo, que com a minha Clara brazileiro bagabundo nenhum se caza. Onde moramos tu não entras, ora pois, pois!…Manoel Soares de Almada”.

Rio de Janeiro, 15 de Novembro de 1889. Espada em punho, o Marechal Deodoro da Fonseca, com o apoio do Exército e o respaldo intelectual de um seleto grupo de civis, proclama a República Federativa Brasileira, rompendo uma situação de iniqüidade, pois, mesmo com a independência política, os bons empregos eram sempre dos portugueses, que monopolizavam a economia no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

Eram eles os “melhores partidos”, senão os únicos para o casamento das moçoilas, sendo os brasileiros, em sua própria pátria, tratados como cidadãos de segunda categoria, preteridos, sem direitos, com posição social subalterna, não raro vistos como animais de carga. Belém aderiu logo no dia seguinte, tanto que nela existe a Rua 16 de Novembro, que liga a Praça Felipe Patroni à Praça Amazonas, justa homenagem ao histórico acontecimento. No interior do Pará, as adesões ao governo republicado foram ocorrendo aos poucos, porquanto os portugueses ainda pressionavam para manter o status quo.

Óbidos aderiu no dia 26.11.1889. Reunião solene na Câmara Municipal, presidida por Antônio Rodrigues de Souza, que nomeou seu afilhado e protegido Pedro Marques de Oliveira (o antes rejeitado Pedrinho), secretário ad hoc. O ódio aos portugueses aflorava sob os mais variados matizes: eram xingados nas ruas, chamados de ladrões, ameaçados de espancamento.

O escritor e político Arthur Cezar Ferreira Reis autor do livro “HISTÓRIA DE ÓBIDOS” (p. 141) nos dá notícia do que ocorreu naquela memorável sessão:
“Acta Expecial da Proclamação da Republica Federativa Brasileira perante a Câmara Municipal da Cidade de Óbidos. Aos vinte e seis dias do mez de Novembro do anno de mil oitocentos e oitenta e nove n´esta cidade de Óbidos e na casa da Câmara Municipal reunidos os Vereadores cidadãos Antônio Rodrigues de Souza, Manoel Antonio de Mattos, Joaquim José da Silva Meirelles, Raymundo José de Almeida, Theotonio Pereira de Moraes Coutinho e Custodio Antonio dos Santos, sob a presidência do primeiro, foi aberta a sessão e tomando a palavra o Vereador Silva Meirelles declarou que authorisado pelo respectivo prezidente fazia sciente aos seos munícipes que adherindo ao novo systema de Governo estabelecido na Cidade do Rio de Janeiro no dia quinze do corrente sob a forma de Republica Federativa Brasileira e ao mesmo tempo convidava todos os cidadãos que adherissem ao novo systema a assignarem a prezente acta.

E sendo unanimemente pelos Vereadores aprovada essa manifestação, o prezidente em alta voz declarou que se achava estabelecida n´esta cidade a Republica Federativa Brasileira e dando vivas a mesma Republica foram estes enthusiasticamente correspondidos por todos os cidadãos prezentes, declarando mais que prestavão inteira obediência a Junta Provisória do Governo Republicano estabelecida na capital d´esta Província e composta dos cidadãos Justo Leite Chermont, José Maria do Nascimento e Bento José Fernandes Junior. Oraram largamente sobre a cauza da reunião os Doutores Marco Túlio dos Reis Lima, Américo W. Gonçalves Campos, e Perciliano Terra e Silva. Pedindo a palavra o cidadão portuguez Manoel Soares de Almada declarou em plena Assembléia que adherindo de coração ao novo systema Republicano federativo, declarou-se cidadão republicano brasileiro e que como tal achava-se prompto para todo o serviço como verdadeiro nacional. Este acto de patriotismo foi aplaudido pela Câmara e por todos os cidadãos presentes (…). E nada mais havendo a tratar deo-se por finda a sessão – Eu Pedro Marques de Oliveira, Secretario ad hoc a subscrevi”.

Nada melhor que a mudança de um sistema de governo para redirecionar atitudes. No intuito de salvar-se e salvar seu vasto patrimônio, o outrora arrogante Manoel Soares de Almada, perante o mesmo “brazileiro bagabundo” que ostensivamente humilhara durante os estertores do segundo império, agora Secretário Municipal, veio jurar fidelidade à República. Entregou os anéis para não perder os dedos.

E por falar em anéis, três meses após o galego quedar-se de amores pelo Brasil, Pedro e Clara, indiferentes a esse rasgo de patriotismo interesseiro, consorciaram-se felizes no singelo altar da Capela do Bom Jesus.

Finda a cerimônia, aceitando ainda que a contragosto, amável e caloroso convite dos sogros, Pedro sequer pode morar no local que antes comprara, de vez que – ironia do destino – foi calorosamente recebido como filho no imponente casarão da Rua Dr. Machado n.º 201 (…onde moramos tu não entras, ora pois, pois!…) adquirido meio século depois pelo meu avô Coronel Juca Simões de um herdeiro do feliz casal, onde passei minha infância implicando com o sobrenome dos primitivos donos gravado na porta principal, ignorando por completo o drama humano que ali se desenvolveu, só muito tempo depois a mim revelado.

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* Advogado, é escritor. Membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras Jurídicas, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós. Escreve regularmente neste blog.


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Advogado e escritor, nasceu em Óbidos. É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Reside em Belém e escreve regularmente neste blog.

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