
Houve uma época em que a memória me traía com certa crueldade. Eu fechava o clássico, a antologia poética ou um livro sobre neurociência e o medo surgia logo me capturava. Preocupava-me muito o fato de esquecer o conteúdo lido dias, semanas, meses depois.
A angústia acompanhava cada página virada. Parecia que eu estava à frente de um enorme desperdício de tempo. A mente simplesmente não retinha as frases geniais. Os parágrafos brilhantes sumiam na névoa da rotina. O esforço parecia em vão.
Hoje percebo o quanto estava errado. Essa sensação não me agonia mais, esvaiu-se das minhas reflexões.
Aprendi a encarar a literatura de uma forma libertadora. Não abro um livro em busca de mero acúmulo de dados. Não leio para decorar teorias, citações sedutoras para usar em conversas, textos. A leitura deixou de ser um teste de retenção. Tornou-se um ato de presença absoluta. Leio para viver aquele exato momento na sua plenitude.
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Busco a emoção pura do instante. O impacto de uma palavra bem colocada altera o pulso na mesma hora. A beleza de uma estrofe provoca um arrepio imediato na espinha. Isso me basta. A experiência acontece no agora. O encontro entre o leitor e a obra existe na fração de segundo em que os olhos percorrem a tinta impressa no papel físico.
Experimento muito isso com a poesia. Os versos possuem força efêmera e, ao mesmo tempo, incrivelmente profunda. Eles não exigem memorização. Pedem apenas entrega total e silenciosa. Um poema saboreado logo de manhã transforma o ritmo de todo o dia. A lembrança exata das palavras pode até sumir da cabeça. Não importa.
Importa o que o poema provocou naquele instante. A epifania como rastilho de pólvora a percorrer todo o corpo atingido por palavras, atravessadas pelo meu olhar.
Tudo o que lemos e que virou assombro passa a integrar quem somos no nível mais profundo. É exatamente como a água que rega o solo seco de um jardim. A umidade se infiltra e nutre as raízes. Ninguém enxerga a água depois de absorvida pela terra. Ela apenas cumpre o papel de manter a planta viva e forte.
O ato de ler, pois, é um belíssimo exercício de viver. O momento presente justifica todo o esforço da contemplação. Agora, fecho o livro, várias páginas rabiscadas, com tranquilidade. Frases iluminadas, palavras incandescentes continuam em grande parte ocultas, silenciosas para sempre dentro de mim. Pontos luminosos no céu das minhas entranhas.
∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é mais um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial. Leia o manifesto do centauro.
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