por Josué Vieira (*)
O fim inexorável; capacidade mínima de negociação; parição minimalista do firmamento. A lembrança é o embrião estéril do existir, das palavras celebres sobre a finitude à reclusão comportada do conformar-se. Hábitos são escolhas que no morrer aparecem nas lembranças, seduzem os comportamentos dos terceiros, espectadores da grande máquina de moer e triturar os ossos: cotidiano.
A ato de pensar e contemplar é um eterno exercício sobre o morrer, coube a Platão apontar os prévios caminhos desse exercício. Tal caminho trilhado por Cicero: “commentatio mortis”; o pensamento, um fluxo crescente de comentar sobre o morrer.
Já Santayana, “uma boa maneira de provar o valor da filosofia consiste em perguntar o que ela pensa a cerca da morte”. Abbanano (2007), exemplifica: “(…) Alexandre da Macedônia e seu arrieiro, mortos, reduziram-se à mesma coisa: ou ambos são reabsorvidos nas razões seminais do mundo ou ambos são dispersos entre os átomos”.
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Isso!! Faltava, encontrei. Próximo de um estalo, longe da velha amante Eureka… Imagem: do quarto fétido do Centro, altos do armazém, quando nós amantes rolávamos qual mendigos alegres no fim de tarde, arrancando êxtases entre si numa tarde qualquer de um dia demiurgo. Porra! Não lembro. Sei do haver, ponto presente, momento mutante.
O morrer é isso, como a vida é possibilidade, forma provável ou capaz de formular o possível. O software do existir aponta para uma leve “justiça”, uma brisa de igualdade arrepia as pernas. A morte iguala; nem ricos, nem pobres, nem afirmação, nem negação, nem justos, nem injustos. Há uma tabula rasa…
Em “Carta à Meneceu”, de Epicuro, “Acostuma-te à idéia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.”
Já Russell em “Sobrevivemos à morte?”, presente em sua publicação mais conhecida “Porque não sou cristão”, acredita que primeiro deve-se discutir com o individuo se ele continua sendo o mesmo que ontem, uma vez que a perplexidade diante da morte necessita antes do debate a parte empírica… É… Machado de Assis já respondeu com seu “Memórias póstumas de Brás Cubas”, porque se a matéria está em continua modificação, por ora a continuidade material é aparência e conduta, e o corpo: território do pertencer, do aparentar e do conduzir.
Por isso, Roquentin! Isso leitor, ele mesmo o “escrivinhador” ficcional dos diários em “A Nausea”, de Sartre.
Por que? Vamos contemplar, visualize um sujeito desprovido de um sentido de passado, nenhum pré-sentido o conduz, vive como coisa e assiste a realidade emergir, a gratuidade, o imperativo, o circular, o fazer e as outras coisas despontando numa velocidade acelerada, cujo efeito é uma flutuação no absurdo. O presente material que dita.
Antoine Roquentin parte deste presente, sua autoconsciência ganha corpo, só que ao se aproximar demais da sociedade ela se torna indigesta, portanto o existir é ignóbil e mínimo. E o morrer encontrar-se neste caminho.
Deveria ser tributada a publicidade das formas de morte pelo wathsapp e outras plataformas do existir virtual. Na verdade já é pelo se conhece como tráfego de dados. O tributo à morte é tamanha que a experiência de morrer é legitimada pela capacidade virtual de reconhecer. E as formas de reconhecer o morto são subjetivas, a verdade sobre a causa mortis não se pontua mais no fato social, no ato, na ação.
A capacidade fílmica de criar um ângulo para o morrer modifica as experiências sociais, que no primeiro momento apenas destoam de um esperado, mas num futuro próximo surtirá um efeito tremendo capaz de modificar nossa capacidade de reconhecer, legitimar, de ser e de agir perante ao imponderável.
O virtual capacita a verdade, e a verdade se torna distante das experiências colaterais. A experiência direta do horror é encapsulada nas imagens, desaparece a morte, nasce o sangue, as vísceras, as curiosidades mórbidas ou alegres produtoras de ângulos filmicos; a imagem pela imagem constrói uma morte sem dor, sem lamentações, sem fim, porque este tipo de morte expressa nas dores e nas lamentações é pretérita, própria de uma modernidade clássica da morte.
Dias recebi 12 fotos, 12 ângulos do mesmo evento. Irreconhecível… lamentável… mas eram. As vísceras esgarçadas sob os fragmentos das pernas, longo olhar meu para reconhecer um corpo… um peito aberto qual flor enrugada denotava antes vida, agora ali matéria mínima de 12 registros. A cabeça, junto do barro preso nas linhas das rodas jazia em pedaços. Atropelamento…
A massa amorfa sem vida angustiava, logo os comentários sobre as 12 telas fúnebres pululavam, inundavam a visão naquele espaço de 5”. Fazia das minhas percepções sensoriais um Rio Doce. Então… então… um nome. A única imagem capaz de saber que um conhecido jazia de forma trágica. Trágico: o natural da contemporaneidade. Pintava mais uma tela para o deleite alheio por tráfego de dados. Mais uma instância ficcional morrer.
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* É santareno, poeta e escritor.
A morte é um mal entendido mesmo, mas a tendencia é essa mesma, a ordem natural das coisas apontam para este fim sem negociações para um fim sem o “meio fim”. A morte é mal escrita mesma, ceifa, tolhe, arranca a matéria humana de suas emoções frágeis, por isso confuso…
Isso sem problema, o fim é comum a todos, há uma concordância indiscutível sobre isso.
Mas o que perverte e se torna arrogância neste caminho inexorável é como lidamos e damos finalidade com as formas alheias do morrer. Parece que a memória não dá mais conta de selecionar naturalmente o que se deseja lembrar ou esquecer, precisamos do wathsapp para reconhecer que a morte é iminente, assim a morte se torna virtual, quase plástica, apagando assim as emoções em volta deste evento, emoções que definem o momento como único, que pelo compartilhamento virtual via wathsapp dessas formas de morrer é que interferimos mais uma vez nas ordens naturais das coisas, e transformamos para pior.
Nas etapas que definem periodo de estagnação nas sociedades primitivas da História humana quando as certezas naturais são trocadas por virtualidades o senso de sociedade é alterada, e toda uma cadeia de eventos sofrem modificações, uma dessas modificações é a criação de ídolos para responder sobre as coisas da vida. E isso o wathsapp personifica na contemporaneidade essa virtualidade.
Não entedí ! Que coisa mal escrita , confusa …