por Edwaldo Campos (*)
Vocês haverão de concordar que Meia Gala, alcoólatra, sem profissão, pequenino e pobre morreu como queria: grande e importante. Nenhum enterro, nem de bispo, nem de político, nem de ninguém, igualara-se em multidão.
O povo comprimido em todo o espaço da praia e da rua da frente, bem como em barcos e canoas que todas as procissões de São Pedro juntas nunca conseguiram reunir, assistiu espantado o imenso casco de ferro do Gambôa ser colocado à pique, exatamente no encontro das águas, para baixar às profundezas o gigantesco defunto AMADEU OSÓRIO SANTO DOS SANTOS.
Ao acompanhar tudo isso, médicos, cientistas, dezenas de repórteres e cinegrafistas das principais emissoras de televisão, de jornais e rádios do mundo, que fizeram Santarém esquecer-se neste quatros dias de sua pretensão de elevar-se a Estado, tornando-se base de noticias para todos os veículos de comunicação do planeta, como palco de um fenômeno único na história da humanidade que, por certo, dará elementos a Ciência, já de posse de matérias orgânicos colhido do morto para exame de DNA e concluir o estudo das células e do desenvolvimento ósseo dos dinossauros.
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Nos salões elegantes, nos cabarés, nas esquinas e bancos de praça, não só de nossa cidade com de todo o país, o assunto dominante ainda é um só: Meia Gala.
Interrogam-se as pessoas e o mundo cientifico, como um pequenino ser de um metro e meio, com quarenta e cinco quilos, aproximadamente, poderia nos três dias que passou em estado de coma alcoólica, solitariamente estirado embaixo de uma mangueira, na praia de São Marcos, alcançar as proporções assombrosas que alcançou?
Teria também o seu espírito tomado à relativa proporção de seu corpo para chegar ao ponto de provocar a morte, quase que simultaneamente de 8 pais de santo, em sua desesperada tentativa de baixar em terreiro de Umbanda?
A essas interrogações, soma-se a da origem. Importantíssima para os estudiosos, que podem detectar em seus consangüíneos o GEN metamorfoseador que produziu em menos de 72 horas, mais de mil e duzentos quilos de matéria, dando ao Santo dos Santos a aparência e a estatura do lendário GULLIVER.
Sabe-se pelos jornais que, em seu saco de sarrapilha, recuperado ontem pela Polícia Federal, entre tantos pequenos e inúteis bregueços, foi encontrado um papel branco plastificado, contento em cima sua fotografia e logo abaixo os seguintes dizeres:
O PORTADOR DESTE, CONHECIDO COM “ MEIA GALA”, POR NÃO SABER DIZER O SEU NOME, SUA IDADE E NEM O LUGAR ONDE NASCEU, O DENOMINAMOS: AMADEU OSORIO SANTO DOS SANTOS. AMADEU E OSÓRIO, EM LEMBRANÇA A DOIS MENDIGOS DO PASSADO QUE, COMO ELE, BEBIAM. E SANTO DOS SANTOS, POR SER O MESMO TOTALMENTE DE PAZ. NÃO O TRATEM MAL, PORTANTO, SE UM DIA ELE HEREMITANTEMENTE POUSAR EM SUA CIDADE. GRATO MOACIR R. DAS FLORES – DELEGADO DE CAMPINA VERDE – MINAS GERAIS.
Não possui data. Este é, em resumo, a única referencia que dele se tem até agora, diante a incógnita de seu surgimento nesta cidade e da pouca substancia vazada no depoimento do comerciante Juraci, da cercania, que o viu em seu comércio uma única vez, onde foi presenteado por um de seus fregueses com uma garrafa de aguardente Pitú.
É bem possível que na próxima semana, já com sua fotografia estampada em jornais, revistas e nas principais redes de televisão, sejam identificados os seus parentes e sua verdadeira origem. Disto, não tenham duvidas, encarregar-se-ão os estudiosos que aqui não demorarão muito a voltar para resgatar do fundo do rio, o pelo menos todas as estrutura óssea do incomensurável de cujus, jogado ali precipitadamente, contrariando o apelo e as quermesses de cientistas, hoteleiros, de taxistas, de proprietários de agencias de viagens e, principalmente, de vendedores ambulantes na vila Arigó, aquartelados, repentinamente, vindos do Mercadão 2000.
Quando isso acontecer, que estejam alertas as autoridades, formando desde já uma comissão coordenadora para o caso, elaborando normas de procedimento a serem adotadas, principalmente com ralação a arrecadação, quando por sugestão do Sr. Zeca C. Pereira, os restos mortais virem a ser expostos provisoriamente como Patrimônio Histórico Universal, na área lateral esquerda da Biblioteca da Casa de Cultura. Que para isso, pelo amor de Deus, não se sirva a Municipalidade, da experiência dos tradicionais bilheteiros do esporte mocorongo.
Assim quem sabe … com os dólares arrecadados em função da incomum espécie, possa se criar toda a infraestrutura necessária ao Futuro Estado do Tapajós, sem que com isso as entidades espíritas, venham a sentir-se desamparadas em suas perdas, que poderão ser constantes, caso Meia Gala, ou melhor, Amadeu Osório Santo dos Santos, continue a não entender as rezas e as súplicas para que nunca mais tente baixar em terreiro nenhum novamente. Amem!
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* É advogado e escritor nascido em Alenquer e residente em Santarém.
Parabéns Panga. Quanto mais te leio mais alegria enche meu peito, por tuas espirituosas e iluminadas visões do quanto somos pequeninos diante da grandeza do MEIA GALA.
Esse é o Panga que me dá orgulho!!!!
O Panga é um verdadeiro mestre, um artista de renomada, destacadamente quando trabalha o sentimento, decorrente da sua apurada, quase ímpar, formação humanística.