O jerimum nosso de cada dia, de Carlos Chocrón, jerimun

por Carlos Chocrón (*)

Um doutor do bem recém-chegado a uma pequena cidade no interior do Acre nos áureos tempos da borracha deparou-se com uma situação que lhe pareceu inusitada. Toda semana comparecia para consulta médica um membro da família do Sr. João Grande, e o diagnóstico era sempre o mesmo: amarelão, lombrigas a fole e uma indisposição que podia muito facilmente ser confundida com preguiça.

Morando sozinho e não sendo muito chegado a marvada da cachaça, ele e uma de suas primas mais pávulas resolveu num final de semana ir conhecer a pousada do Seu João.

Para sua surpresa inicial, o homem só tinha de grande o nome: era miudinho, meio pálido, parecendo à primeira vista ter colecionado muitas maleitas, apesar de cheio de delicadezas pela honra da visita, como era próprio do povo humilde da região.

Ficou claro pela simplicidade extrema do lugar que o homem não tinha feito fortuna sangrando seringueiras nativas. Apresentado à família, a coisa começou a clarear para o doutor.

A dona Gitinha aparentava uma idade avançada que certamente não tinha fruto de um organismo depauperado pela drenagem da vida para criar uns 12 meninos mamando no peito até mais tarde para terem melhores chances de vingar.

A molecada, alguns já conhecidos do doutor por ocasião das visitas ao posto médico, mostravam toda a aparência de uma infância difícil, mas com todo o encanto emanado pela presença de crianças que contagiam e palpitam de seus corações a alegria das coisas simples, como se a própria vida fosse, e de fato o é, um presente moldado por Deus.

Enobrecido pela situação, procurou fazer da sua presença um motivo de esperança e alegria para todos, se nada mais, pelo menos por ter se importado com eles e dedicado seu importante tempo de doutor para visitá-los.

Naquele momento, tomou a decisão de fazer mais alguma coisa pela família, mas viu logo que um dinheirinho só não resolvia o problema e na despedida pediu ao pai da família que aparecesse no posto para fazer uma consulta.

Durante a consulta, Seu João se queixou que comia e dormia pouco, vivendo sempre com muita consumição e que isso tudo tirava sua vontade de trabalhar e produzir. Que já tinha assuntado muito, mas que não achava uma maneira de melhorar a vida da sua família, já que os coronéis de barranco, os endinheirados do lugar, só se preocupavam com o lucro de seus seringais, pouco se importando com os lascados e deixando quase nenhuma oportunidade para os agregados da produção da borracha.

Pegou um envelope que tinha posto de propósito na gaveta e disse: tome emprestado, vá e compre todo o jerimum que encontrar na cidade e nos sítios vizinhos, vasculhe tudo e guarde em casa. Quando eu der o sinal, monte um quiosque e comece a vender, devagar pelo melhor preço que puder. Junte o arrecadado e continue comprando o que aparecer de jerimum.

O doutor sabedor que organismos endinheirados e sabidos demais vivem eternamente entupidos passou a receitar nas consultas particulares que fazia para os mais abastados, e que se queixavam comumente de prisão de ventre, a consumirem diariamente jerimum em suas refeições, e para os mais enraivados como pontapé inicial do tratamento falava bem baixinho que nada melhor que um velho e eficiente chá de bico.

Os cabras voltavam aborrecidos por não encontrarem para comprar um único jerimum que outrora dava no meio das canelas e que nunca teve grande valor. O doutor então deu o sinal, ensinou o caminho do jerimum, e o Seu João e sua família começaram a tirar a barriga da miséria e a viver dias melhores.

Se tivesse moral para contar, essa seria que o doutor com muito mérito soube reconhecer a doença da qual a família era vítima, tratá-la com dignidade humana que era o que eles mais careciam, e ao mesmo tempo aliviar os infortúnios corporais dos opulentos do lugar e dos males decorrentes que intoxicavam seus arrogantes organismos.

Não se resumiu a dar lição de moral sobre os males impostos pela pobreza, muito menos lhes criou quaisquer tipos de constrangimentos, mas arregaçou as mangas e nos deu a todos uma lição de vida.

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É funcionário público desde 1976.

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