“Não lemos” e grifamos textos

Publicado em por em Artigos

por Josué Vieira (*)

Não lemos e grifamos textos, de josué vieiraRecentemente voltei a ler “Sein und Zeit” (Ser e Tempo), 1927, de Martin Heidegger (1889-1976).

Todo texto filosófico é um eterno chamado para nossos olhos, há algo solto que até o fim de nossa existência esses textos conduzem a uma forma de ver a situação.

Leia também do autor: Instância ficcional do morrer.

“Sein und Zeit” é um desses textos, a primeira vez que o li foi com 16 anos, não entendi muita coisa, acreditava que no texto havia alguém preocupado com sua condição de ser no mundo.

Aos 23, o texto retorna a minha mesa já como um desafio de leitura, o individuo preocupado com sua condição no mundo apresentava-me as razões para ser neste mundo, uma delas guardei até os dias atuais, o homem é um eterno elemento ativo no mundo das coisas.

E hoje o texto retorna com a mesma capa rota de segunda mão, as lombadas manchadas em um tom cinza amarelado, grifos em todo texto, muitos deles foi eu que fiz, outros já nasceram para mim como recomendação ou desafio à curiosidade da vez adquirida porque já estavam no texto, alguém assim fez.

Todo livro grifado é um texto imóvel, sem vida, quase no leito de morte, dizia um curioso leitor de orelhas de livro que pelo fascínio nos formatos dos livros montou em Natal (RN) um dos sebos mais frequentados pelos adoradores de conversa fiada (ninguém mente, só comenta), cerveja (gelada), tira-gosto (quente) e de livro à 1,99.

Leia também do autor: Lobby.

Assim como o fascínio pelos livros levou um analfabeto montar um sebo de 1,99 e educar sua família inteira só de puxar conversa fiada com os frequentadores do seu sebo, comprovando que o gosto pela leitura se cultiva, cozinha e bebe. Aqui estou para o meu “Sein und Zeit”.

Enquanto nosso empresário está para o dilema de como vai aumentar a cozinha e manter o espaço dos livros 1,99, eu estou aqui conversando com Heidegger sobre um certo tratado hermenêutico que o individuo de sua publicação possui.

“Sein und Zeit” cria a duvida em torno da legitimidade da interpretação do autor, já aí duas razões são questionadas, a do psicologismo e a do historicismo que centrava-se no objetivismo.

Heidegger acreditava que os eventos históricos não são produzidos exclusivamente na via contemporânea, porque interpretar e compreender não são uma ordem intelectual, mas pontos de fusão com o cerne da existência, o Dasein, um ser no ser; espaço em que a prerrogativa do ser se manifesta. E a compreensão do ser é o que diferencia o homem como Dasein, aquele que existe para compreender o ser e interpretar a si mesmo e ao mundo.

Ser não é si mesmo, mas muito do si mesmo no mundo diz o que é o ser, um dizer que pela Linguagem se manifesta na situação, carrega suas origens e suas aspirações, encadeia esforços para construção de um território próprio no mundo, sendo dele e ao mesmo tempo não-dele porque os tributos existenciais exigirão pontos obrigatórios e facultativos neste roteiro.

Leia também do autor: 17 de junho.

Ricoeur (1913-2005), em “Interpretações e ideologias” (1990), interpreta Heidegger como um questionador da hermenêutica como epistemológica, pois sua teoria do conhecimento é “transformada por uma interrogação que a precede e que versa sobre o modo como um ser encontra o ser, antes mesmo de se opô-lo como um objeto que faça face a um sujeito” (p. 30).

Dasein é “hermenêutica no sentido originário da palavra em que se designa o oficio de interpretar” (HEIDEGGER, 1927[2002], p. 68), assim uma hermenêutica fenomenológica.

“Na compreensão, a pre-sença projeta seu ser para possibilidades. Esse ser para possibilidades, constitutivo da compreensão, é um poder-ser que repercute sobre a pré-sença as possibilidade enquanto aberturas” (HEIDEGGER, 1927[2002], p. 204).

Como movimentos circular, o movimento hermenêutico é temporal, histórico e discursivo. Quanto ao discursivo é definido por Heidegger como articulação do compreender como o “fundamento ontológico-existencial da linguagem”, portanto uma interpretação.

A compreensão nasce no discurso, mas não é atida na afinidade predicativa; o discurso envolve a compreensão e libera a interpretação, da qual se desarticula a práxis e origina o sentido, “instância ôntico-empírica”, como referencia Benedito Nunes (1929-2011) em “Passagem para o poético – filosofia e poesia em Heidegger” (1992).

“(…) a primeira determinação do dizer não é o falar, mas o par escutar-calar-se” (RICOEUR, 1990, p. 35). Apesar do falar ser característico do ato e da situação, mas o receber, o escutar, elemento peculiar do discurso. É no ato de ouvir que o falar se conecta pela palavra ao mundo e ao outro. Assim o des-velamento (alétheia) do ente se efetiva no Dasein, constituindo-se num espaço do des-velamento, onde a verdade se manifesta.

Em “Wahrheit und Methode” (Verdade e Método), 1960, de Hans-Georg Gadamer (1900-2004) na qual o ponto de partida para o fenômeno da compreensão parte da experiência da arte, “o sentido das minhas investigações não é, em todo caso, o de dar uma teoria geral da interpretação e uma doutrina diferencial de seus métodos (…), mas procurar o comum de todas as maneiras de compreender e mostrar que a compreensão jamais é um comportamento subjetivo frente a um ‘objeto’ dado, mas frente à história efeitual” (p. 18-19).

A hermenêutica se entranha na experiência direta do cotidiano, a compreensão opõe-se as tentativas de ser representada como um método, sendo a aplicação apenas um modo de explicar como a compreensão acontece, daí o pensamento volta sem grilhões, sem uma Disney à fatiar Star Wars ao infinito lucrativo, para além de uma autoconsciência metódica, logo uma união, um conjunto de nossas experiências de mundo. “Fusão de horizontes” (GADAMER, 2002, p. 452), o compreender depende da pré-compreensão, anterior ao individuo, co-presente no seu tempo.

Segundo Gadamer, possuir horizontes é cultivar a capacidade de enxergar além da situação próxima e, ao mesmo tempo, formular outra situação afim de obter um horizonte de indagação frente à tradição.

Ao mesmo tempo que participamos de um dialogo, lemos um livro, escutamos, nós interagimos em uma plataforma de constante recombinações de pré-concepções e pré-suposições, “o horizonte do presente não se forma pois à margem do passado. Nem mesmo existe um horizonte do presente por si mesmo, assim como não existem horizontes históricos a serem ganhos (…) compreender é sempre o processo de fusão desses horizontes presumivelmente dados por si mesmo” (GADAMER, 2002, p. 457)

Pensando na “fusão de horizontes”, Heidegger e Gadamer, retorno à antiga questão do “não lemos”, e se lemos não compreendemos linearmente as prerrogativas implícitas no texto.

No máximo compreendemos a coisa ao lado da coisa, texto ao lado da imagem, tornamos o discurso ao lado da imagem outra imagem, que no processo compreensivo, o visual engole a escrita, torna o discurso peça mínima na compreensão do processo de si mesmo no mundo. Ao fim de tudo, tornamo-nos especialistas em atribuir sentido às imagens dentro de outras imagens, corroborando desse modo a política do “não lemos”.

Essa constatação sobre o processo de leitura não é novo, quando iniciava as minhas primeiras incursões no universo da leitura de textos de arte literária, pela Série Vagalume da Editora Ática, está constatação já preocupava os adultos de outrora e cercava a mim e meu compadrio em um futuro pouco promissor se assim fossemos continuar como leitores.

E pelo que minhas experiências colaterais na docência e até mesmo em círculos de leitores, essa velha certeza dos meus adultos cai no meu colo, já não pede mais socorro, parece que o niilismo curou essa esperança fabricada no ultimo segundo da meia noite, apenas cai e olha, ficou adulto demais e rápido.

Niilismo construído em um longo processo de desconstrução do modelo clássico de leitura. Não há mais condições físicas e muito menos práticas para podermos evocar a “aura do local” das antigas praças, dos boulevard ou dos cafés como espaços privilegiados para a leitura. Essa dívida pública acaba sendo debitada na conta dos mais jovens, tornando a aura e os ganhos juvenis NIHIL; uma grande Esfinge acaba caindo no colo de um sonhador qual Ícaro, na busca de construir o novo acaba se tornando um mimado Kylo Ren.

Retorno ao meu roto “Sein und Zeit”, especificamente aos grifos já paridos ali por uma inteligência-mãe que primeiro o teve e fez os grifos debruçado numa escrivaninha, em uma cadeira de balanço, na cama, na parada de ônibus, na cadeira de sala de aula, enfim imagino as possibilidade infinitas de tornar outros espaços atípicos numa maternidade de observações para alheios, como eu, observando num processo de escutação, estalos existências qual mapa dando em um tesouro, o tesouro de alguém. Não me esforcei muito em saber quem assina no canto inferior direito “für Henri”.

Essa é a magia, um estranho conhecido, se ainda não conseguimos transpor a imagem de que “não lemos” e o niilismo debita seus creditos nas contas dos mais jovens, se não conseguimos reerguer a “aura do local”, é porque graças a semente do universal local nasceu e floresce em nós, dizendos ao nosso modo a que ponto as informações neste mundo são horizontes conectáveis, “a compreensão somente alcança sua verdadeira possibilidade, quando as opiniões previas, com as quais ela inicia, não são arbitrarias (…) Por isso, uma consciência formada hermeneuticamente tem que se mostrar receptiva, desde o principio, para alteridade do texto” (GADAMER, 2002, p. 405).

Para nós, leitores amazônicos, leitores em formação, os grifos nos livros, sejam os livros da biblioteca, da estante do pai ou da mãe, daquele conhecido, por vezes podem matar o texto, como grifar Os Lusíadas ou Dom Quixote, por exemplo, é mesmo que suborno em centavos se valer a necessidade que vai ditar a regra da relação. Mas na nossa formação de leitores novos os grifos são razões e não caminhos; possuem existências e não são facilidades.

O sentido do grifo pode ser até infantil como assinar no cimento fresco da calçada, o que vale é a história sendo transformada em deboche, revelia, ponto facultativo para o pensamento, xingamentos, porque a razão de ser no ser, do Dasein se desdobra pela Linguagem. E a história continua, “não lemos” e grifamos textos.

– – – – – – – – – – – – – – – –

* É santareno, poeta e escritor, além de professor.


Publicado por:
Santareno, é poeta e escritor, além de professor universitário. Escreve regularmente neste blog.

10 Responses to “Não lemos” e grifamos textos

      1. O texto da Folha é claro e não tem recursos como o uso de palavras praticamente em desuso para mostrar superioridade intelectual.

        Esse menino tem de ler mais literatura. Escrever com o dicionário do lado e não dizer nada não me impressiona.

        Waltinho da Van, Filosofia.

        1. Uma coisa é você querer um texto exclusivo para leres. Outro é comentar qual fazer pão francês, so fazer casca. E outra é contribuir para o debate.
          O meu proposito é contribuir para o debate. Mas, acredito que o problema já não é o texto, mas o seu autor. Se assim for coloque argumentos que contradizem minha impressão.
          Mas se não for esse o proposito e sim de fazer uma crítica pão francês, então para mim basta suas palavras, que como pão so existem surbordinado ao que se compreende por “café da manhã”. Retirando o “café da manhã” volta a ser pão, singelo e fugaz.
          Ha varias formas de contribuir para o debate, duas são as mais usuais, calar ou expor. A primeira nao interessa para este meio de comunicação, por isso nem entro no merito. A segunda é mais interessante, ela pede do sujeito a capacidade intelectual do leitor.
          Mesmo o leitor mais rabugento ele precisa passar pelo rito concordativo das premissas expostas num texto, pois os argumentos apresentados serão contraditos ou confirmados.. Como se fará é a incógnita.
          Como sugestão leitor Walter exponha as razões pela qual o texto é uma manifestação de “superioridade intelectual”, algo longe das minhas possibilidades, mas se enxergas gostaria de ler suas conclusões., assim o debate nasce e não fica apenas em suposições e julgamentos pessoais, que no mérito da questão não estão postos.
          Walter gostaria de lê uma exposição. A critica nasce assim
          Abs

          Josue Vieira

          1. Vieira, eu lamento sua presunção. Seu texto não merece comentário. É vazio de sentido e pobre de originalidade. E agora, irritado, começa a se atrapalhar com a língua portuguesa. Você comete o grave erro de querer “lê” quando deveria querer “ler”. Isso me abate. Me desanima ver que se precipita, que não tem fôlego para superar os anos de seminário e a leitura de sínteses de internet. Mas você é jovem. Vieira, eu vou aguardar um próximo texto. Vou esperar que se liberte do personagem que inventaste.

            Leia mais literatura, pense em estilo, em clareza, em objetividade. Pare de pensar que você sabe tudo e que os outros é que são burros. Isso irá fazer com que um dia, quando amadureceres, talvez floresça em si um pensador capaz de influenciar alguém.

            Waltinho, aquele, da Van, Filosofia

    1. Acredito que a “pouca idade” de quem escreve parece confundir as razões de quem lê. Isso só se torna “problema” quando a semente do reacionarismo floresce mais do que as outras sementes menos egocêntricas.
      Pois bem Jô – parece até homônimo rsrsrsrs, mas tudo bem. Vejamos algumas razões que me fazem acreditar que escrevo algo capaz de “comunicar”, não almejo muito o “dizer”, mesmo porque está performance eu deixo para os que sabem julgar, e saber julgar neste contemporaneidade se tornou tão fácil como exercer as funções humanas mais básicas como se alimentar. O julgar se tornou um local comum para o conforto, porque se tornou um local sem negociação, e por se tornar um local sem negociação tornou-se um território sem a criatividade, sem sensibilidade de enxergar o after.
      Concordo contigo quando trazes para o debate o termo “copia”, porque alegra-me ver que seu sentido não vem isolado, num sentido plástico do dicionário, vem com o complemento “coisas de quem leu”. A isso muito obrigado pelo seu reconhecimento, porque maturaste em poucas palavras a ideia centro do meu texto: compreensão – interpretação – hermenêutica.
      Jo – parece que estou falando para mim mesmo – todo texto quando escrito é um tributo, um exercício estimulado pelo esclarecimento (Aufklärung), porque o processo de esclarecimento passa inicialmente pelo “reconhecimento de campo”. Sondar este campo não quer dizer procurar olhos e ouvidos convidativos à própria certeza, apesar da performance do escritor denotar isso, quase considerado uma “entidade”, ledo engano.
      Vai bem mais além, porque o oficio do escritor é um duplo de tributo para com suas leituras e uma legitimidade por conta de sua expertise. Tributo e legitimidade alongam a carreira do escritor, dependendo do caminho ao qual ele tomou pode ser contemporâneo, de vanguarda ou “uma voz do passado”, como que alter ego.
      Mas não é minha pretensão ensinar-te, acredito que os anos escolásticos e o convivio fraternal em sua familia deram conta e produziram um sujeito capaz de reconhecer o “bem” e o “ma(u)l”. E por não ser minha intenção ensina-lo, você faz o que bem quiser com este texto… é seu. Porque o escritor só é algo na sociedade porque ele depende exclusivamente da noção sensitiva do leitor.
      E como noção sensitiva do leitor eu retorno ao meu texto.
      Heidegger e Gadamer não são literaturas fáceis, não são “Sabrina” ou “Cinquenta Tons de Cinza”, não são arte literária, apesar do objeto estudado por ambos ser a Arte, os autores não circunscrevem sua linguagem em torno do óbvio, em torno do visível, daquele material realístico do cotidiano. Um texto de Heidegger leva uma vida para entender, quem nos ensinou isso foi Benedito Nunes, em mais de 50 anos debruçado nos textos de Heidegger, Nunes sentiu vontade de escrever mais e mais antes de seu falecimento. Assim como Gadamer, um escritor que já nasceu velho, com 60 anos publica sua primeira obra, debatida no artigo em questão, estudada hoje dentro da academia, Jauss e Iser falam por mim.
      Jo a questão não é exprimir o máximo da capacidade intelectiva com a finalidade de confirmar sua posição social ou sua importância denotativa, a questão é saber o que entendes, o que privilegia como problema hermenêutico. Por isso foi bom saber que meu texto despertou a certeza de que ele pode evocar outros textos que nele não foram citados, que ele possui essa capacidade de trazer para o dialogo outros textos capazes de construir um “campo”, de erguer uma posição social, de ser contemporâneo a questões cotidianas.
      Por isso “Jeso por favor!” continue publicando…
      Abraço, leitor Jo, o vejo na próxima critica.

      Josué Vieira
      03/01/2016

  • Alguém entendeu alguma coisa? Tem como traduzir? Aquele Moda filósofo era mais difícil ou mais fácil que esse aí?

    Waltinho

    1. A questão do entendimento é subjetiva, ao entender despertamos o mundo ao qual foi apreendido pelas experiências colaterais da existência. Já traduzir é uma performance alheia a entender, pode ser confundida com o entendimento, mas nem todo ato de traduzir requer corriqueiras pinceladas das certezas alheias, das verdades pares para dizer que o entender é univoco, único. Quem pensa assim é déspota. O traduzir é conflitivo, é amorfo, infeliz aquele que traduz poesia, pois encerra a emoção, a capacidade sensitiva do poeta numa linguagem plastica na experiencia do ler e de organizar sentidos próximos ao que leu.
      Não sei de quem se trata o “Moda filosofo”, quem sabem alguém próximo com quem pudeste conviver e assim tenta estampar uma comparação preconceituosa com a minha performance de escritor. Evocações personalisticas é o mais alto grau de personificação linguística do pre-conceito patrimonialista que nos foi deixado como herança, próximo até da ideia de “índio”, de “camelô”, de “lavadeira”.
      Walter o mundo é indecifrável, mas até que um texto de Heidegger e Gadamer, nem por isso reclama de nós como poluidores, procriadores, destruidores e assim a aliteração não mente sobre o que fazemos com o mundo. E ainda sim o mundo continua confiando em nós e sendo indecifrável.
      Agradeço pela leitura ou tentativa do meu texto em questão.
      Não suma, por favor
      Deixe sempre um comentário.
      Assim o blog do Jeso se torna maior.

      Josué Vieira
      03/01/2016

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *