Santarém é o Brasil medieval na comunicação

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por Paulo Lima (*)

A concentração dos meios de comunicação de massa nas mãos de poucas famílias é uma doença de nossa democracia. Leis antiquadas e um marco regulatório completamente ultrapassado é uma das formas de manutenção dos mesmos quadros políticos eleitos há tantos anos.

Políticos vinculados à Ditadura Militar, acostumados às benesses do Estado e com facilidades de acessos às concessões públicas de rádio e TV. Santarém, lamentavelmente, é uma cidade símbolo da concentração de meios de comunicação de massa nas mãos de poucas famílias e de mesmos (ou similares) interesses políticos.

Não tenho nada contra as famílias ou os proprietários dos meios de comunicação. Na maior parte os conheço de vista ou de atividades profissionais em que sempre houve ambiente de respeito e cordialidade.

Tenho, sim, contra o modelo. Contra a forma. É esse modelo que exclui o “TV Blog do Jeso”, por exemplo, da televisão. Mesmo tendo recursos para comprar espaço, mesmo tendo firmado contrato, não lhe é dado o espaço.

E a segurança jurídica dos negócios em Santarém? E o ambiente moderno de negócios na cidade? Nada disso é importante. Qualquer opinião divergente das poucas famílias e políticos que detém as concessões do oligopólio dos meios de comunicação será excluída … ou cooptada.

Só para esclarecer: na maior parte das democracias existe conselho de programação e acompanhamento da qualidade no órgão regulador, e não é permitida a propriedade cruzada (ser dono de mais de um veículo de comunicação como ter TV, rádio e jornal impresso, por exemplo). Também é aferida a importância da educação e cultura na composição da programação, exigência para se obter uma concessão.

A comunicação é um direito, não pode ficar reduzida à grupos econômicos familiares ou à grupos de interesse político. E o que acontece? Em nossa Constituição, no artigo 54, está a afirmação de que deputados e senadores, a partir do momento em que tomam posse, não podem “firmar ou manter contrato” ou “aceitar ou exercer cargo, função ou emprego remunerado” em “empresa concessionária de serviço público.”

E o que são as TV e rádios? A Constituição vem sendo desrespeitada sumariamente e o acesso aos meios de comunicação de massa negados à qualquer opinião alternativa.

É a formação de uma democracia do pensamento único, da mesma opinião, de uma classe alta rica e de costas para o Brasil profundo, nordestino e amazônico, empurrando suas precárias noções de cultura colonizada e valores corrompidos à 98% da população.

O programa “TV Blog do Jeso” vai para as estatísticas, para os estudos, confirmando que o Brasil é medieval no tratamento do direito à comunicação.

Aproveito para sugerir a leitura dos sites: www.direitoacomunicacao.org.br e donosdamidia.com.br/inicial.

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* Historiador e professor universitário. Reside em Santarém.


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15 Responses to Santarém é o Brasil medieval na comunicação

  • Acredito que a comunicação é fundamental para a consolidação da democracia e vejo com preocupação essas atitudes monopolistas dos meios de comunicação em Santarém……

  • Paulo, as midias n Brasil não sobrevivem sem a cobertura do manto governamental, porque tu achas que o governo não deregulamente as midias de massa como fez com a distribuição de combustiveis, Porque os politicos são detentores da maioria das radios e tvs, quem tenta ser independente sofre as consequencias, veja o caso do lucio Flavio.e agora mais recente o Jeso, Penso que o Jeso está sendo bastante ético ao não jogar a merda no ventilador, mas o jogo politico muda, quem esta por cima hoje pode estar por baixo amanhã.

  • Se todo mundo com poder financeiro resolvesse fazer um programa de televisão comprando o espaço necessário, imagine a merda que não seria a programação? As vezes professor não é por aí a questão, o Jeso tem postura televisiva? tem imagem e audio de televisão? Pode ter o texto escrito, mas texto na televisão é pra ser ouvido e não lido. Que ele, o Jeso, se coloque em seu lugar, que é o jornal e o blog, esqueça televisão, já tentou uma série de vezes e nunca deu certo. Não foi censura, não foi ditadura midiática, foi retorno, não daria certo, não daria retorno para o canal em questão. Isso sem falar na credibilidade jornalística…Bem, deixa pra lá.

    1. A questão, Santareno, é outra. O espaço está restringido. O Jeso ou você deveriam ter o direito à comunicação assegurado. Daí discutiríamos qualidade, relevância da programação e outros temas. Uma vez mais, não é o mercado que deve decidir o que eu devo ver ou não. Se fosse assim eu deveria achar que os programas policiais do meio dia são os que eu mereço ver. E, definitivamente, não o são. E isso não é em Santarém, é uma tendência nacional.

      Paulo Lima

      1. Retorno financeiro que estou falando professor, não do que voce merece ou não assistir. Voce mereceu assistir o BBB? Claro que não, mas dava retorno financeiro pra Globo. A Televisão é um negócio como outro qualquer, tem que dá retorno financeiro, então vá pra TV Cultura, TV Educativa… Censura todo mundo faz, manda o jornal ou blog do Jeso Carneiro colocar um espaço pra Ciça Loyola escrever sobre a administração municipal e vamos ver se ele deixa…rs…É por isso que ele queria um espaço na TV, se ele fala mal dos esquemas que não faz parte, voce acha que esse mesmo esquema iria dar um espaço pra ele falar mal deles próprio? Ora professor, aí voce não quer democracia, voce quer idiotice, que o lado do “Mal” seja burro, idiota, otário…E Otário professor, nasce morto!!!

        1. O espaço está aberto pra você no blog ou jornal, Santareno, para escrever o que quiser, inclusive da administração municipal. Desde, claro, que você assuma a sua identidade, como fazem todos os articulistas do blog. Não me amedronta o contraditório, o contraponto.

  • Se este blog, acredita na nova forma de mídia (internet) porque ainda pensas em ir para TV? ou é falta de visão deste blog ou simplesmente não acredita no que faz.

    1. Lívia, faço jornalismo. Uso o blog como uma das plataformas para veicular as informações que produzo. Também faço uso do jornal impresso, onde comecei a minha caminhada como repórter. Por que não fazer também TV? Por que não fazer rádio? Acredito, e muito, no que faço. E se o que faço pode ser levado a público em diferentes plataformas midiáticas à minha disposição, por que não fazê-lo?

    2. O problema não é ir para a TV, precisamos de alternativas também na TV. A questão é ir para a TV só dizer o que o dono ou a direção quer que diga. Esperamos, nós leitores, que se o blog for para alguma TV, que seja feita a diferença.

      Chico Corrêa

  • Excelente texto. O Brasil é um país medieval em muitos assuntos e de pensamento retrógrado.Em cidades interioranas os descalabros ficam em forma gritante e envergonhadora.

  • Meu caro,

    Apenas uma correção: o descalabro nos meios de comunicações começou depois da “redemocratização” do país, a ditadura podia ter n defeitos mas nunca avançaram nesse ponto pelo fato da concentração da mídia ser uma possibilidade de fomento de insurgências.

    Jader é uma figura política pós ditadura. No caso específico de Santarém, com a concessão do sinal da globo, pode até ser o caso.

    1. Anônimo,

      Me permita discordar. Jader faz sua carreira durante a ditadura. Seu primeiro mandato foi em 1966. Convive e cresce no Pará nesse período. Chega à Governador com apoio decisivo de Alacid Nunes.

      Já Santarém foi declarada área de Segurança Nacional em 1969 e isso explica muito das concessões públicas de telecomunicações que vieram em seguida. Sua afirmação “a ditadura podia ter n defeitos mas nunca avançaram nesse ponto pelo fato da concentração da mídia ser uma possibilidade de fomento de insurgências.” é insustentável. É óbvio que ter poucas famílias, “de confiança” do sistema comandando as comunicações de massa é melhor para controlar e negociar do que o inverso.

      Paulo Lima

      1. Mestre Paulo Lima,

        Sem contar com o que me parece mais pernicioso do atual modelo de mídia: o monopólio da TV Globo foi articulado, vitaminado, financiado e apoiado politicamente pela ditadura militar.

        O desenho final desse modelo concentrador e perverso foi feito no governo Sarney (o último respiro da ditadura, que impediu as Diretas Já!, em 1984), que teve como ministro das Comunicações o falecido coronel nordestino ACM. Quem não se lembra da farta distribuição de canais de radiodifusão aos parlamentares que apoiaram os cinco anos do governo Sarney?

        Saludos democráticos,

        Samuca

        1. Salve Prof. Samuca,

          Exato! E não podemos esquecer que realizamos a Conferência de Comunicação no Brasil, engavetada pelo Governo. Que todo esse diagnóstico está feito. Aliás, desde 1980 com o Relatório McBride, “Um Mundo e Muitas Vozes”, que esse quadro já estava pintado. Mas sigamos na batalha. A democracia é um caminho difícil, mas, de longe é o melhor caminho.

          Abraço fraterno,

          Paulo Lima

          1. Certamente, mestre Paulo Lima, um caminho longo e sinuoso, como uma canção dos Beatles ou um samba de breque do Kid Morengueira!

            Na realidade, o território da Comunicação (como política pública) continua privatizado. O governo Lula (nos dois períodos) foi pífio; Dilma Rousseff segue na mesma balada.

            De Hélio Costa (repórter especial da TV Globo), passando por Miro Teixeira (homem de confiança dos barões da mídia) ao atual Paulo Bernardo, nenhum ministro colocou a mão nessa cumbuca. A Confecom foi um momento ímpar na caminhada democrática, mas nem o governo Lula, tampouco Dilma, mostraram alguma disposição para encarar os coronéis eletrônicos. Dos governos anteriores, nada se poderia esperar, na boa. Contudo, concordo contigo: são decepcionantes os dois governos do PT.

            Segue a vida, amigo véio, e a luta nossa de cada dia. Ainda bem que temos caras como vc, na lucidez do front.

            Abraços,

            Samuca

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