Contraponto do leitor Inácio Régis ao artigo Ressurgimento indígena e a antropologia: um importante debate, do historiador Paulo Lima:
Paulo, evidente que a academia deveria e deve ser a casa de todas as causas. O debate deve ser feito com isenção e pautado em base técnica e científica.
A Palestra proferida pela Dras. Manuela Carneiro e Maria Rosário, versou sobre o Papel da Antropologia e os Povos Indígenas no Brasil, uma temática tão abrangente que mereceu crítica das doutas palestrantes.
A palestra, não foi voltada para abordar o ressurgimento étnico no município de Santarém, fato que vem permeando as atenções de muitos que, como eu, debruça-se sobre a questão, ao constatar que, pessoas oriundas dos mais diversos estados da federação, estejam se declarando pertencer a extintas e até inexistentes etnias amazônicas.
O evento em causa foi promovido e coordenado Por Florêncio Vaz, um dos principais indutores do processo de ressurgimento étnico baseado na tese etnogênica, onde para ser índio basta se auto declarar. Portanto, esta deveria ter sido a temática a ser debatida. Até porque, foi a tese acadêmica defendida por Florêncio Vaz e que teve como orientadora a Dra. Maria Rosário.
Em verdade, estas eminentes antropólogas foram trazidas para visitarem a Gleba Nova Olinda e, ao presenciarem um espetáculo circense, armado para validar as pretensões daqueles que se dizem pertencer a inexistente etnia Borari, pudessem ter, dessas importantes antropólogas, um parecer favorável sobre o que intentam conseguir; “o reconhecimento indígena”.
Portanto, o que verifica-se, é a academia sendo utilizada para legitimar pretensões fraudulentas, com palestras e debates armados para prevalecer tais propósitos.
Igualmente preocupante é o fato da UFOPA vir a ter, no próximo ano, um curso de graduação em Antropologia, com alta possibilidade de vir a ser coordenado pelo ativista da tese etnogênica que, sem a necessária isenção, está altamente comprometido com os fraudulentos processos antropológicos que ora verifica-se em Santarém.
Espera-se que, o Reitor e os Pró-Reitores não permitam que a UFOPA seja transformada em instrumento para legitimar pretensões espúrias.
Imagino a cena do lançamento do tal livro, “doutor” Inácio Régis sendo aplaudida pela mais seleta e “douta” plateia de madeireiros absolutamente interessados no progresso da ciência etnológica e com os sentidos nada distorcidos pela sanha, o cheiro e o gosto do dinheiro.
Imagino que, no primeiro capítulo, haverá uma discussão dos aspectos metodológicos e serão abordados os conceitos de etnia, território e alteridade cultural.
Imagino os prêmios acadêmicos que “doutor” Inácio Régis irá ganhar quando destruir, do alto de sua cátedra situada nos porões de algum jornal santareno ou gabinete de político, as teorias “inventadas” por gente da estatura de Manuela Carneiro da Cunha e cia.
Caso grupos humanos sejam reconhecidos como indígenas, quilombolas, ou populações tradicionais os desdobramentos posteriores seriam o reconhecimento de seus territórios através de TI’s, Quilombolas, UC’s ou PAE’s, certo? O que te incomoda senhor Regis?
Será que é o fato de estarem atrapalhando o interesse de “populações tradicionais” vindas do Sul, que tradicionalmente compram áreas de tradicionais grileiros regionais para a implementação de tradicionais atividades agropecuárias e madeireiras. Muito nobre sua preocupação camarada.
Jeso discordo de ti veementemente, o discurso de uma pessoa é sim moldado por seus interesses econômicos, portanto é fundamental relacionar o discurso ao meio de obtenção de renda e aos contatos políticos. Mas respeito sua opinião, pois o trabalho de mediador é algo extremamente complexo, sinto em ti um esforço realmente grande em manter a lucidez, sendo o mais imparcial “possível”, parabéns e não desista.
José Wilson, todos nós temos interesses. O senhor Florêncio Vaz, por exemplo, tem os seus – defende a preservação da cultura de seu povo -, assim como o senhor Inácio Régis. O que não se pode é reduzir a idéia de uma pessoa a esses “nós”, a esses interesses. Se assim ocorrer, ficaremos no raso. Na superfície do debate. Para aprofundá-lo, entendo que se deve confrontar teses, ideias, argumentos.
Jesó é complicado comparar o interesse pessoal/coletivo de quem defende a preservação da cultura de seu povo, com o interesse pessoal/coletivo de quem tenta legitimar o processo de grilagem de terras públicas para assim viabilizar o agronegócio e as madereiras. Mas reforço o que disse anteriormente, compreendo sua postura e acho que você consegue manter um espaço de dialogo coerente com suas propostas e o mais importante, ético. Um grande abraço.
Sugiro ao senhor Inácio Régis circular na filmografia de Federico Fellini para compreender a dimensão e a beleza do universo da arte circense. Ali, ele encontrará farto material de estudo para mudar suas lamentáveis concepções sobre a arte.
No entanto, reconheço que, ao utilizar a expressão “espetáculo circense” – revelador de profundo desrespeito e preconceito para quem quer se aventurar na discussão sobre cultura – a utilizou em sentido comum, reproduzindo uma das mais diversas formas de preconceitos ingênuos.
Portanto, o referido senhor, ao mesmo tempo em que se dispõe a discutir temas científicos, utiliza-se de interpretações e chavões mais apropriados ao senso comum, o que, lamentavelmente, desmerece seu discurso, condenando-o à mera opinião.
Caro Inácio,
Obrigado por suas considerações. Concordo que o encontro não se destinava a debater a questão específico do baixo Tapajós ou a etnogênese. Mas, deve se recordar que a primeira pergunta do debate foi feita justamente por você e tratava de colocar o tema na mesa. Um professor convidado a um debate não deve se furtar a comentar e apresentar suas impressões sobre a situação local. A Profa. Maria Rosária, conhecedora do processo legal para o reconhecimento das etnias culturalmente reconstituídas, foi muito clara, não se trata de uma simples auto-declaração. Um servidor público, neste caso necessariamente Antropólogo, que pode ser responsabilizado por erros de sua avaliação, prepara, com base num minucioso estudo, um relatório dentro dos critérios da Portaria nº 14, de 09/01/96. Todo o processo está disponível na internet, não existe nada de simples auto-declaração. Não falemos inverdades para os leitores do Jeso.
Eu realmente tenho dificuldades em seguir o debate consigo quando vemos desqualificações etnocêntricas antigas e preconceituosas como tratar uma cerimônia estranha à sua cultura como “circense”. Uma referência duplamente equivocada, seja pelo desrespeito à uma cultura que não conhece, seja por tratar o circo, arte tão querida em nossa região, como palco de uma atividade menor. Lamento que sua compreensão da antropologia, em especial da antropologia cultural, tenho lhe dado uma visão tacanha da cultura indígena, uma dificuldade de compreender o outro, reconhecer seus direitos e sua arte.
Por trás dessa discussão “antropológica” há interesses económicos e fundiários do setor madeireiro e do agro-negocio.
A área reivindicada pelas comunidades que se titulam de Borarís (moradores históricos da área) mexe diretamente com os negócios de permutários vindo de outras regiões ainda na época do governo Barbalhista.
O que explica todo o esforço intelectual que o Inácio Regis está produzindo.
Mas será o governo federal com a Funai que vai decidir em cima dessas disputa.
Depois é acatar!
Tiberio Alloggio
Discordo de você Jeso. O fato dele ser assessor direto do Lira Maia, diz muito, mas muito mesmo sobre quais interesses ele defende. A opinião dele não está baseada em estudos antropológicos em nenhuma área das ciências sociais, mas sim em interesses pelos quais pronuncia as verborragias preconceituosas.
Concordo com vc Carlos Santareno.
É realmente fundamental que o debate antropológico seja pautado em bases técnicas e científicas, especialmente na academia.
Por isso me causa indignação ver pessoas sem autoridade moral e intelectual fazendo afirmações levianas como essa. Dizer que não existe a etnia Borari é uma postura racista e que representa uma violência a todos aqueles que tem orgulho de ser boraris.
Que fundamento tem o Sr. Inácio Regis (que pelo que sei nem tem formação em alguma área das ciências sociais), para afirmar que não existe a etnia borari?
Se pelo menos esse senhor tivesse prestado atenção na palestra das duas antropólogas, teria ciência de que o reconhecimento de etnias indígenas não depende apenas da autodeclaração, mas de um vasto estudo histórico que leva anos.
Por fim, será extremamente interessante ter o Professor Florêncio como coordenador do curso de Antropologia da UFOPA: uma pessoa íntegra e que leva a antropologia a sério, ao contrário de alguns charlatões a serviço de interesses escusos.
Pessoa tão íntegra que arrumou um “cacique” filho de pais que vieram de Belém e outro estado para se auto-declarar indígena borari.. Daqui a pouco até os gringos dessas ONGs vão começar a se autodeclarar borari também..
Inácio Régis diz que é um “pesquisador”, mas na verdade, é defensor radical dos interesses comerciais de madeireiros, além, é claro, de de ser assessor direto do deputado federal Lira Maia.
Samuel, o que está em debate são as ideias que Inácio veicula, que ele defende. O fato dele ser assessor ou não do deputado federal Lira Maia não acrescenta nada ao debate.
Jeso, não gosto do Lira Maia (nunca votei nele) e não conheço o Inácio pessoalmente, por isso, não tenho motivo nenhum para defende-lo, mas, parabéns por seu posicionamente. Realmente, não vamos misturar alhos com bugalhos! Como leitor assíduo do blog, tenho a impressão que você não concorda muito com as idéias do Inácio, mas mesmo assim se posicionou de forma democraticamente exemplar!
Parabéns! A minha lista não vale nada, mas você ganhou uns 1000 pontos nela hoje! Parabéns!