por Samuel Lima (*)
O gesto de um homem chamado Mahatma Ghandi atravessou o tempo. Corriam os anos 1930 e os tiranos ingleses haviam proibido a extração e comércio de sal em território indiano porque pretendiam eliminar qualquer competição com o seu produto. A decisão dos colonizadores condenava milhares de pessoas à fome porque colher sal era crime.
Desafiando a ordem injusta, um homem aparentemente frágil catou um punhado de sal, numa praia de Gujarat, ergueu o punho e começou a luta efetiva pela independência do país, que seria vitoriosa 20 anos depois. Um homem, um punhado de sal e um gesto que mudou a História.
Dilma Rousseff, que comanda um governo cuja jóia são as riquezas existentes na camada pré-sal, pode ter marcado sua trajetória no poder a partir de outro gesto simbólico. No dia 21 de fevereiro, Dilma foi ao encontro de seus algozes, “comemorar” o aniversário de 90 anos do jornal Folha de S. Paulo.
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Mais que uma simples visita de cortesia a um veículo que publicou sua ficha falsa na capa (e jamais fez nenhuma autocrítica) e respaldou um de seus colunistas mais conhecidos a xingá-la de “vadia e vagabunda”, ela fez um discurso incompreensível àqueles que lutam pela liberdade de expressão e o direito à comunicação no país.
A síntese é clara: “Ao comemorar o aniversário de 90 anos da Folha de S. Paulo, este grande jornal brasileiro, o que estamos celebrando também é a existência da liberdade de imprensa no Brasil”.
Gesto e discurso são objetos de intenso debate na blogosfera, a partir de alguns conhecidos “blogueiros sujos” (assim chamados pelo ex-governador José Serra), que na recente disputa eleitoral posicionaram-se ao lado da presidenta. O jornalista Leandro Fortes escreveu:
O pecado capital de Dilma foi ter, quase que de maneira singela, corroborado com a falsa retórica da velha mídia sobre liberdade de imprensa e de expressão. (…) A presidenta usou como seu o discurso distorcido sobre dois temas distintos transformados, deliberadamente, em um só para, justamente, não ser uma coisa nem outra. Uma manipulação conceitual bolada como estratégia de defesa e ataque prévios à possível disposição do governo em rever as leis e normas que transformaram o Brasil num país dominado por barões de mídia dispostos, quando necessário, a apelar para o golpismo editorial puro e simples. (Fonte: https://brasiliaeuvi.wordpress.com)
O repórter especial de CartaCapital enxerga, na atitude de Dilma, algo a mais. Trata-se, para Fortes, de “uma concessão que está no cerne das muitas desgraças recentes da história política brasileira, baseada na arte de beijar a mão do algoz na esperança, tão vã como previsível, de que esta não irá outra vez se levantar contra ela.
Ledo engano. (…) A presidenta conhece a verdadeira natureza dos agressores. Deveria saber, portanto, da proverbial inutilidade de se colocar civilizadamente entre eles”, vaticina o jornalista. Já o blogueiro Altamiro Borges, observa a cena a partir de duas interpretações possíveis:
Os mais otimistas afirmam que Dilma cumpriu o seu papel de chefe de Estado, que não tinha como evitar o ritual – junto com ela estiveram os presidentes do Senado e da Câmara, ministros do STF e lideranças políticas de distintos partidos. Já os mais incrédulos criticam a participação da presidenta na homenagem aos algozes da Folha. Alguns suspeitam que sua atitude sinalize nova cedência aos barões da mídia. Fonte: https://altamiroborges.blogspot.com
Ao coro dos contentes veio se juntar o jornalista Alberto Dines, decano do Observatório da Imprensa, em comentário radiofônico publicado no OI (25/02/11). Dines entende a participação da presidenta nos 90 anos da Folha como parte da “Doutrina Dilma para a Mídia”. Para o Observador, sua presença no convescote dos Frias é uma “saudação a uma imprensa livre e plural”.
Estranha coincidência, três dias depois coube ao ministro das Comunicações, Paulo Bernardo (PT), “suitar” a fala de Dilma na festa da Folha. Bernardo foi categórico e sinalizou o recuo, já desqualificando o projeto herdado do governo Lula: só irá encaminhar o projeto do novo marco regulatório do setor no segundo semestre, à apreciação do Congresso Nacional, porque “tem grandes chances de ter uma besteira no meio” (grifo nosso). Por “besteira” entenda-se algo que possa contrariar os interesses dos empresários da comunicação…
Mais que meia palavra, basta um gesto para bons e maus entendedores. Ao invés de um punhado de sal erguido contra os grilhões da ditadura midiática, a mandatária maior do país preferiu desafiar a lógica política.
O enigma está posto e o maestro Nilson Lage (professor aposentado da UFSC) deu algumas pistas, em seu twitter: “Tia Dilma na festa da Folha é prova de feminina astúcia, de fragilidade confessa, de amnésia, de ingenuidade ou de falta de vergonha na cara…”.
A ver.
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* Santareno, é jornalista, docente da Faculdade de Comunicação da UnB. É professor-visitante do curso de jornalismo da UFSC e pesquisador do objETHOS.
Professor Samuca,
É um prazer ter de de volta suas reflexões sobre a mídia e a politica.
Marco regulatório neles !!!
Tiberio Alloggio
Mestre Tibério,
Prazer revê-lo! Esse debate do marco regulatório vai render muito. As propostas prioritárias da I Confecom continuam nalguma gaveta do Planalto e do ministério das Comunicações.
Abraços fraternos,
Samuca
Comparecer no ambiente de quem te persegue e mente a teu respeito é atitude grandiosa, desde que você deixe o seu recado, a sua mensagem, claramente, a respeito do comportamento rasteiro do “dono da festa”. Cristo visitou muitos adversários, mas foi claro em suas mensagens quanto a esses, dizendo-lhes as verdades que precisavam ser ditas.
Que mensagem a Dilma deixou na Folha? Infelizmente, a de submissão e falta de vergonha na cara.
Dilma foi precisa, ela sentiu na própria pele os efeitos da censura, imaginem as raposas à solta no Brasil, livres para roubar até merenda escolar (mesmo a imprensa mostrando já roubam!), ela sabe por quem está cercada e onde estava pisando. Leandro fortes (país dominado por barões da mídia)só fala de Folha, Globo e Estadão, não quer outra coisa a não ser audiência no seu bloguinho do contra fulêro. CENSURA NEM AOS BLOGS!
Mestre Jeso,
Há formas e formas de se fazer representar no evento da Folha. A presidenta, por exemplo, poderia ter delegado essa função ao ministro das Comunicações. Até aí estaria dentro do esquadro institucional que vc aponta, corretamente. O pior não foi o comparecimento, pura e simples, mas o discurso e o apontamento simbólico.
Não há qualquer apologia ao revanchismo. Você sabe, tão bem quanto eu, a importância da regulação democrática da comunicação (setor econômico e produção simbólica) para o avanço democrático, no país. Por isso encerrei meu texto com um “A ver”, porque no fundo ainda acredito que possamos avançar nessa área que passou em branco nos 8 anos de governo Lula, e já vinha capenga do governo FHC.
O Brasil é a única democracia de respeito, no cenário mundial, que tem o setor de mídia totalmente sem marco regulatório. Por isso hj, mestre, centenas de profissionais e algumas dezenas de empresas de comunicação são reféns das decisões emanadas por mais de 20 mil magistrados, na base do cada cabeça uma sentença, literalmente. Com a extinção da Lei de Imprensa, ato insano do STF porque nada colocou em seu lugar (se era entulho autoritário, ficou o vácuo jurídico) estamos à mercê da justiça comum. Salve-se quem puder, mano. Liberdade de expressão é direito de cidadania; liberdade de imprensa é direito econômico no marco da livre iniciativa (o direito de imprimir, legado do direito inglês).
Abraços fraternos pra ti e mano Celivaldo.
Samuca
Acredito que nesse contexto, os algozes levaram um tapa na cara (um punhado de sal) de forma diplomática, com a presença da Presidenta Dilma na dita “comemoração”. Os que lhe esbofetiram no passado, jamais imaginavam, que a mesma iria participar da dita festa na condição de mandatária maior, saudando a liberdade de expressão.
Vejo tanto os meios de comunicações pregarem a tolerância sob todas as formas, mas o que se nota no episódio é uma total ignorância por parte de alguns que se dizem Jornalistas. Dilma foi eleita para ser presidente de todos os Brasileiros, inclusive dos que não votaram nela ou a criticaram firmemente.
Dilma, com o ato mostrou grandeza espiritual e preparada para o exercício do poder. Querer que uma pessoa seja revanchista, como no caso, é de uma pobreza maquiavélica que impressiona. Dilma faz bem ao Brasil ao não dar ouvidos aos reacionários de esquerda que vivem pregando a política do olho por olho e dente por dente.
Dilma mostrou sensibilidade ao verificar que na última eleição presidencial o país estava dividido, com a oposição ocupando espaços em estados importante da Nação. Ser reacionário de esquerda, pelo menos nesses estados, virou sinônimo de atraso e clientelismo.
Pela sua discrição e pulso firme na condução do governo, a presidente vem mostrando-se uma grande administradora, e em algumas situações externa até virtudes de um grande general. Foi assim na negociação do salário mínimo, não titubiou em deixar bem claro aos partidos da base aliada (inclusive os de esquerda) que uma eventual reprovação do projeto do governo sobre o tema teria como repercursão perda de cargos.
A propósito, o lema do Governo é: “BRASIL PARA TODOS”, nesse todos, creio eu, inclui-se inclusive os que pensam diferente de mim ou me criticam. Conhecendo a falta de virtude de boa parte da esquerda brasileira, bem como a de alguns “intelectuais” e jornalistas, a nossa presidente deve ter pensado na célebre frase de Voltaire, que diz: “Que Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu.”
Parabéns Samuca pela feliz análise. Dilma está muito aquém da grandeza de um Gandhi, embora tenha tentado mostrar qualquer outra coisa, ficou patente, mais uma vez a observação de Nilson Lage, “… falta de vergonha na cara.
Caro Samuel, olho esse episódio sob um ângulo que pode até ser considerado rasteiro, no sentido de profundidade na abordagem, mas que na verdade é um esforço que faço de cunhar uma síntese.
Eis: a presidente Dilma Rousseff personifica uma instituição deste país; a Folha de S. Paulo idem. As duas estão, posto que sob à mão do homem, sujeitas a erros, a vacilos, a derrapadas, como a lembrada por você no artigo.
Mais: em algum momento as duas podem até entrar em rota de colisão, em atritos. Mas nem por isso a convivência entre as duas, o respeito mútuo deve ser incentivado. O aniquilamento de um, ou de outro, não pressupõe, neste caso, um exemplo de avanço democrático. Muito pelo contrário.