por Jota Ninos (*)
O Sairé, enquanto evento da cultura popular e com tradição centenária, com certeza ganhou maior destaque por causa dos eventos paralelos, a partir da inclusão do Festival dos Botos em 1997.
Este sim, sem qualquer tradição, precisava de uma referência cultural para surgir e crescer e tornar-se um evento reconhecido internacionalmente e com grande apelo turístico, a exemplo do que ocorreu com a festa dos bois em Parintins/AM. Aliás, a organização e marketing dessa festa amazonense serve de espelho para tantas outras festas que ocorrem na região oeste do Pará, como a Festa das Tribos, em Juruti.
Há quem defenda que eventos culturais e/ou folclóricos tem que estar aliados ao binômio turismo/economia para sobreviver, e vice-versa. O Sairé, enquanto festejo (apesar de sua importância cultural), nunca foi visto como algo “reluzente” do ponto de vista do show “business”.
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Sempre foi e sempre será uma pequena manifestação religiosa, de cunho católico, mesclada com hábitos e costumes “profanos” de descendentes das tribos indígenas que habitavam o vilarejo de Alter do Chão, no período da colonização amazônica.
O encantos naturais do balneário de Alter do Chão, por si só já bastam para atrair o turista sedento de ‘vida selvagem amazônica”, mas este esplendor natural é reforçado anualmente pela existência do evento “folclórico”, que ganha contornos de megaevento com importância inclusive político-partidária, já que envolve verbas públicas municipais, estaduais e federais, principalmente quando ocorre próximo às eleições e tem amplificada essa importância.
O Festival do Botos precisava de um elo de marketing com a tradicional Festa do Sairé, que em meados dos anos 1990 sobrevivia às duras penas. A competição entre dois grupos folclóricos através de danças que se inspiram na sensualidade e no erotismo da lenda do boto amazônico – e que, em tese, são formados por moradores da vila balneária – aliada à polêmica do “Ç” no lugar do “S” eram os elementos certos para dar o “start” num megaevento.
Acompanhei bem de perto o nascedouro da proposta, à época de sua concepção.
Foram realizadas várias visitas ao Festival de Parintins, reuniões com promotores de eventos e de empresas interessadas em criar algo parecido aqui, tudo com anuência direta de setores do governo municipal, na gestão de Lira Maia (1997/2004).
Como a disputa entre os “botos” (o Tucuxi e o Vermelho, que passou a ser denominado cor-de-rosa por influência do oceanógrafo francês Jacques Cousteau) precisava de um “tempo de maturação” para chegar aos pés da disputa dos bois de Parintins, era impossível não pensar em megashows de música com artistas de renome nacional para atrair a população consumidora de bebidas e alimentos, principalmente a massa juvenil que não iria (e não vai) à Alter, para participar da ladainha do Sairé e tampouco do Festival dos Botos.
Tudo parecia sair como programado. A festa crescia a cada ano, mas a mudança de governo em 2005, acabou mudando um pouco a rota inicial do que estava previsto. A essência foi mantida, mas o modus operandi da gestão de Maria do Carmo (2005/2012), teve altos e baixos que acabaram desfigurando o projeto inicial.
Pra começar, saiu o “Ç” e voltou o “S”. A questão linguística passou a ser mote para disputa eleitoral entre PT e PSDB (e até hoje é assim).
A relação com a comunidade tentou dar maior responsabilidade aos comunitários, fazendo-os contratar uma empresa para terceirizar o evento. E todo mundo se lembra o que aconteceu. Até hoje as agremiações folclóricas pagam caro pelos calotes que uma empresa nordestina aplicou por aqui. A prefeitura retomou o controle, mas não conseguiu dar um eixo à festa. Aos poucos o que havia sido “construído” antes, parecia se perder.
O retorno do grupo político que criou o Festival dos Botos aliado ao Sairé, ao governo municipal, passa agora por um processo de reciclagem, tentando retomar a proposta de onde parou. Primeiro voltou o “Ç” marketeiro e polêmico. Depois o trabalho de infraestrutura para viabilizar o palco do espetáculo. A comunidade voltou a ser chamada e como tem muitos Wanghons na ilha, foi mais fácil reintroduzir o debate inicial.
O prefeito Alexandre Wanghon, que sempre foi entusiasta da festa, enquanto vice de Maia, precisava fazer uma festa pra “arrebentar”, como se diz no meio. O deputado federal Lira Maia providenciou-lhe uma ONG de jovens do Planalto (instalada no Cipoal, quase em frente à sua casa), que fez o “agenciamento” das verbas públicas, já que as associações folclóricas dos botos estão com certidão negativa para firmar convênios.
E para realizar o agenciamento do espetáculo nacional, evitando o surgimento de investimentos públicos na contratação de cantores, buscou-se uma empresa com renome local na realização desse tipo de evento, que topou encarar o desafio.
A MaGma Eventos, do ex-cinegrafista da TV Tapajós e competente promoter Amarildo Sena, tinha em suas mãos uma oportunidade única de brilhar, mas também o risco de se queimar se algo desse errado. Esse tipo de ônus pode ser compensado financeiramente, pois a empresa evita que o estrago seja debitado na conta e na imagem do prefeito…
Vale lembrar que a intenção de Von em fazer um megaevento pra ninguém esquecer era tão grande, que deixaram de fora até mesmo as empresas de som locais que há anos montavam suas estruturas para esse tipo de show, trazendo tudo do Estado do Amazonas,a preços nada convidativos. Paulinho Andrade, empresário local, é um pote até aqui de mágoas…
Com certeza, sem apoio financeiro público, a MaGma Eventos ou qualquer outra empresa de promoções locais, não teria capacidade para bancar os custos da vinda de uma Ivete Sangalo, Mega Star da MPB. É inegável que o show foi muito bom (pelo que ouvi falar), mas pelo menos uma parte dele acabou criando toda a celeuma que agora bota o Sairé (Çairé), novamente na berlinda: a venda alucinada de ingressos, poucas horas antes do show, para a área VIP do “Çairódromo”.
A desordem no show foi tão grande que ganhou espaço nas redes sociais, blogs e sites, inclusive de jornalistas com maior proximidade ao governo Von. E pra arrematar, uma excelente reportagem (uma das melhores que vi até hoje, parabéns, Suelen Reis), da TV Tapajós que deixou bem claro que nada está claro nos bastidores desta festa.
E provavelmente nenhum uma explicação será dada. A não ser que alguém consiga através de meios judiciais (já há pessoas correndo atrás disso). Não interessa ao governo esclarecer isso. A velha estratégia de marketing tucano, agora, é se fingir de morto.
Mas deixando de lado o imbróglio do “Cairé 2013″ e voltando à discussão sobre megaevento-artístico-cultural-com-potencial-turístico-e-econômico versus cultura e tradição folclórica, o “Çairé dos Botos” continuará sua caminhada em busca de uma identidade própria. Mas ainda tem muito chão pela frente, pois o “evento folclórico” – que deveria ter, em tese, maior participação dos moradores da vila – ainda está longe disso.
Certamente há muitos abnegados, mas por ser uma “cultura imposta” será mais fácil continuar tutelando o evento com toda a estrutura e todo financiamento público possível. O financiamento privado ainda não se encantou totalmente pelo evento.
Para ilustrar o que digo, conto o que ouvi de gente que esteve na festa: na hora de empurrar os carros alegóricos (que continuam toscos, do ponto de vista de sua estrutura, levando-se em consideração os investimentos feitos) dos botos para a pista de danças, integrantes das agremiações chegaram a se negar a fazer esse “esforço”.
Foi preciso chamar um batalhão de seguranças contratados para a festa principal e outros funcionários da Prefeitura, para ajudar… Isso nunca acontece em Parintins!
Quando – e se um dia – o festival dos botos conseguir essa independência (talvez dentro de 15 ou 20 anos…) e se tornar um megaevento como os bois de Parintins, Ivete Sangalo (já praticamente aposentada) poderá assistir à festa de camarote, como convidada. Mas, sinceramente, não acredito que se consiga separar um evento do outro. É o que se chama na Ciência de Mutualismo: quando “dois seres de espécies diferentes estão intimamente associados, vivendo um no corpo do outro e realizando trocas de alimentos e de produtos do metabolismo que beneficiam ambos”.
E a ladainha do Sairé, será apenas um pequeno apêndice para dar o charme que a burguesia busca na vila de Alter do Chão…
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* É jornalista e escreve regularmente neste blog.
Eu gostaria de saber quando a SEMINFRA irá fazer um ordenamento quanto a utilização da rua em frente à Praça que serve de “sala de estar” para aqueles “gringos” que tem suas vendas de comida, assim digo porque um Restaurante se presume que tenha espaço para abrigar seus clientes, se assim for então que seja para todos. Exemplo: querem tirar algumas daquelas barracas pois estão na rua? E agora??? à noite eles instalam as cadeiras até o meio da rua disputando espaço com os veículis e pedestres, sem falar noutras “cositas” que rolam……Acho que é chegada a hora de se instalar uma ordem…Parafraseando Bãorão de Itararé…”ou se instala a moral ou nos locupletemos todos”
Quero me ater ao termo identidade própria, o qual o jornalista destaca como o caminho a ser trilhado pelo festival do Sairé.
A verdade é que o Sairé ou Çairé, como a nata tucana prefere chamar, não terá uma identidade se não se desprender da cópia que tentou criar dos bois de Parintins. E talvez os organizadores do festival de Alter precisem repensar o modo como encaminham a programação. Precisam entender o que é cultura e o que chama a atenção do povo. Certamente não é trazendo artistas nacionais que darão visibilidade ao festival, pois isso, quem mora no nordeste-sudeste-sul podem ver e têm o ano todo. Talvez seja atração para os daqui, onde as atrações nacionais só passam raramente, mas em outras regiões há shows semanais de todos os tipos e para todos os gostos.
Não será trazendo artista nacionais como Ivete Sangalo que o Sairé/Çairé ganhará destaque. Aliás, o que tem a ver Ivete Sangalo com a cultura dos botos? NADA.
A própria disputa dos botos ficou a segundo plano. Enquanto em Parintins são eles , Garantido e Caprichoso, que fazem a festa. As atrações nacionais são realizadas em locais fora do evento, o que não compromete a realização do Festival de Parintins.
Em Santarém, o que se percebe é totalmente diferente. No afã de agradar a gregos e a troianos, o governo torra dinheiro público com algo que não trará visibilidade para cultura. Não dará e nunca deu em local onde tentou se misturar o nacional, deslocado de um local. Homi Bhaba já dizia que quando elementos que descaracterizam outro são colocados em destaque, a tendência é que o menos visível desapareça. Guy Debord, em seu Sociedade do Espetáculo, aborda de forma brilhante a espetacularização da cultura, que tenta atrair elementos de poder para onde um menos visível se estabelece e tenta se manter, mas acaba cedendo espaço para aquele que parece ser mais forte.
No Sairé/Çairé – sinceramente falando – a força fonética não ajuda em nada, porque não adianta tentar manter um nome de origem quando o evento em si já se descaracterizou totalmente, já não preserva traço algum do original. É só fazer uma pesquisa para perceber o antes e o agora: antes dos botos e depois dos botos e o agora, com apresentação de artistas nacionais. Resta o que para o Çairé com ç? Absolutamente nada.
O governo municipal precisa rever seus modos de conduzir a cultura local. Não é torrando dinheiro público – a isso os órgão de fiscalização fecham os olhos – que se fortalecerá o turismo. O nome Alter do Chão já é um elemento de força para atrair turistas. É nisso que o poder municipal deve investir. Investir na educação turística, investir na capacitação da população de Alter, para que saiba receber turistas e tratá-los como devem ser tratados, investir na infraestrutura, no loca onde se realiza o festival, sem improvisos, como até hoje se faz.
Se o Festival caminhar do jeito que está caminhando, certamente o que restará serão apenas apresentações de artistas para agradar àqueles que sentem carência de atração nacional, também servirá como trampolim político, nada mais que isso.
Copiando um Festival que se cristalizou como tal, sem precisar levar para o espaço onde acontece a disputa dos bois, os organizadores do Sairé/Çairé tornar-se-ão sacoleiros em busca de bugigangas nacionais para agradar aos caboclos locais. Enquanto isso o Sairé/Çairé morrerá vítima da ganância política e da falta de visão cultural dos que se atrevem a fazer cultura regada a elementos voláteis.
O festival em si é uma desorganização que precisará de ordem se quiser ter visibilidade.
Concordo plenamente com você, Joaquim Onésimo.
Estou de comum acordo com o Jota Ninos. substanciou muito bem que não é mais possível haver qualquer separação entre o Sairé e os botos, e a apresentação musical/dançante. Vivem essa associação como comensal, em mutualismo ou simbiose, um vive em função do outro, mas não tem ação parasitária (Parasitologia), exemplo a ser dado, é o da E. coli. Parabéns, fez as considerações adequadas e lógicas. Luiz Fernandes de Oliveira é formado pela Universidade Federal do Pará, diplomado em 1973- Farmacêutico Bioquímico, com experiência de 32 anos em Bioquímica – Lab. de Análises Clínicas- Analísta Clínico.
Pequenos erros de revisão, no texto que enviei:
Onde se lê: “E provavelmente nenhum uma explicação será dada”
Leia-se: “E provavelmente nenhuma explicação será dada”
Onde se lê: “Mas deixando de lado o imbróglio do “Cairé 2013″”
Leia-se: “Mas deixando de lado o imbróglio do “Çairé 2013″”
Onde se lê “Mas ainda tem muito chão pela frente, pois o “evento folclórico” – que deveria ter, em tese, maior participação dos moradores da vila – ainda está longe disso.”
Leia-se “Mas ainda tem muito chão pela frente pois, o “evento folclórico” que deveria ter – em tese – maior participação dos moradores da vila ainda está longe disso.”