por Leíria Rodrigues (*)
Maria das Dores, a “Dasdores”, como é conhecida, é uma mãe dedicada e vive preocupada com os filhos, o Sebastião e a Maria Piedade. Mesmo com dinheiro curto que ganha do seu artesanato, gosta do que faz e não quer outra coisa na vida.
Ela vive dizendo que a vida tem sido um presente a cada dia. Só não sabe lidar muito com a doença, desde que o marido se foi. Mas, lá vai ela…mais uma vez, tentar levar seu exame ao médico do posto de saúde do bairro.
Aos 46 anos de idade, em uma dessas visitas do Agente de Saúde, Dasdores não pode escapar. Diz que não sente nada, que tem saúde de ferro. Mas lá está sem muito saber do que se trata o exame e poucos outros que fez. Por sorte é uma Campanha Nacional de Prevenção e Saúde da Mulher. Tem que alcançar uma cota de mulheres para que a campanha tenha sucesso. E num é que pegaram a Dasdores! Mas, Dasdores acha que tem sorte! O médico não aparece ao posto e ela está livre!
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Diferente de Dasdores, todo mês é rotina de Dona Marilda ir ao seu médico, como ela mesma diz, o “Doutor” Moisés! Realmente o médico é muito falado na cidade. Dona Marilda é a mulher do prefeito! Aí, num tem como discutir a ida frequente ou quase hipocondríaca da primeira-dama. Ela que já se livrou de uma cirurgia ano passado, mas não pode fugir do diagnóstico de um câncer.
Na última visita que fez ao Doutor Moisés, todos os jornais comentavam o “carcinoma ductal invasivo” da mulher do prefeito. O mastologista fora ouvido várias vezes para falar da “mastectomia radical” pela qual Dona Marilda poderia passar. Pois havia “linfonodos” espalhados pela região axilar. Mas, tudo estava sendo feito para preservar a mama da primeira dama. Mesmo confiando no doutor Moisés, o prefeito já havia cogitado a possibilidade da mulher ir para São Paulo, para o Hospital Sírio Libanês.
Dasdores, que nem se quer sabe o nome do prefeito, pois só liga a TV, quando sobra um tempinho ou, quando sintoniza o radinho à pilha, que ganhou do filho, no dia das mães, está terminando uma encomenda grande de tapetes feitos de barbante, para serem vendidos no mercado. Será uma boa grana. Agora dá para comprar a batedeira de bolo que tanto quer.
Com tanta coisa na cabeça, Dasdores esqueceu que tem que voltar ao posto com aquele exame. Maria Piedade, a única filha, tratou logo de dar um empurrãozinho e ficou azucrinando a mãe para ir ao posto, que não fica tão longe da casa.
Bem lá na primeira salinha, Piedade e Dasdores, sentadas, aguardam a vez. E, como esqueceu de ir no dia marcado, se sobrar uma brecha, vão chamar. E num é que dessa vez a danada teve sorte! O médico, com um olhar cabisbaixo, abre o envelope, franze a testa e logo pergunta se Dasdores sabe rezar. Ela, se espanta, arregala os olhos e diz que rezar é o que mais sabe fazer na vida, além de tecer.
Então, o médico não titubeia e pede que ela continue a rezar, pois está a com uma doença grave e que tem que procurar o serviço de urgência do posto, para pegar outro encaminhamento.
Dasdores esmurece! Sai da salinha apertada e escura, arrasada…sem as pernas no chão! Acha que já tem poucos dias de vida! Quando chega em casa, olha para os tapetes como se não pudesse mais terminar sua encomenda. Piedade, tão aperreada, vai ao telecentro pesquisar na internet sobre a tal doença, que o médico nem explicou direito.
Depois de muito agrado, Piedade convence a mãe a ir a outro médico, em outro posto de saúde. Não pode ficar naquela angústia. Mesmo rezando todo dia, Dasdores não dorme direito.
Numa sala toda cor de rosa, um arzinho fresco vindo da janela, com um cartaz bem grande na parede, com frases que falam de amor e cuidado com as mulheres, Dasdores se sente acolhida. Sente que aquela sala é preparada só para mulheres. Vê outras mulheres esperando e, parecem bem, conversam e riem.
Dasdores começa a pensar nos tapetes que tece, nos fios, nos pequenos detalhes que faz de suas mãos habilidosas, suas obras de arte, admiradas por tantas pessoas. Sua alegria, mesmo singela, está no colorido dos fios e pontos que ganham os mais variados formatos. Ela mesma gosta de dar vida a animais, que desde garota conheceu. A tartaruga gigante é a que mais ela vende. Sente que suas mãos podem continuar tecendo.
Dasdores decide esperar o tempo que for. Mas, nem é preciso. É chamada logo que começa a ler as frases no cartaz.
A vida de Dasdores nunca mais foi a mesma, depois que ela saiu da sala rosa e ventilada. Dasdores continua tecendo mais e mais. E decidiu tecer não só bichos, animais, mas partes do corpo feminino. O rosto, com bocas e olhos grandes. E seios, de todos os gostos e tamanhos.
O câncer era só o da Dona Marilda e de uma outra mulher. Trocaram as imagens da mamografia. Não eram as verdadeiras imagens da mamografia de “Maria das Dores da Silva”, de 46 anos, a Dasdores.
Até hoje, não se sabe de quem são as imagens da mamografia que apontava um câncer avançado. Infelizmente, essa mulher não terá tanto tempo para tecer a sua história.
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* É jornalista e professora santarena.
Leia também dela:
Mulher brilhante.
Jornalista faz entrevista sobre a sua doença.
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“Os autores”
Minha vó materna (dona Ana Ferreira, que já repousa junto ao Pai) já dizia: “de uma conversa você puxa outra…” Por falar na Leíria Rodrigues, hoje pela manhã, ao seguir para o trabalho, subindo a travessa 7 de Setembro, encontrei dois Amigos (com letra maiúscula mesmo) de longa data, seu Climério (taxista muito solicito e cuidados que sempre transporta minha família) e Valdi Ribeiro (amigo leal da minha época de imprensa). Dois abraços que tornaram meu dia ainda mais feliz, aliás, muito mais feliz, pois a chegada de minha mãe (dona Ray), ontem, tornou-me o filho mais feliz do mundo…
Nunca tive a oportunidade de conversar pessoalmente com a Leíria Rodrigues, apenas pelo telefone, eu na condição de repórter de jornal escrito e ela na condição de coordenadora do Rádio pela Educação e, mais tarde, como assessora de comunicação da Celpa. E nossas conversas sempre ficaram no campo do profissional, ou seja, limitaram-se às pautas jornalísticas. Mas havia algo que sempre me chamava a atenção: o respeito, a delicadeza, a disponibilidade, a gentileza e a habilidade que Leíria apresentava todas as vezes que era solicitada. Mesmo que a pauta fosse “pesada” (especialmente no caso da Celpa), Leíria sempre agia com extrema calma e nunca, nunca mesmo, me deixou sem resposta. Mas eu confesso (peço perdão por isso) que só aprendi a admirar essas suas caracteristicas depois que Ela veio a público dizer que estava iniciando uma batalha contra um câncer. O que é um câncer de mama para uma pessoal com esses atributos? E mesmo sem nunca termos conversado pessoalmente, já estive diante de Deus, pedindo a Ele que cure Leíria. Aliás, fiz isso hoje, ao ler seu texto sobre a Dasdores…. E imediatamente um pensamento me veio à cabeça: “Deus nunca nos dá fardo mais pesado do que aquilo que podemos carrecar”. Saúde e vida longa para você, Leíria guerreira…
Nossa Juscelino….primeiro peço permissão ao amigo Jeso, que tem publicado e curtido minhas imaginações….para tentar dizer algumas palavras ao colega Juscelino, que por vezes trocávamos notas…rs E nessa troca o que fica é o essencial: a reciprocidade.
E fico muito feliz ao saber que tenhas toda essa admiração, mesmo sabedores que somos tão limitados diante da grandeza Divina…e que tudo precisa ter um sentido. Até mesmo na enfermidade! Isso é o que tenho buscado caro amigo. Tento meditar e buscar profundamente o sentido de ser feliz! De compreender que as alegrias, os bons momentos, as boas risadas, os bons papos, os amigos, tudo aquilo, por mais simples, precisam estar acima de qualquer dor….
Um grande abraço e obrigada pela calorosa mensagem….que só me enche de esperança ainda mais!!!
Leíria