A lenda da “Cabeça do Padre”

Publicado em por em Artigos, Oeste do Pará

por Célio Simões (*)

Devo admitir que eu estava assistindo aquela missa com uma sensação que variava entre o absenteísmo e a curiosidade. Primeiro pela idade. Eu era um moleque de apenas sete anos e nessa faixa etária, convenhamos, muita coisa sumamente importante para os adultos nos parece absolutamente irrelevante.

Segundo, porque à época, antes do Concílio Vaticano II, as missas eram rezadas com o padre postado de costa para os fiéis, além de tudo em latim, língua que a patuléia não entendia patavina e eu não era nenhuma exceção.

Para dizer a verdade, nem o bom e velho português eu falava direito, quanto mais o latim, com o qual eu viria só muito mais tarde me familiarizar, quando me tornei acólito naquela mesma igreja de Sant’Ana, tão querida, acolhedora e familiar a todos os obidenses.

De inusitado durante a missa só o gesto do vigário, Frei Daniel Budde, um franciscano batoré que para alcançar o sacrário na hora de distribuir a comunhão, tinha que subir num banquinho de madeira, que era disfarçadamente colocado próximo do altar a cada celebração.

Face ao gesto inusitado, eu e os garotos que sentavam às proximidades ensaiamos uma risada, sob o olhar de censura dos adultos e um daqueles pirralhos disse-me baixinho que a “Cabeça-do-Padre”, a velha caixa d’água em ruínas situada na praia do Porto de Cima, havia sido assim apelidada por causa da semelhança com a cabeça de Frei Daniel, o dirigente daquele ofício religioso, um dos primeiros que me foi dado assistir na dita igreja, ali pelos idos de 1954.

Fiquei curioso com a inesperada confidência. O que havia para além daquela barreira alta de terra avermelhada, que para mim, ainda criança, de tão pavorosa pela altura tinha o “status” de verdadeiro abismo? O que seria essa tal “Cabeça-do-Padre”?

Curti boa parte do curso primário (hoje, ensino fundamental) no Grupo Escolar José Veríssimo sob substancial vigilância paterna, porquanto, chegado da velha fazenda Capela pela força da monumental cheia de 1953, não sabia andar direito naquela vasta “metrópole” aladeirada que era Óbidos. Imagina se fosse em Santarém… Isto até o dia em que uma de nossas professoras resolveu, num belo domingo de setembro, organizar um passeio da estudantada para a praia, recompensa pelo desembaraço na tabuada, onde poderíamos jogar bola, tomar banho e brincar de pira-mãe, chamada de belário nos bons e despreocupados tempos de antigamente.

Foi um dia de festa. Descemos para o encontro com o Rio Amazonas a partir da casa de dona Denga, defronte de onde morava o “velho“ Brito Sousa, uma rua estreita e cheia de pedras soltas, que mais adiante se transformava numa muralha, guarnecida apenas por um corrimão de madeira já brocada pelo cupim, isto para evitar que algum desavisado passante, eventualmente tonto pela altura, despencasse lá pros confins daquela fundura, onde vicejavam bananeiras e um arvoredo denso separando o promontório da branca areia da praia.

Aí é que fui lembrar-me do que me disse aquele eventual parceiro de missa, pois passei bem ao lado da “cabeça-do-padre”, na verdade, uma construção de alvenaria de aspecto fálico, com uma portinhola num dos lados. O resto era um amontoado de pedras, ruínas de uma velha construção que a curiosidade fez-me saber ser a antiga estação de abastecimento de água da cidade, em época pra lá de recuada, mais ou menos no tempo em que o satanás era menino.

O que importava era a delícia daquele lugar, que ao mesmo tempo oferecia sol, sombra, praia e um banho delicioso naquelas águas tépidas e barrentas, ameaçadoras pela descomunal largura, pelo gigantismo de mar, pela fúria da correnteza e pelo antagonismo do remanso, a “puxar” para fora os mais hábeis nadadores, perigo de resto ignorado pela turma que, do alto das pedras, mergulhava n’água de ponta cabeça alheia aos eventuais perigos, concretos ou abstratos.

Foi amor à primeira visita. Tornei-me freqüentador daquele recanto acolhedor, teoricamente de domínio público porém sob o controle informal do mestre Laudelino, morador das ilhargas, sempre receptivo às nossas aventuras de todos os matizes, fossem elas consentidas ou não.

Perdi a conta das escapadelas para um bom banho durante o dia, vingança ao alcance da mão contra o abrasador verão tropical ou, já mais taludo, uma esticada a desoras com a lua por testemunha, para a delícia de uma seresta, quando a linha comprida lançada rio a dentro, técnica ensinada pelo saudoso mestre Ataulfo, aguardava apenas a fisgada da piramutaba ou da piracatinga, ato contínuo degustada num improvisado braseiro, acompanhada apenas de sal, limão, e farinha. Para deleite desse tamanho, a fome revelava-se perfeitamente prescindível.

Outras vezes bastava a caminhada. A gente ia a pé a partir da casa de comércio da família Hamoy, passava pela pedra grande, ultrapassava a “Cabeça-do-Padre” e continuava andando como quem demanda o sítio Geretepaua, sendo que, das ruínas da caixa-d’água pra lá, a praia ficava mais bela, numa curva sinuosa parecida com cintura de mulher, a areia mais fina a acariciar os pés e, num determinado ponto onde não mais se sentiam ameaçadas pela presença humana, a revoada de arirambas acasalando nos desvãos do barranco, num bailado colorido de encher os olhos, como que a demonstrar que a natureza nada mais é do que a fantástica obra do Criador, assinada sob pseudônimo.

Desse pedaço de paraíso tenho um poster gigantesco em minha sala, a deslumbrar quem se diz cosmopolita, presente do meu fraterno amigo de infância (prematuramente falecido) Carlos Antônio Barbosa da Silva, arquiteto e escritor de méritos, ele que foi verdadeiro “expert” em barreira, Pedra Grande, Porto de Cima, Paraná de Dona Rosa e, principalmente, em cativar novas e velhas amizades.

Se na cheia do Amazonas o rebojo das maretas em torno da “cabeça-do-padre” era de meter medo ao mais destemido dos mortais, pois ali a força d’água fazia qualquer remeiro tufar a veia do pescoço para impulsionar a canoa, nas vazantes a ameaça era sub-reptícia à sua própria quietude, simplesmente porque aquele local, mesmo no verão inclemente, nunca secava.

– É sucurijú, diziam os mais entendidos. Deve haver uma aí no fundo, de várias braças de comprimento.
– Que nada! Vai ver que é uma piraíba preconizavam outros; essa daí deve ser uma brutela, daquelas que engole uma pessoa inteirinha!

Não era à toa que a fina flor da molecada olhava para aquele diminuto lago com certo respeito. E para espancar o medo, quem se julgava mais esperto convidava o restante da cambada para pular n’água todos ao mesmo tempo, porque assim restava sempre a esperança de que o previsível ataque vindo das profundezas vitimasse sempre o outro. Isto sim é que se chama amizade!

Convivi com essa história de que aquele poço profundo que nem na mais severa estiagem secava, existente no sopé das ruínas da “Cabeça-do-Padre” era a casa do ameaçador sucuriju ou da devoradora piraíba, até que o velho Gregório, dedão do pé direito torado pela piranha caju, concebeu explicação nova e igualmente apavorante para aquele estranho fenômeno.

Na sua sapiência de caboclo nascido e criado naquelas barrancas, íntimo das crendices que povoam o imaginário amazônico, deu seu veredicto sem qualquer vacilo, migando seu tabaco de rolo, durante um bate papo de pescadores:

– É encante, pode ter certeza!

Apostava o velho canoeiro que se alguém se desse ao trabalho de uma permanente vigília no local, ainda acabaria por testemunhar o aparecimento de uma bela jovem, muito loura, trajada de branco, postada de pé sobrepairando as águas, tendo uma auréola de luz em torno da cabeça. Mas avisava que o preço dessa visão deslumbrante mostrava-se alto, porque a deidade era a dona daquele poço e somente iria aparecer para quem nela despertasse grande paixão, porém com o intento de levá-lo consigo para habitar as profundezas do rio. Nada menos que uma viagem sem retorno!

Pelo sim pelo não e ainda sob o impacto de tal aviso, a minha turma de amigos acautelou-se e para curtir as delícias de uma manhã de sol ou de uma noite de luar nas cálidas areias do Porto de Cima, nos arredores da “Cabeça-do-Padre” ia em numeroso grupo, cada qual se sentindo responsável por si e também pelo outro, numa espécie de síndrome de autodefesa, até que o próprio tempo encarregou-se de sepultar a lenda do encante e tudo voltou ao normal na vida daquela molecada, que era extremamente feliz na liberdade que tinha de ser ingênua – ou na ingenuidade que tinha por ser muito feliz!

Jovem loura, bela e muito branca sempre foi possível encontrar nas vizinhanças daquele concorrido local, porém, contrariando a lenda, não se tratava de encante. Certamente, puro encanto…

Tragédias houve por ali, estou bem lembrado, representadas pelos afogamentos ocorridos naquele pavoroso perau, porém nada que pudesse direta ou indiretamente ser imputado à sucuriju, à piraíba ou à menina dos cabelos dourados, se é que um dia algum deles realmente existiu.

Quem visita a “Cidade Presépio” e resolve apreciar as delícias do Restaurante Tucuruví, lá no alto do desfiladeiro, dispõe de um mirante privilegiado de onde se contempla, além do entorno da foz do Rio Trombetas, as ruínas da “Cabeça-do-Padre”, local que no real e no imaginário da minha geração ocupa lugar de singular destaque, salvo para os que lá nunca se aventuraram nas saudosas estripulias próprias da infância, hoje substituídas pela televisão no mormaço dos apartamentos ou em algum shopping dos muitos existentes em todas as cidades.

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* Advogado, é membro da Academia Paraense de Jornalismo, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTap). Escreve regularmente neste blog.


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Advogado e escritor, nasceu em Óbidos. É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Reside em Belém e escreve regularmente neste blog.

One Response to A lenda da “Cabeça do Padre”

  • Eh sempre muito bom ler tao belos contos narados por tao ilustre conterraneo.Celio vc me faz voltar em um tempo q tive a felicidade de viver.

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