
O Some (Sistema de Organização Modular de Ensino) no Pará está sob novo ataque. O objetivo é, como das vezes anteriores, extingui-lo. Desta vez o franco-atirador é o governo Helder Barbalho (MDB).
Para o mestre e doutorando, especialista no tema Luciandro Tássio Souza, a medida em curso no estado para pôr fim no projeto, substituindo-o por teleaulas, “é retrocesso”.
“O Some é uma política pública educacional respaldada por lei estadual. É uma política que nasceu da luta de classes e dos movimentos sociais e estudantis da região de Belém, tendo início na década de 1980. Deve ser respeitado, incentivado e expandido”, defende o pesquisador em entrevista ao JC.
“Mesmo com altos e baixos, limitações e a falta de ajuda, apoio ou incentivo do poder público, essa política do Some é, de certa forma, a mais válida para a região amazônica”.
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Doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento, da Universidade Federal do Oeste do Pará, Luciandro Souza debruça-se sobre o tema desde que concluiu o curso de mestrado.
Mais do isso: vivenciou a metodologia de aulas presenciais adotadas pelo projeto no Pará no município de Monte Alegre, de onde saltou para a universidade como egresso do Some.
“Não existe nada mais prazeroso do que se debruçar e realizar uma pesquisa voltada para o chão da escola de onde eu vim. Pesquisar sobre o Some foi e é gratificante. Um sentimento, um dever”, destacou, emocionado, na entrevista ao portal.
Leia a íntegra.
— Qual o foco para o Some que é dado no teu trabalho acadêmico?
Luciandro Souza: No âmbito do mestrado, sob orientação da professora doutora Tania Suely Azevedo Brasileiro, desenvolvi a pesquisa intitulada “Estudo de egressos do Sistema de Organização Modular de Ensino (Some) na Amazônia: análise da política pública para o acesso ano ensino superior em Santarém/PA”, cujo objetivo geral foi analisar o Some enquanto política pública e sua eficácia na inserção de seus egressos no ensino superior no contexto amazônico.
Com relação ao doutorado, desenvolvemos a pesquisa intitulada “Do Sistema de Organização Modular de Ensino (Some) à Universidade Federal do Oeste do Parpa (Ufopa): oportunidade, formação e sustentabilidade em contexto amazônico”, tendo como objetivo geral investigar os fatores que influenciam as escolhas acadêmicas e a permanência dos egressos do Some do polo de Santarém, que ingressaram na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) entre 2019 e 2023.
Ou seja, a pesquisa de doutorado é um desdobramento da dissertação. Todavia, o texto está ainda passando por reformulação, o que poderá ocorrer mudanças no título ou mesmo nos objetivos, mas a essência está centrada no Some e seus egressos na Ufopa e sua política de ação afirmativa.
— Faz sentido, sob o ponto de vista político-educacional, acabar com o Some, como pretende o governo Helder Barbalho, substituindo-o por tele-aulas?
Luciandro Souza: Não faz sentido algum, pois o Some é uma política pública educacional respaldada por lei estadual. É uma política que nasceu da luta de classes e dos movimentos sociais e estudantis da região de Belém, tendo início na década de 1980. O Some deve ser respeitado, incentivado e expandido.
Em relação à dissertação de mestrado, constatamos em uma das seções dedicadas à produção acadêmica sobre o Some — incluindo artigos, teses e dissertações — que existem poucos estudos específicos sobre o Some, especialmente sobre egressos. Verificamos que, até a conclusão do nosso estudo, havia apenas uma tese e 24 dissertações sobre o Some, incluindo a minha. No oeste do Pará, a minha dissertação é a quarta já produzida e a primeira a tratar especificamente do estudo de egressos na região.
No estudo documental realizado entre 2019 e 2023, identificamos que o Some formou 2.766 alunos em 64 localidades de Santarém. Para entender o destino desses egressos após a conclusão do ensino médio modular, investigamos os relatórios de ingresso de quatro instituições públicas e sem fins lucrativos (Ufopa, UEPA campus Santarém, IFPA campus Santarém e Iespes).
Analisando os relatórios de 2019 a 2023, constatamos que, dos 2.766 alunos formados pelo Some, apenas 118 ingressaram nas instituições mencionadas. Desses, 114 foram admitidos pela Ufopa: 76 em cursos de bacharelado e 38 em cursos de licenciatura. Observamos que, apesar do Some formar um número expressivo de alunos, apenas 118 ingressaram nas instituições estudadas. Ainda assim, esses resultados indicam que o Some, mesmo atendendo alunos em localidades remotas, é uma política que funciona e alcança êxito.
— Esses números tão pouco expressivos de alunos do Some que alcançam a universidade não depõe contra o projeto?
Luciandro Souza: Acredito veementemente que não. Insisto em dizer que esta política possui um quadro de profissionais extremamente capacitados, uma vez que o ensino presencial é de suma importância para a formação desses novos alunos.
Mesmo com altos e baixos, limitações e a falta de ajuda, apoio ou incentivo do poder público, essa política é, de certa forma, a mais válida para a região amazônica, que apresenta uma geografia bastante diversificada. Não pode ser tratada ou inviabilizada de forma tão pejorativa.
O Some tem uma história linda. Mesmo sendo ofertado por disciplinas blocadas em módulos, é uma modalidade oportuna que apresenta resultados em todo o Pará, não apenas em Santarém e arredores.
Todos os anos, vê-se alunos dessa política ingressarem no ensino superior público e/ou técnico. Observar que esse pequeno quantitativo adentrou nas instituições durante o período de estudo evidencia que a política pública funciona. O que falta mesmo é incentivo, apoio, visibilidade, atratividade e uma política dentro das universidades que ampare os egressos/ingressantes, assim como existe na Ufopa a política de cotas para indígenas e quilombolas. Então, por que não uma política para os alunos ribeirinhos, assentados e outros?
— O Some não tem um custo-benefício social muito baixo, que poderia ter um salto com adoção de um novo modelo pedagógico, centrado no EAD (Ensino a Distância), que justificaria uma mudança no atual projeto?
Luciandro Souza: Inserir recursos tecnológicos de ponta nos polos é válido, oportuno e necessário. No entanto, a geografia da Amazônia carece de estudos que possam, a partir destes, oportunizar a todos. Substituir essa política pela presença de um profissional a distância, em detrimento de um profissional em sala cotidianamente, considero um retrocesso.
— Na Amazônia, o Pará é o único que possui Some? Como outros estados amazônicos trabalham para equacionar esse problema educacional típico da região?
Luciandro Souza: Não, o Pará não é o único que adota esse modelo pedagógico especial. O estado do Amapá também possui o Some. Essa política também vigora por lá. Com relação aos demais estados brasileiros, acredito que cada um possui uma particularidade perante a forma de atendimento ao educandário, principalmente, nos interiores. No Pará, como o Some é uma política pública educacional do campo, é uma das modalidades adotadas por aqui.
— O Some do Amapá se diferencia do Pará em que aspectos?
Luciandro Souza: O meu estudo se concentrou em Santarém, mesmo tecendo uma linha do tempo do Some em todo o Pará. Mas acredito veementemente que não há diferença entre o Some do Pará e do Amapá. Não estudei com profundidade o Some amapaense, portanto, não posso afirmar se segue a mesma linha, a mesma matriz, a mesma estrutura ou se sofreu adaptações no formato.
— Nesse teu estudo acadêmico sobre o Some no Pará o que mais lhe chamou atenção sobre o projeto e que boa parte da sociedade civil paraense desconhece?
Luciandro Souza: Como egresso do Some de Monte Alegre, não existe não mais prazeroso do que se debruçar e realizar uma pesquisa voltada para o chão da escola de onde eu vim. Pesquisar sobre o Some foi e é gratificante. Um sentimento, um dever.
Com relação ao desconhecimento do Some, acredito que como é uma política pública educacional do campo e esta é inviabilizada e não é de hoje, de certa forma, um incentivo, uma atratividade desta para a sociedade paraense seria fundamental, pois nesta política há trabalhos super interessantes, há produções, há profissionais capacitados e atuante. É uma política que dá certo, apesar das adversidades que perpassa, assim como outras também se defrontam.
Quem é
Doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento, da Universidade Federal do Oeste do Pará, Luciandro Tássio Souza fez mestrado em Sociedade, Ambiente e Qualidade de Vida (Ufopa, 2022-2024), graduação em licenciatura em letras (português e literaturas da língua portuguesa, pela Universidade Luterana do Brasil (2014-2017), além de graduação em licenciatura em informática educacional (Ufopa, 2018-2022).
Assim como graduação em licenciatura em pedagogia, pelo Centro Universitário Internacional (2023-2024).Tem especialização em letras (português e literatura), pela Faculdade Venda Nova do Imigrante (2019-2020), e ainda em educação especial, inclusiva e libras, pela Faculdade Estratego (2021-2022).
É também especialista em tecnologias digitais e educação a distância, pela Faculdade Estratego, (2023-2023) e em gestão educacional e docência no ensino básico e superior, pela Faculdade Estratego (2023-2023).
É membro de vários grupos de pesquisa, incluindo o NEPECGIM – Núcleo de Ensino e Pesquisa sobre Espaço e Currículo de Geografia e Imagem e Multiculturalismo, desde 2020, e, do Grupo de Pesquisa Práxis Ufopa, desde 2022, sob a coordenação da professora doutora Tania Suely Azevedo Brasileiro, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).
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Que governo é esse, que sem consultar as comunidades tradicionais, quer substituir uma política pública de 44 anos de existência como o SOME, por um ensino no formato EAD, desrespeitando comunidades quilombolas, indígenas e ribeirinhas e toda as suas peculiaridades. Uma TV não tem empatia, não interage e nem dialoga com os estudantes, o que faz do professor uma peça fundamental para um ensino/aprendizagem de qualidade que ajude nossos estudantes a serem cidadãos conhecedores de seus direitos e deveres.
No Pará, o SOME atende a 140 municípios, no campo, nas águas, aldeias, quilombos, planaltos e planícies, um dos modelos educacionais que mais incluiu pessoas na Amazônia, sendo inclusive objeto de pesquisa de inúmeros Mestrados e Doutorados (inclusive a minha dissertação de Mestrado em Ensino de Física pela UFOPA) por seus resultados exitosos na educação e formação cidadã de estudantes, que realizou e realiza sonhos até hoje.
Em inúmeros casos, o SOME é a unica presença do Estado nessas comunidades. Assim, é inadmissível que um estado que se propõe a promover uma COP ataque frontalmente a educação dos verdadeiros defensores da floresta.
Não tem cabimento as teleaulas, sou um ex-aluno do some, e falo que as teleaulas não é uma boa ideia pra se trabalhar nas regiões. Se o governador ver às escolas, onde funciona o SOME, ele vai perceber que nem TODAs as escolas tem estrutura adequada para isso…! Cadê a educação, aí ? Um computador só vai explicar os assuntos, cadê a preparação desse aluno, pra ele cursar uma universidade ?
Digo NÃO as teleaulas.
Não tem cabimento as teleaulas, sou um ex-aluno do some, e falo que as teleaulas não é uma boa ideia pra se trabalhar nas regiões. Se o governador ver às escolas, onde funciona o SOME, ele vai perceber que nem TODAs as escolas tem estrutura adequada para isso…! Cadê a educação, aí ? Um computador só vai explicar os assuntos, cadê a preparação desse aluno, pra ele cursar uma universidade ?
Digo NÃO as teleaulas.
Se o governo disponibilizar Internet e computadores pros alunos, porque não estudo a distância, na minha opinião o estudo a distância também é muito bom bastante disciplina e ter vontade de aprender.
Tem muito professor que ganha horrores no SOME e coitado dos alunos, retrocesso é abrir uma gramática e enganar milhares de alunos nessas comunidades.
Apoiado a decisão, a prova das aulas on line estiveram presentes na pandemia e teve uma crescente no país, é hora de mudar, tá passando do tempo.