
Há uma perversidade silenciosa na maneira como o nosso tempo socializa suas promessas com seus viventes, nunca se falou tanto em construir o futuro e ao mesmo tempo se desmontou peça por peça a possibilidade de vivê-lo.
Durante gerações, ensinaram aos jovens que o conhecimento abriria as portas do trabalho, garantindo a liberdade de conquistar um lugar no mundo, porém o mundo envelheceu em suas condutas, selecionou o que vale a pena para ele, assim desmentiu suas próprias lições.
Hoje, os jovens recebem diplomas que não abrem portas, salários que não compram independência e conselhos de quem teve oportunidades que já não existem; não foi a juventude que perdeu o caminho, foram os adultos que venderam as estradas e passaram a cobrar pedágio pelos sonhos.
Agora, nas ruas da França e de outros países europeus, esses jovens devolvem à sociedade uma pergunta que atravessa a arrogância dos gabinetes e perturba o sossego dos poderosos. De que serve ensinar uma geração a caminhar se lhe estão roubando o direito de chegar?
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Na França, adolescentes protestam pela falta de professores, pelas salas superlotadas, pelas escolas deterioradas e por um sistema educacional que cobra excelência enquanto economiza nas condições elementares de aprendizagem. Não estão reivindicando privilégios extravagantes, viagens à Lua ou a propriedade das estrelas.
Querem professores diante do quadro, paredes que não desabem sobre seus sonhos e garantia de que o conhecimento ainda seja uma promessa pública, longe de ser um produto reservado a quem pode pagar. Daí, a questão, quando uma sociedade transforma o básico em reivindicação, a injustiça já deixou de ser acidente, tornou-se método.
Em Portugal e na Espanha, jovens protestam contra o absurdo de trabalhar para sustentar uma casa que jamais poderão possuir e sequer alugar; na Itália e na Bélgica, a defesa da educação encontra os temores de uma existência cada vez mais cara; na Albânia, estudantes questionam custos universitários, oportunidades de emprego e corrupção.
Não marcham necessariamente sob uma mesma bandeira, nem obedecem a um manifesto comum, carregam perguntas semelhantes de como a insegurança econômica aproxima suas biografias. O que chamamos de crise geracional é o encontro de milhões de jovens com as promessas não cumpridas de seus antecessores.
E os adultos? Ah, os adultos!
Esses antigos proprietários da juventude, tão generosos em conselhos, tão econômicos em oportunidades, no meio do turbilhão que varre as ruas europeias, recomendam disciplina a quem enfrenta a precariedade, paciência a quem não consegue pagar o aluguel, perseverança a quem procura emprego e resignação a quem vê o horizonte diminuir a cada aniversário.
É obvio que inventaram uma pedagogia para esses jovens, a de que o esforço produz liberdade, mas organizaram uma economia na qual o esforço nem sempre compra independência.
Diante das manifestações, perguntam por que os jovens estão revoltados, quem sabe porque tenha aprendido a fazer contas; talvez porque saibam ler, ou, porque tenham entendido perfeitamente a lição, descoberto no exercício final que o problema estava no enunciado.

Entre a pedagogia e a ação, há quem prefira chamá-los de “rebeldes”, “impacientes”, porque é mais confortável psicologicamente condenar o inconformismo dos filhos do que reconhecer as ruínas deixadas pelos pais, afinal, toda geração que se acomoda costuma chamar de desordem a coragem daqueles que ainda acreditam ser possível mudar alguma coisa.
E nisso, existe uma distância imensa entre a rebeldia de quem deseja afrontar o mundo e a resistência de quem já não encontra nele um lugar para viver, esses “velhos” jovens não carregam a pretensão de serem santos, nem precisam da inocência para justificar sua revolta. Pedem escolas onde o conhecimento não seja um sobrevivente, professores cujo valor não termine nos discursos, empregos que não transformem a dignidade em esmola e casas onde o futuro possa, enfim, tirar os sapatos e descansar.
Nada disso deveria ser revolucionário, são direitos elementares que sua ausência denuncia o tamanho do nosso atraso, no entanto vivemos tempos curiosos, os que administram a escassez se apresentam como defensores da ordem, enquanto os que exigem o mínimo são acusados de ameaçá-la, essa é a mais cruel das nossas contradições, construímos uma sociedade em que reivindicar o direito de viver parece mais subversivo do que negar aos outros as condições de existência.
E quanto às instituições?
Justamente o silêncio delas é que tornou necessário o barulho juvenil nas ruas, uma geração inteira percebeu que seus problemas são discutidos em gabinetes onde raramente há uma cadeira para ela. Falam sobre juventude como se falassem sobre uma coisa que se observa, se mede e se administra à distância, entretanto, jovens não são fenômenos atmosféricos.
Têm memória, inteligência, fome, projetos, contas e uma extraordinária capacidade de perceber quando estão sendo enganados, não querem apenas participar das fotografias oficiais do amanhã, querem interferir nas decisões de hoje. Porque o futuro, esse velho argumento dos discursos políticos, não é um território vazio à espera de inauguração, ele já começou e sua primeira paisagem pode ser uma sala sem professor ou um quarto cujo aluguel consome quase todo o salário.
De que serve uma economia admirável nas estatísticas se a autonomia virou artigo de luxo?
De que serve celebrar a inovação tecnológica quando o estudante precisa disputar uma carteira escolar, e o trabalhador, depois de receber o salário, precisa escolher qual necessidade continuará insatisfeita? O progresso que não melhora a vida cotidiana corre o risco de ser apenas uma bela palavra pronunciada por quem já passou por ele.
Ninguém exige que os antepassados entreguem o paraíso com seus jardins floridos e suas tragédias resolvidas, o mínimo seria não legar aos mais jovens a conta de um banquete para o qual jamais foram convidados. Entretanto, eles recebem escolas que economizam no conhecimento, cidades onde ter um endereço se tornou privilégio e empregos que mal conseguem financiar a própria sobrevivência.
Chamam de herança aquilo que chega como cobrança; chamam de maturidade a resignação de quem aprende a suportá-la em silêncio, nesse contexto existe um prejuízo que nenhuma contabilidade consegue registrar quando uma sociedade compromete as possibilidades do amanhã, transforma a esperança numa dívida que os filhos contraem antes mesmo de nascer.
E essa “esperança” não se alimenta de discursos de formatura, nem floresce nas frases otimistas de quem nunca precisou escolher entre o aluguel e o pão; ela se alimenta de escolas onde o saber não seja um acidente, de trabalho que não confunda salário com esmola e de oportunidades que não dependam da fortuna de nascer no endereço certo.
Não basta ensinar uma geração a sonhar se lhe negamos as condições de permanecer acordada, essa é a mais triste herança do nosso tempo, quando entregamos aos jovens um mundo inteiro e depois lhes cobramos ingresso para existir. Esses jovens não pedem autorização para sonhar com uma revolução abstrata, questionam a organização concreta da vida, o tamanho das turmas, o preço do aluguel, o valor das mensalidades, a ausência de professores, o emprego que não chega.
Questões tão cotidianas que parecem pequenas aos olhos da grande política, mas lembremos que a história se move por coisas aparentemente menores, uma mesa onde falta comida, um salário que termina antes do mês, uma chave que nunca abre a porta de uma casa própria. Os grandes conflitos sociais frequentemente começam quando aquilo que parecia destino passa a ser reconhecido como decisão humana e, portanto, passível de mudança.
E, daqui, do outro lado do Atlântico, deveriamos prestar atenção, a revolta pode falar francês ou português de Portugal, mas certas injustiças dispensam tradução, pois conhecemos de memória a escola onde o professor precisa inventar os recursos que o Estado esqueceu, o estudante que atravessa a cidade para aprender e o jovem que conquista um diploma apenas para descobrir que o mercado de trabalho não distribui futuros na mesma proporção em que exige qualificações.
Somos um país onde muitos precisam escolher entre estudar e sobreviver, onde a independência chega cada vez mais tarde e onde amadurecer, não raramente, significa desistir de alguma coisa antes mesmo de experimentá-la.
Há oceanos, histórias e desigualdades que separam Paris, Lisboa e as periferias brasileiras, mas existe uma contradição que atravessa todas essas geografias, celebramos a juventude como esperança da humanidade enquanto lhe oferecemos a insegurança como herança.
Porque nossos governantes economizam na escola, relativizam a pobreza, discursam sobre oportunidades e depois procuram explicações para uma desigualdade que ajudaram a perpetuar, e com isso desenvolvemos uma estranha ciência do progresso, calculamos quanto custa educar um jovem, mas fingimos desconhecer o preço de lhe negar o futuro.
Aqui, essa conta é antiga, mudam os governos, envelhecem as promessas, chegam novos estudantes, e o amanhã sempre anunciado como uma grande novidade continua trazendo os mesmos problemas de ontem.
Há uma diferença imensa entre aprender a viver num mundo imperfeito e ser obrigado a agradecer por suas injustiças, a juventude pode suportar dificuldades, pode reinventar seus caminhos e até aprender a conviver com as incertezas que acompanham qualquer existência. O que ela não deveria aceitar é que a precariedade seja apresentada como virtude, a resignação como maturidade e o fracasso das políticas públicas como defeito individual.
Por isso, quando vejo estudantes ocupando as ruas para exigir escolas que ensinem, empregos que sustentem e casas onde possam finalmente morar com seus próprios sonhos, não encontro uma geração que tenha abandonado o futuro, encontro o futuro tentando escapar das mãos daqueles que insistem em administrá-lo como propriedade particular.
Há quem confunda protesto com desesperança, quem sabe porque tenha desaprendido a reconhecer a esperança quando ela não chega sorrindo, logo existem esperanças que nascem indignadas, atravessam praças, carregam cartazes e ficam roucas de tanto exigir aquilo que jamais deveria ter sido negado.
Afinal, ninguém reivindica mudanças num mundo que já considera definitivamente perdido, esses jovens ainda acreditam que a história não terminou, que o destino não é uma sentença e que nenhuma injustiça merece a eternidade apenas por ter sobrevivido durante séculos.
Suponho que seja isso que tanto incomode os velhos administradores da resignação, descobrir que a juventude, educada para obedecer ao amanhã, resolveu interrogá-lo ainda hoje. Porque o verdadeiro fracasso de uma geração não está em sair às ruas para exigir outro mundo, mas em aprender a viver de joelhos dentro deste. E enquanto houver alguém suficientemente jovem para desconfiar do impossível, o futuro continuará sendo uma promessa que o passado não conseguiu domesticar.

❒ Josué Vieira, santareno, é professor, escritor, poeta e pesquisador sobre Sociedade, Cultura e Amazônia. Mora em Manaus (AM). Leia também dele: Katy, um reino além da consciência. E ainda: Desesperos, morte e silêncio na Colônia Vertical dos Perdidos.
E mais: O que sobra do que somos depois de tantos desvios na vida. O mais recente artigo dele é este: Não me sigam! Eu, também, estou perdido…
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