por David Marinho (*)
Era meia noite, e aquela família se encontrava mais uma vez naquela humilde casa, pai, mãe e dois filhos pequenos – a menina de nove anos e o menino com cinco. A noite estava fria, escura e chuvosa. O serviço de meteorologia anunciou no rádio que o tempo poderia ser chuvoso naquela noite, e não anunciou nada sobre a intensidade da tormenta.
Mas a tempestade chegou de repente e a população daquela típica cidade brasileira naquela região, passaria mais uma noite como outra qualquer… Porém, a cada momento um trovão ecoava naquele tenebroso inverno, estremecendo o terreno de toda aquela área onde foram construídas milhares de casas sem nenhum planejamento habitacional. Tudo surgindo como ocupação desordenada.
E aquela família dormia tranquilamente, quando outro trovão mais forte ecoou naquele momento fazendo o pai pular da cama e ficar apreensivo quanto aquela tempestade que já se apresentava fora do normal. Olhou para o lado e viu a esposa ainda dormindo, levantou-se e foi ao quarto dos filhos, e estes dormiam tranqüilos como dois anjinhos.
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Sentou-se a beira de suas camas, ajeitou-lhes os lençóis e passou a mão acariciando seus rostos quentinhos naquela noite tenebrosa… Voltou para a cama do casal e resolveu chamar a esposa que acordou sobressaltada e perguntando assustada:
– O que está acontecendo!?
– Essa tempestade está demorando e parece que fica cada vez mais intensa… Balbuciou o pai com o olhar tenso. A esposa olhou para o marido e admirou sua aparente coragem… E desejou que a pegasse nos braços, para confortá-la protegendo a si e a seus filhos daquela tempestade assustadora. De repente, um estouro estremecedor clareou tudo dentro daquela pequena casa. Foi um raio que aparentemente caiu nas proximidades, nessa hora a energia se foi, ficando a casa as escuras e ouviam-se vozes e gritos na rua…
Então ela gritou:
– Nossos filhos!?
O pai se levantou e correu para o quarto dos filhos se batendo nos móveis e paredes naquela escuridão. A mãe hesitante sentou-se na beira da cama rezando. Chamou pelo marido, pegou o celular e tentou ligar para seus parentes se estavam atentos àquela tempestade, mas o celular não completava a chamada e uma gravação dizia: “telefone desligado ou fora de área”, (essas operadoras sempre pregam esse tipo de surpresa nas horas que mais precisamos, mesmo pagando caríssimo pelo desserviço).
Ainda no escuro, o pai sai apalpando pelas paredes e móveis indo até o telefone fixo próximo a cama, e este também não funciona, apenas dava sinal como estivesse ocupado o tempo todo (outro problema das operadoras de telefonia fixa, quando chove não funciona nada!). Meu Deus, neste país tudo deixa de funcionar quando chove, que absurdo! Esbraveja aquele pai desesperado, enquanto ia ao banheiro para lavar seu rosto, mas neca, não tinha água… O pai volta para o quarto do casal trazendo uma vela acesa e tenta confortar sua esposa:
– Calma amor, os meninos estão dormindo, logo a tempestade passará… Mas nesse instante percebe lama escorrendo dentro da casa por baixo da cama, e tem maus pressentimentos… A chuva continua e os trovões também… Ouvem-se vozes e gritos na rua, mas não se sabe de que se trata, nem o que possa está ocorrendo. Foi quando se ouviu um novo estouro muito próximo, e logo em seguida aquela pequena, mas até então feliz casa foi destruída por uma avalanche de lama e lixo dispersando seus moradores levando-os para uma gigantesca enxurrada que passava na principal rua daquele bairro. Ouviu-se ainda a voz daquela mãe desesperada sendo abafada pelo barulho da chuva e da enxurrada que gritava:
– Pelo amor de Deus! Cadê meus filhos!? Meus filhos!!! O pai foi também levado por aquele rio de lama e perdeu-se de sua amada família… Só aí, perceberam a desgraça que ocorria naquela pequena cidade na encosta daquela região serrana. Misturaram-se aos outros que gritavam por socorro em meio aquele inferno diluviano, cada um agora tentado salvar sua própria vida, mas pensando no restante de suas famílias como: pais, filhos, esposas, etc.
Ao amanhecer, via-se grande destruição por todos os lados. Voluntários da Defesa Civil e bombeiros já se encontravam no local resgatando os sobreviventes, feridos e mortos. Aquele pai até então sem saber onde andavam seus queridos filhos e esposa.
Nesse momento foi alertado que algumas crianças se encontravam mortas presas em galhos de árvores um pouco abaixo de onde estava, qual foi sua aflição ao se aproximar do local, torcendo que não fossem seus filhos, mas se não fosse os seus, seriam de alguém que teriam a mesma dor. Mas infelizmente eram os seus, e foi grande a dor daquele pai ao encarar a realidade que acontece diariamente em nosso país.
Tudo pela falha e descaso de nossas autoridades que se mostram incapazes de efetivar políticas públicas habitacionais com planejamento e segurança para a população, que por falta de um teto, ocupa espaços impróprios na construção de suas humildes casas. O resultado de tudo isso é sempre uma “tragédia anunciada” em família, com perdas irreparáveis.
Infelizmente, isso pode acontecer em nossa região, com tantas áreas ainda disponíveis. O que vimos recentemente nas casas do PAC na Rodovia Fernando Guilhon, foi só um aviso… Falta política de expansão da cidade, com planejamento.
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* Santareno, é projetista e gestor ambiental. Escreve regularmente neste blog.
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