por Célio Simões (*)
Apesar dos meses de preparação, só quando entrei na Igreja da Trindade de braço dado com a mãe da noiva é que realmente me dei conta do que estava acontecendo.
O local apinhado de gente voltava os olhos para aquele improvisado casal, assim como para minha mulher que formava par com Célio Augusto, nosso primogênito que logo mais contrairia núpcias com Carina, sua namorada de mais de dez anos.
A decoração do templo, onde por sinal também casei em 20.12.1975, chamava a atenção pela beleza sóbria e os presentes não mediram elogios ao encanto da cerimônia, tocados pela ternura dos noivos, realçada pela palavra inspirada dos celebrantes, em especial do Padre Ronaldo Menezes, amigo da família, com a fluência que lhe é nata e seu especial talento para sensibilizar mentes e corações.
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Cerimônias de casamento são assim mesmo. São rituais previsíveis e de raras variações, a não ser quando se empresta ao evento ares de espetáculo holliodyano, de duvidoso bom gosto. Sempre fui de opinião que as atenções devem estar focadas nos noivos, por ser este o dia máximo de suas vidas. Entretanto, uma coisa é assistir enlace matrimonial dos outros, como convidado, por mais amigos que sejamos do casal.
Outra, diametralmente oposta, é participar como um dos atores, quando casa o primeiro filho, aquele que ainda pequeno e nos proporcionando a experiência ímpar da paternidade, criamos com desmedido amor, preparando-o para o mundo, justo porque não é e nem será nosso para sempre.
Dos degraus da entrada até o altar, como que um filme de colorido especial me passou pela cabeça. Lembrei que ali próximo, na Maternidade do Povo, no dia 21.03.1998, eu carregara da sala de parto até o apartamento, aquele moleque chorão e inchado, exibindo-o pelos corredores como um troféu.
Acomodei-o no berço após abraçá-lo delicadamente e abrigá-lo sob cobertores, aquecendo-o a contento, tentando reproduzir aqui fora, o aconchego do ventre materno.
E a partir daí começou uma longa vivência de trinta anos, durante a qual compartilhamos experiências, tendo eu e minha esposa Fátima Augusta a felicidade de vê-lo crescer, ensaiar os primeiros passos, dar suas tímidas braçadas no curso de natação na piscina do Colégio Nazaré, após quase perecer afogado num sítio em Santa Izabel do Pará, município próximo a Belém, desvendar o emaranhado das letras e dos números, aprimorar sua cultura até tornar-se advogado, conquistar duas pós-graduações, tornar-se tradutor independente, fluente que se tornou em inglês, espanhol, francês e italiano, obter sua carteira de motorista, conquistar o primeiro emprego, tudo acompanhado de perto pelos atentos olhos dos pais, agora divididos de forma igualitária entre ele e mais dois irmãos, Cezar e Sérgio, que brincavam e brigavam, brigavam e brincavam, mas sempre juntos, porque este é o sentido de família, tão juntos como foram fotografados em fraterno congraçamento na Igreja da Trindade – para mim, a suprema felicidade.
O tempo, implacável, avança com imperceptível rapidez.
Cheguei mesmo a duvidar que trinta anos houvesse se passado e aquele guri que eu exibira triunfante pelos corredores da maternidade, estava bem ali na minha frente, dizendo com voz firme que aceitava a noiva como sua futura mulher, obviamente me dando a entender que doravante nosso convívio (aquele que aprofunda o amor filial) passaria para uma espécie de segundo plano, pois agora ele teria sua própria família, que ouso dizer que será um pouco minha também, pois nenhum filho deixa de sê-lo apenas porque casa ou sai de casa – e um velho brocardo ensina que avô é pai duas vezes.
Antes do fim da celebração, fiz um rápido exame de consciência. Não amam de fato aqueles que não demonstram expressamente o seu amor. Pessoas existem que têm enormes reservas de ternura, mas evitam dizer isto em voz alta. Evito cair nessa armadilha que cobrará sua conta quando não for mais possível quitá-la.
Também estou convicto que nem sempre os sentimentos mais profundos nos chegam nos momentos de solidão. Eu, por exemplo, estava rodeado de gente naquela igreja e, no entanto, meu pensamento teimava em se ausentar dali.
Naquele momento único, decididamente já vivenciado por tantos, eu fazia uma espécie de “balanço” para avaliar se eu fora o pai que meu filho desejou que eu fosse ou se as minhas falhas superaram os méritos, se é que eles existiram. A verdade é que três décadas voaram e eu agora estava submetido ao julgamento de quem antes eu podia dominar apenas com um tom mais alto de voz, uma alegre chinelada ou aquele conhecido olhar de aplauso ou reprovação que só os pais sabem dar.
A propósito da celeridade da passagem do tempo, já quase ao fim da solenidade recordei o que escreveu Affonso Romano de Sant’ana, aplicável como uma luva ao sentimento que me invadia a alma, até mesmo porque melhor forma eu não teria para traduzir o a experiência vivida na agradável companhia do meu filho Célio Augusto, meu parceiro de viagens, amigão de todas as horas, colega de trabalho que nunca me deixou na mão – cuja ausência nem a foto que ficou em seu quarto suprirá, mas que lá propositadamente coloquei para dizer que o lugar lhe pertence, tantas vezes quantas ele quiser retornar ao aconchego do antigo lar.
Assim diz a magistral crônica de Affonso Romano, em tudo aplicável ao “Celito”, como o chamo desde aquele já distante 21.03.1978, quando veio ao mundo para dar sentido diverso à minha vida:
“Há um período em que os pais ficam órfãos dos próprios filhos. É que as crianças crescem como pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença, com estridência alegre, às vezes com alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias de igual maneira. Crescem, de repente. Um dia sentam-se perto de você e dizem uma frase com tal maturidade que você sente que não pode mais trocas as fraldas daquela criatura. Onde é que andou crescendo aquela danadinha, que você não percebia?
Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? E a pá de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme da escola? Ela agora está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você agora está ali, na porta da discoteca, esperando que não apenas cresça, mas apareça.
Ali estão muitos pais ao volante, esperando que os filhos saiam esfuziantes. Entre hanbúrgeres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, nossas crianças, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas nos ombros ou a suéter amarrada na cintura. Está quente, dizemos que vão estragar a suéter, porém não tem jeito: é o emblema da geração. Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. Não mais colheremos as crianças nas portas das discotecas e festas. Saíram do banco de trás e passaram para o volante das próprias vidas.
Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir suas almas respirando conversas e confidências. Não, não as levamos suficientes vezes ao cinema, não lhes demos hambúrgeres e refrigerantes o bastante, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas. Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo nosso afeto. No princípio, subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e outras crianças. Sim, havia as brigas dentro do carro, disputa pela janela, pedidos de sorvete e sanduíche, cantoria infantil.
Depois chegou a idade em que para ir à casa de campo com os pais começou a ser esforço, sofrimento, pois era impossível largar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. O jeito é esperar. A qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos, e que não pode morrer conosco. Por essa razão, avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam”.
Não tenho a mais remota idéia de como agradecer a Deus por tamanha felicidade. Na Igreja da Trindade ou no salão nobre da sede social da Assembléia Paraense, local da recepção, maciçamente responderam presente os familiares queridos, aquelas pessoas que eu e Fátima desejávamos que ali estivessem, algumas vindas de muito longe para dividir conosco aquele momento de puro encanto. Eles fizeram a diferença. Multiplicaram nosso júbilo pelo auspicioso acontecimento. Sentimos-nos recompensados por cultivar tão sadias e desinteressadas amizades.
Em inspirada reflexão, A. C. Frits escreveu que “não existe missão cumprida, pois a cada dia surge um novo desafio”. Posso dar um testemunho pessoal sobre a veracidade dessa assertiva. É que no dia 07.01.2012, Célio Augusto – o primogênito cujo casamento foi objeto desta crônica – deu-me de presente o primeiro neto.
Tenho um amigo que afirma do alto de sua experiência: “todo mundo devia ser avô para depois ser pai…”. Francisco (nome que lembra o mais ilustre dos argentinos), veio ao mundo saudável e sem se dar conta está galvanizando as atenções dos avós, que não cansam de propiciar-lhe enormes doses de amor, por ele intensamente sentida.
É a missão e o novo desafio de que fala Frits, só que dessa vez, uma missão espetacular, única, inédita, permeado pela sua pequena e suave presença. Agora me dei conta que o meu carinho e afeto ocioso e estocado, não exercido nos meus três filhos não podem morrer comigo. Tenho-os de sobra e em generosas doses para dividir igualmente com os netos, sejam eles quantos forem.
Foi o que fiz neste domingo, Dia dos Pais. Cercado dos filhos, noras, sobrinhos, compadres, cunhados e agregados para o tradicional almoço no apartamento, minhas atenções não desgrudavam do meu neto, agora com quase três anos.
Irrequieto em seu quadriciclo e faltando-lhe por óbvio a carta de motorista, derrubou meus livros da prateleira, deu um chega pra lá na minha TV, passou por cima do pé dos convidados e danificou parcialmente uma velha imagem em gesso do Coração de Jesus (para quem eu rezo toda vez que o Flamengo joga), que reconstruí mais tarde qual meticuloso artesão.
Se mais aprontasse, eu não me importaria. Preciso dedicar a ele os meus melhores e estocados sentimentos de carinho, registrados se possível em quantas fotos possamos tirar juntos, para que um dia tenha a certeza que foi muito amado, como também o será pelos seus próprios filhos. Assim é ou deveria ser o círculo da vida para todos nós.
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(*) Advogado. Trovador e cronista do Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes (Curitiba/PR). Membro da Academia Paraense de Jornalismo.
Encantada e emocionada. Linda crônica de amor. Parabéns.