A relação entre futebol e política no âmbito da covid-19. Por Joanderson Mesquita
Protesto do Botafogo antes da partida contra o Cabofriense. Foto: Reprodução/Premiere

É inegável que o cultura do futebol é um elemento importante na sociedade brasileira, essa manifestação envolve milhões de apaixonados. Precisamos de dar atenção especial a esse evento, traçar determinadas reflexões sobre jogos esportivos.

O futebol não pode ser dissociado da política, ele é uma manifestação cultural que reflete a complexa estrutura sociopolítica vigente.

Um exemplo da importância do futebol nas reflexões sobre a política brasileira é a briga travada pela volta dos jogos no Estado do Rio de Janeiro no meio da pandemia.

Joanderson Mesquita *

Atualmente, o número de infectados pela Covid-19 só cresce, em paradoxo, os leitos de hospitais ficam cada vez mais escassos. Ao que parece, para os dirigentes esportivos, esses fatores são irrelevantes, o futebol aparenta ocupar uma posição acima das vidas perdidas.

Com o país chegando a 60 mil vítimas, as disputas do campeonato carioca de futebol voltaram a acontecer, além disso, a Prefeitura do Rio de Janeiro já anunciou a liberação da volta do público aos estádios de futebol, a volta está programada para o dia 10 de julho.

No meio desse triste cenário, Botafogo e Fluminense manifestam-se contra essa insanidade. Infelizmente, essa reflexão largou os parâmetros da consciência, e se tornou uma disputa de política entre clubes.

A volta dos jogos de futebol é defendida pelo presidente do Flamengo, Rodolfo Ladim, pelo presidente do Vasco da Gama, Alexandre Campello, e pela FERJ (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro). Os presidentes dos clubes citados chegaram a se reunir com o presidente Jair Bolsonaro, buscando apoio nessa disputa.

 

O presidente Jair Bolsonaro também apoia a volta das atividades esportivas. Em decorrência da disputa entre os cartolas, as manifestações apresentadas por Fluminense e Botafogo entraram na rota de polarização da política nacional. Ao invés de criticarem as ações que colocam o Brasil nessa situação caótica, o problema parece ter mudado de direção.

A manifestação adotada pelo Botafogo no último domingo jogou o clube na mira do discurso de ódio. Ontem, antes da partida, os jogadores do Botafogo entraram com uma faixa, expressando sua posição sobre a volta dos jogos de futebol. A frase dizia: “Protocolo bom é o que respeita as vidas”.

Rapidamente, logo após a manifestação, uma onda de comentários nas redes sociais classificaram os atos do Botafogo como “mi mi mi” e “lacração” de “um clube inexpressivo querendo aparecer”.

A tentativa de materialização da cidadania democrática de instituições, através de manifestações apresentando contrariedade à volta dos jogos de futebol, foi reduzida a termos pejorativos, negando-se um debate sobre um assunto complexo, e importante para o processo de “reabertura” do país.

Muitos acham que o resultado das eleições é somente fruto do sentimento antipetista, gerado pela operação Lava-Jato, e relevante atualmente na política nacional. Mas, se olharmos para o “apoio popular” na briga política pela volta dos jogos de futebol, perceberemos que os jogos e as eleições são elementos que reproduzem profundos problemas de uma sociedade atualmente marcada pelo discurso de ódio.

O futebol expressa historicamente a profundidade de problemas na sociedade brasileira, durante a pandemia causada pela Covid-19 este diagnóstico não é diferente, as aparências do discurso de ódio, vigente na democracia brasileira, são apresentadas através dos espelhos do futebol.


— * Estagiário no Arquivo Regional de Santarém e acadêmico de História na Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará).

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