Ressurgimento indígena e a antropologia: um importante debate

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por Paulo Lima (*)

Passei uma boa parte da vida estudando no ensino público e gratuito. Participei de processos políticos — no movimento estudantil — que reivindicavam um papel para a universidade que não fosse voltado para dentro, criando discursos e debates entre pares. Lembro das lutas pela autonomia universitária, pela democratização dos processos decisórios e eleição de reitores, pelo fortalecimento do investimento na educação superior e pela decisão de retornar à sociedade esse investimento.

Devo minha formação à escola pública e trabalho sempre com a perspectiva que devo ao Estado, como cidadão, muito do que me foi ofertado, desde o ensino fundamental à pós-graduação. Ontem, com muita alegria pude ver resultados daquelas lutas: encontrei um auditório lotado, quente, numa universidade em transição e transformação, para um debate aberto à todos.

O Prof. Dr. Florêncio Vaz conseguiu trazer para falar para uma platéia ávida por conhecimento a Profa. Dra. Manuela Carneiro da Cunha e Profa. Dra. Maria Rosária Carvalho, nomes com vasta produção e contribuição acadêmica para a antropologia brasileira e internacional. As palestras, sob a situação das populações indígenas no Brasil, trazia, em suas possibilidades de desenvolvimento, a análise sobre a situação de nossa região. Desde os aspectos legais para o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas até as indagações sobre os movimentos de reconhecimento da identidade indígena na Floresta Nacional do Tapajós e na Gleba Nova Olinda, no Rio Arapiuns.

Não que esses sejam os únicos movimentos nesse sentido. Sabe-se que após a redemocratização esse debate foi retomado e, em nossa região, com papel formulador do Frei Florêncio Vaz, autor de uma reconhecida tese de doutorado sobre o processo.

Mas isso tem relação com pelo menos duas importantes mudanças: A revisão promovida pela Igreja sobre o processo missionário e a redemocratização brasileira. Essa revisão histórica da Igreja ao reconhecer os excessos da conversão ao catolicismo e o impacto que tal processo teve na desqualificação da cultura indígena, somada à força da organização comunitária pela conquista do acesso à terra é o caldo cultural que torna possível à construção de um novo valor para o “ser indígena”.

Da mesma forma que Portugal envia para cuidar da processo de colonização da Amazônia o Governador Mendonça Furtado, irmão do poderoso Marquês de Pombal. Este funda várias vilas e como regra homenageia cidades portuguesas mudando os nomes da vilas indígenas (veja-se Óbidos, Santarém, Vila de Boim, Faro, Aveiro, Alenquer, Almeirim e Monte Alegre, para citar somente o oeste do Pará), para nomes de cidades portuguesas.

A Igreja vem junto instaurando a lógica inquisitória contra toda e qualquer resistência cultural autóctone. Isso lá por 1750. Não é difícil depreender o quanto todo esse investimento contra a estima do “ser indígena” na região, somados às dificuldades culturais da proposta de desenvolvimento dos militares do sul do país em dois importantes momentos de colonização da Amazônia, o ciclo da borracha e período da ditadura militar (1964-1985).

Pense bem, você, depois de ver sua origem, a cultura de seu povo, ser, por séculos, associada ao atraso e ao pecado, tendo já sido criado na precariedade da presença do Estado no mundo rural, você se diria indígena?

Ainda hoje é comum, com a mesma tradição pernóstica de se esconder o racismo com os negros, a discriminação com as populações indígenas.
É simplificação grotesca afirmar que as populações do Tapajós e do Arapiuns não tem legitimidade ou foram induzidas à afirmar sua relação cultural histórica com os Mundurukus, Tapajó e Arapiuns.

Não me causa estranheza que seja causa defendida por pessoas que tradicionalmente estejam à serviço daqueles que, vorazes pelo acesso a grandes extensões de terra e estoques de madeira, impulsionem. A história dos índios de Parati Mirim é a mesma, os Guarani, no sul do país viveram a mesma pressão. A diferença, em nosso caso, é que a fraude intelectual que desqualifica o movimento de ressurgimento da cultura indígena nesta parte da Amazônia, está desmascarado. É simplório e tosco como argumentação antropológica. Como proposta criticam uma legislação mais que consolidada desde a Constituição de 1988. E o que propõem como alternativa?

O encontro promovido pela UFOPA merece todos os elogios e que todos os departamentos da Universidade sigam esse exemplo, trazer para o debate e análise científica, com a participar popular, Dessa forma a UFOPA assume sua função mais nobre. Levar o conhecimento acadêmico para compreensão e apropriação pela sociedade.

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* É historiador e professor universitário.


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16 Responses to Ressurgimento indígena e a antropologia: um importante debate

  • A FUNAI e seus antropólogos precisam trabalhar de modo impessoal, com eficiência e moralidade, e não estar a serviço de política ideológica, com processos administrativos discricionários e arbitrários, como vem ocorrendo nas três últimas décadas, sob o bafejo de inumeráveis ONGs nacionais e estrangeiras. Este comentário pertence ao Dr. Hilário Rosa, mestre em Antropologia, História,
    Sociologia e Geografia. Atualmente leciona na USC — Universidade do Sagrado Coração, da
    Universidade Católica de Bauru (SP), onde ministra o curso de Antropologia Forense ou
    Antropologia Pericial. Será que o eminente Prof. Dr. também vai ser anonimamente caluniado. Aos leitores do Blog, recomendo: Estudem, Leiam, Informem-se, pois só através do conhecimento será possível vislumbrar a VERDADE.

  • Parabéns ao Prof. Dr. Florêncio Vaz! Fico sempre muito orgulhosa quando vejo e participo das articulações que este professor faz. Enquanto muitos “pesquisadores” de plantão ficam dizendo a mesma ladainha da história oficial, o Florêncio levanta as temáticas sobre indígenas, cabanagem… É isso ai, precisamos mudar os relatos sobre a história da região.

  • Graças a Deus que UFOPA, vai criar um curso de graduaçao em Antropologia. Sabe Tinho, as pessoas precisam respeitar as diferanças e acabar com esse etnocentrismo sordido, que os europeus enfiaram de guela abaixo em nosso continente. Já sao mais de 500 anos de racismo, preconceito e discriminaçao aos indios e quilombolas. Ressurgidos ou nao todos sao seres humanos e merecem ser respeitados como tais. Percebe-se agora, o desespero daqueles que sempre se aproveitaram das riquezas em nossa regiao.Fazendo desenviolvimento para alguns, saqueando madeira, ouro, envenenando a terra com o plantio de graos.Agora com as terras nas maos dos indios ( ofialmente demarcadas), assentamentos e reservas extratistas e flona. O dinheiro faci,l está com os dias contados. Vao estudar outro meio de vida e deixem as riquezas de nossos povos. Quer te informar vai ler a conveçao 169, acabe com essa ignorancia e respeite as diferenças. Nao menospreze os Antropolos. Estude.
    Obrigado Jeso, por esse espaço

  • Apenas uma observação: existem empresários corretos no setor florestal, não podem colocar todos no mesmo saco de ilegais e desonestos. Existem empresas serias trabalhando neste setor, que se preocupam com sustentabilidade, trabalho digno, respeitando as comunidades locais e é claro buscando junto a tudo isso lucro, pois não teria como se trabalhar sem almejar lucros.

  • So acho que as pessoas colocam os empresarios madeireiros todos no mesmo saco e que não é bem assim que as coisas funcionam. Acreditem, existem sim empresários do setor florestal que trabalha de forma sustentavel e honesta tanto com seus funcionarios, com seus clientes e em especial com a floresta!
    Acho que tem que se moderar ao falar como se todos fossem de um saco só.

    sds

  • Imagino a cena do lançameto do tal livro, “doutor” Inácio Régis sendo aplaudido pela mais seleta e “douta” plateia de madeireiros, absolutamente interessados no progresso da ciência etnológica e com os sentidos nada distorcidos pela sanha, o gosto e o cheiro do dinheiro.
    Imagino o primero capítulo dedicado à discussão de seus parâmetros metodológicos, onde discutirá o conceito de etnia, território, alteridade cultural.
    Imagino os prêmios acadêmicos que ganhara ao destruir, do alto de sua cátedra localizada nos porões de algum jornal santareno, as teorias “inventadas” por Manuela Carneiro da Cunha e cia.

  • Paulo permita-me fazer um complemento à outra oportuna intervenção de sua autoria.

    Em 14/06/2010, as outras 11 comunidades que integram a Gleba Nova Olinda I e organizadas em Associações, protocolaram na Justiça Federal de Santarém, uma AÇÃO DE ANULAÇÃO DE PROCESSO ADMINISTRATIVO, C/C DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE ETNIA E POSSE INDÍGENA, COM PEDIDO DE ANTECIPAÇÃO DE TUTELA, contra a UNIÃO FEDERAL; FUNAI – Fundação Nacional do Índio; ODAIR JOSÉ ALVES DE SOUZA (vulgo DADÁ BORARI) e invocando a Lei 4.584/75 bem como a Lei Adjetiva Civil (CPC), requereu do Exmo. Juiz, o chamamento processual do INSTITUTO DE TERRAS DO PARÁ – ITERPA como Listisconsórcio.Ativo Nescessário..

    Assim procederam, Por entenderem ser uma seriíssima questão, inclusive de ordem pública tonitruante, envolvendo interesses escusos de três comunidades da mesma Gçeba que, se querem identificar como grupo indígena, a partir de falsidades ideológicas contundentes, visando usufruir de direitos e prerrogativas só atribuídas àqueles que efetivamente, na forma constitucional, se caracterizam como silvícolas.

    Informo-lhe ainda que, brevemente, estarei publicando uma obra, fartamente documentada, na qual historia-se e comprova-se esta fraude étnica.

    1. Quantos comunitários precisarão ser convidados pelos madeireiros para almoçar na Rayana para que se digam contra os direitos indígenas? Quantos mais ganharão combustível e motor? Quantos andarão em reuniões com o MPF com roupas “de marca”, totalmente discrepante para a realidade em que vivem?

      Sinto pelos que se vendem por tão pouco agora, deixando seus filhos sem qualquer perspectiva de futuro. Acaso as madeireiras lhes dariam tantos benefícios se já tivessem conseguido todas as concessões possíveis na Gleba Nova Olinda?

  • Paulo, evidente que a academia deveria e deve ser a casa de todas as causas. O debate deve ser feito com isenção e pautado em base técnica e científica.

    A Palestra proferida pela Dras. Manuela Carneiro e Maria Rosário, versou sobre o Papel da Antropologia e os Povos Indígenas no Brasil, uma temática tão abrangente que mereceu crítica das doutas palestrantes.

    A palestra, não foi voltada para abordar o ressurgimento étnico no município de Santarém, fato que vem permeando as atenções de muitos que, como eu, debruça-se sobre a questão, ao constatar que, pessoas oriundas dos mais diversos estados da federação, estejam se declarando pertencer a extintas e até inexistentes etnias Amazônicas.

    O evento em causa, foi promovido e coordenado Por Florêncio Vaz, um dos principais indutores do processo de ressurgimento étnico baseado na tese etnogênica, onde para ser índio basta se auto declarar. Portanto, esta deveria ter sido a temática a ser debatida. Até porque, foi a tese acadêmica defendida por Florêncio Vaz e que teve como orientadora, a Dra. Maria Rosário.

    Em verdade, estas eminentes antropólogas, foram trazidas para visitarem a Gleba Nova Olinda e, ao presenciarem um espetáculo circense, armado para validar as pretensões daqueles que se dizem pertencer a inexistente etnia Borari, pudessem ter, dessas importantes antropólogas, um parecer favorável sobre o que intentam conseguir; “o reconhecimento indígena”.

    Portanto, o que verifica-se, é a academia sendo utilizada para legitimar pretensões fraudulentas, com palestras e debates armados para prevalecer tais propósitos. Igualmente preocupante, é o fato da UFOPA vir a ter, no próximo ano, um curso de graduação em Antropologia, com alta possibilidade de vir a ser coordenado pelo ativista da tese etnogênica que, sem a necessária isenção, está altamente comprometido com os fraudulentos processos antropológicos que ora verifica-se em Santarém. Espera-se que, o Reitor e os Pró-Reitores, não permitam que a UFOPA seja transformada em instrumento para legitimar pretensões espúrias.

  • Parabéns professor Dr. Florêncio Vaz. Precisamos ter mais iniciativas dessa natureza. Infelizmente prof., ainda existem pessoas que acreditam que não existem índios, escravidão é história desmatamento é invenção de quem acredita em um mundo melhor.

  • O encontro promovido pela UFOPA merece uma crítica; a falta de publicidade, comum nas atividades do meio acadêmico. Quem está dentro (UFOPA) fica sabendo que vai acontecer, a sociedade civil fica sabendo que aconteceu. Fico chateado por não ter participado, e olha que eu sabia que havia um grupo de antropólogos na cidade. Fora isso louvável a iniciativa.

    Tinho teu comentário me leva a crer que tu se encaixa em um dos dois perfis clássico; quem perde $ com o reconhecimento de tais populações ou que acredita na Fátima Bernardes e é apaixonado pelo Datena.

    1. Nem um nem outro. Sou da turma que não acredita nessas mentiras. Até porque eu conheço pessoalmente a região há alguns anos, e TODO mundo que conhece a região sabe do “golpe” que é essa historia de “indios ressurgidos”.. Só não sabe os “esquenta banco” de faculdade (que não conhecem a realidade na prática) e os ONGueiros de carteirinha e profissão como essa turma aí.. Ou seja, vindo dessa turma, é quase tudo balela..

      1. Tinho, sendo bem sincero, acredito que você tem algum envolvimento (advogado, empregado ou dono) com a atividade agropecuária, florestal ou de mineração.
        Só para deixar as coisas bem claras não trabalho para ONG’s nem sou universitário, também não tenho nenhuma critica as pessoas que se enquadram nesse perfil, digo mais, acho que algumas ONG’s fazem o papel que o Estado deveria fazer, e os universitários são o futuro deste pais.

  • Pois é Tinho, esse é o tema. Não é simples assim! Tem muito estudo, conhecimento e debate para se chegar a esse modelo. Tem legislação nacional e acordos internacionais no sistema das Nações Unidas. Nada, na democracia é simples assim. Você tem direito de instar o MInistério Público contra o que você achar que é mentira ideológica. E aí? Fez? Bravata, chavão, simplificação não faz nada avançar.

  • Ressurgimento Antropológico = Mentira ideológica baseado em um brecha da constituição. Simples assim.

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