O suicídio do Piteira

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por Célio Simões (*)

Ninguém pensava que ele seria capaz daquele gesto extremo. Até mesmo por causa da índole dócil e pelo conceito de boa praça que tinha na cidade.

De manhã, ainda bem cedo, era comum vê-lo passar no rumo do porto com seu passinho miúdo, cara risonha, cumprimentando quem estivesse à porta ou nas janelas das residências, fossem senhores, senhoras ou empregadas domésticas.

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A todos tratava com urbanidade, até retribuindo eventuais gracejos de uma ou outra brincadeira, sem ultrapassar os limites impostos pelo respeito e pela cordialidade. Nem mesmo quando o Paraense, seu time predileto, naquele tempo freguês de caderno do Mariano, perdia um jogo, fosse amistoso ou de campeonato, saía do sério enveredando pelos desaforos contra os eternos gozadores.

Quem o fazia perder a compostura era a “maldita”. Em sua filosofia de beira de rio, achava que o uso justificava o abuso e no mais das vezes, “comia com farinha”. Eu mesmo, garoto ainda, cansei de vê-lo passar em frente a nossa casa “cercando frango”, tentando equilibrar o físico minguado na estreitura das calçadas, tamanho era o consumo da tinhosa nas muitas tabernas das ruas próximas ao mercado, em pleno período útil do dia, hora em que deveria estar trabalhando, isto sim, para sustentar a família.

Aquela situação foi ficando intolerável.

A mulher, coitada, que ganhava alguma grana lavando roupa, vivia reclamando e ameaçando abandoná-lo porque marido viciado em cachaça, que, além disso, não traz nem dinheiro nem comida pra casa, é um inútil.

Nem na piracema de jaraqui, ali por volta do mês de junho, quando até moleque pegava o delicioso peixe com prosaicas tarrafas remendadas, o inveterado bebum se dava ao trabalho de tentar um lance, tão exangue se encontrava de forças; limitava-se a olhar a farra dos pescadores do interior do boteco do Dequinho, mordendo de leve “a água que passarinho não bebe”.

O Piteira era mesmo uma vítima em dobro; da pinga, da qual se tornara dependente e das constantes brigas com a mulher, ao fim das quais era sempre instado a fazer o favor de ir embora de casa de uma vez por todas.

Não havia mesmo perspectiva de felicidade para aquele coitado. Seu alimento era a “cana”, seu time não ganhava, seus amigos o evitavam, não tinha um vintém no bolso e a cara-metade não largava do pé, proferindo torrente de impropérios a cada retorno seu para a modestíssima casa, chantada na periferia da cidade. Quando não vinham as diatribes com a parceira, esta se fazia de vítima com o escopo de sensibilizá-lo, tendo como retorno tão somente o áspero desprezo com que a tratava:

– Deixa de frescura, não aporrinha e não enche o meu saco!

Um dia, após mais um violento enduro doméstico, ganhou a rua e foi bebendo fiado de baiúca em baiúca até chegar ao bar do Chico Aquino, no subsolo do mercado, onde continuou enchendo a cara.

Para quem quis ouvir alardeou que quando voltasse iria despachar em definitivo aquela desgraçada de mulher, pois não suportava mais ouvir seus desaforos; e se ela cantasse de galo, entraria na peia à base de galho de cuieira assado, pois assim é que se trata gente metida a besta… Bebeu mais ainda para criar coragem, pois até que no fundo ainda gostava da “dona encrenca”, com quem já convivia pelos laços do matrimônio, há mais de vinte anos. Mas a situação tinha que ter um paradeiro. E seria hoje. Aliás, agora ou nunca.

Voltou para casa já com a tarde indo embora. Cambaleou pela Rua Dr. Machado até chegar à mercearia da sua comadre Maria Ramos, onde tomou a última dose de pinga e revelou sua drástica intenção de fazer valer sua condição de macho. Levou uma baita esculhambação da velha comadre e por isso foi embora piorado, consumido pela ansiedade, mas antegozando o momento de enxotar de casa a nefanda figura, que vida a fora lhe impusera infinitas humilhações.

Abriu a porta frágil do barraco com um pontapé e gritou todas as obscenidades que aprendera no cais do porto, para provocar a reação da esposa. Obteve o silêncio como resposta. Percorreu os poucos e desfigurados cômodos. Nada. Indagou dos vizinhos. O velho estivador “Estrela”, que morava confronte na estreita rua, deu-lhe a notícia inesperada. A mulher se fora de casa sem dizer pra onde; por óbvio, não queria mais saber dele, nem de suas bebedeiras, nem daquela meleca de vida; ele que fosse curtir sua cachaça no raio que o parta…

O mundo desabou na cabeça do Piteira. Onde estavam seus familiares, naquela altura da sua desenxabida existência? Quem haveria de querer um pintor de paredes sem dinheiro e no mais das vezes sem ocupação, com o agravante da bebedeira, da qual era por completo dependente? Onde estavam seus amigos estivadores das intermináveis rodadas de birita?

Descobriu que estava só e desprezado pela única pessoa que ainda poderia por ele zelar, agora ou na velhice que em curto prazo já se desenhava. Partiu para o gesto extremo de dar cabo da própria vida. Antes, deitou na rede encardida e dormiu, tarefa que foi facilitada pelo álcool, embora com uma enorme fome para saciar. Que fosse tudo para o inferno. Inclusive a mulher, aquela grande f.d.p…

Dia seguinte levantou cedo, o suicídio transformado em idéia fixa. O problema era consumá-lo. Não tinha arma de fogo e o suplício do enforcamento o apavorava. Os gozadores disseram-lhe, inclusive, que os portugueses preferem, ao se enforcar, amarrar a corda na cintura, porque no pescoço falta o fôlego… Optou pelo envenenamento, a seu ver menos sofrido nesse tipo de definitivo gesto.

Saiu de fininho e comprou (fiado) na mercearia do Pedro Nolasco, uma lata de X-30, conhecido composto químico contra ratos e baratas, cujo conteúdo era semelhante ao leite em pó, que misturado à água tornava-se altamente tóxico. Atou a rede puída, fez com a mão trêmula o sinal da cruz e bebeu um caneco inteiro da mistura que iria lhe trazer a infinita paz interior que a morte propicia. Daí a momentos, tudo rodou em sua volta, apareceram astros cintilantes num céu imaginário, sufocou, o coração rateou, perdeu os sentidos. Esse “já era”. Adeus Piteira!

Adeus nada! Acordou no dia seguinte na enfermaria da Santa Casa de Misericórdia, lugar que ele nunca tinha estado antes, todos os doentes olhando pra ele, como se tivessem observando um extraterrestre.

Os próprios vizinhos haviam estanhado o invulgar sossego em sua casa e mercê da velha mania de cidade pequena de xeretar a vida alheia, foram verificar o que tinha acontecido; ao ver o Piteira agonizante, a lata de X-30 caída sob a rede, levaram-no de carona na caminhonete da Prefeitura para o hospital, onde a enfermeira Zuraia, alma abençoada, aplicou-lhe competente lavagem estomacal e vários frascos de soro, assim salvando quem não soube escolher nem uma razoável forma de viver ou a melhor maneira de morrer.

Dia seguinte à alta hospitalar, com o desleixo e a pouca higiene que lhes eram ínsitos, perambulava o Piteira pelas ruas da cidade, curtindo sua desventura, torturado pela pirose causada pelo indigesto veneno, bigode ainda sujo de branco de X-30, carregando sua pesada cruz para suportar mais essa gozação dos amigos(?), assim padecendo anos a fio, até que seu ser finito sucumbiu de verdade ante a adaga letal da morte não procurada, já adentrando os oitenta anos e por algum milagre, de há muito livre da manguaça.

Ao lembrar esse singular episódio envolvendo um simples homem do povo, é forçoso concordar com quem afirma ter cada qual de nós nascido com sua trajetória terrena previamente traçada, com a ressalva de sempre ser possível alterá-la para melhor, desde que para esse desiderato contribua uma avassaladora força de vontade, atributo que por completo faltou ao personagem central desta crônica.

Casos da espécie me trazem à memória o que já disse certo escritor, no sentido de que a irracionalidade do procedimento de alguns dos nossos semelhantes nos faz concluir ser profundamente injusto que Deus, tendo imposto severos limites à inteligência dos homens, não lhes tenha igualmente limitado a estupidez.

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Advogado e escritor, nasceu em Óbidos. É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Reside em Belém e escreve regularmente neste blog.

4 Responses to O suicídio do Piteira

  • Me transportei para o ano de 1980, quando em Óbidos aportei e conheci uma linda menina por quem logo me apaixonei, e a fiz minha querida e amada esposa.
    Ao ler essa crônica de Célio Simões, narrando O suicídio do Piteira, voltei no tempo, pois conheci vários personagens citados neste episôdio, tais como: O próprio Piteira que fazia parte dos estivadores do Porto de Óbidos, onde eu era o gerente. Sempre que queria fazer uma fezinha na loteria, era para o Piteira que entregava os cartões e ele mandava na embarcação para o jogo ser feito em Santarém. Dona Zuraia, enfermeira muita conhecida na cidade. Essa leitura me fez bem e me deixou com saudade dos bons tempos vividos em Óbidos, nossa Cidade Présepio.

  • Caro Anderson, que bom ter notícias tuas. Recordo com saudade aqueles tempos do futebol de todo sábado com os amigos de Santarém (cidade adotiva), onde eu era o segundo reserva do time “B” do Darlos ou do Ataualpa. Sem chance de correr atrás da bola, limito-me hoje ao prosaico prazer de curtir a família, o trabalho, as viagens, a leitura, os bons filmes e sempre que posso, o de enviar para o Jeso minhas crônicas versando sobre o que mais me apaixona: os “causos” ocorridos na minha várzea de origem. Um forte abraço do ex-zagueiro.

  • Baixinho, desde a emporcalhada pesquisa doxa eleições 2012, publicada aqui no teu blog, me repreendo pra ler o que deixei de acreditar; mas, quando sonho que tem nova crônica do Célio Simões, esqueço as minhas desavenças com tão infeliz pesquisa e me deleito prazeroso nas linhas desse caboclo que conheci em 1985 na pelada dos santarenos em Belém. Tudo de bom. Pra mim, é o que está salvando teu blog. (rs). Grande abraço e sucesso na televisão.

    1. Tua cegueira tucana, Anderson, tá te deixando de usufruir muita coisa boa aqui publicada. Pior pra ti. rsrsrs

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