
O Brasil amarga hoje a 133ª posição entre 183 países no ranking mundial de representação feminina na política. Embora o senso comum muitas vezes questione o interesse feminino pelos espaços de poder, a raiz do problema é institucional: as próprias legendas partidárias dificultam o acesso das mulheres aos recursos de campanha.
A constatação é da cientista política paraense Karoline Cavalcante em tese defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp (Universidade de Campinas), de São Paulo.
Ao esmiuçar os repasses das eleições de 2018 e 2022, a pesquisa revela como as regras do jogo são manipuladas internamente para manter o favoritismo das candidaturas masculinas.
A partir de 2018, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) garantiu uma cota mínima de 30% do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para candidatas. Segundo o Jornal da Unicamp, essa decisão forçou a inclusão, mas não apagou a disparidade estrutural.
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Karoline Cavalcante descobriu que o dinheiro destinado às mulheres costuma ser pulverizado entre várias candidatas para cumprir a lei, enquanto a verba masculina é estrategicamente concentrada em poucos nomes escolhidos pela cúpula partidária, garantindo a eles alta competitividade nas urnas.
A desigualdade é resumida pela pesquisadora com uma metáfora doméstica: “É como se eu tivesse um bolo em casa e distribuísse uma fatia média para as minhas filhas e uma fatia mais robusta para os meus filhos”.
Donos do dinheiro
Nos bastidores das agremiações, as decisões sobre as cifras milionárias continuam restritas ao comando masculino. Após entrevistar 11 dirigentes partidárias tanto da direita quanto da esquerda, a pesquisadora paraense apontou que os homens se portam como verdadeiros “donos do dinheiro”.
As mulheres relatam que até existem fóruns para ouvi-las, mas elas não têm poder de decisão real. Em um dos relatos reveladores de 2018, uma dirigente expôs que os homens discutiam a totalidade do fundo a portas fechadas e ela só era autorizada a entrar na sala quando o assunto passava a ser exclusivamente a verba feminina.
Essa falta de autonomia reflete também no uso dos 5% do Fundo Partidário que deveriam ser aplicados estritamente na promoção de lideranças femininas.
Força do Judiciário contra fraudes
O cenário só tem mudado graças às imposições da Justiça Eleitoral. O histórico escândalo das candidaturas laranjas de 2018 — quando partidos lançaram mulheres em candidaturas de fachada apenas para cumprir a cota — ilustra as constantes tentativas das siglas de burlar a equidade de gênero.
Forçados por multas e fiscalizações do TSE, os dirigentes se viram obrigados a eleger mulheres para não perderem o acesso ao financiamento público.
>> Leia também: TRE vai julgar recurso que cassou 2 vereadores em Prainha por fraude à cota de gênero e ainda: TRE mantém decisão da Justiça de Juruti, e cassa vereador por fraude à cota de gênero.
O avanço também pôde ser sentido nas executivas nacionais: se em 2018 cinco grandes siglas não tinham nenhuma mulher em sua direção (PSC, Avante, PSD, PTC e PL), em 2022 todos os partidos passaram a contar com ao menos uma representante nesses espaços de poder.
A pesquisadora conclui que o maior desafio para as mulheres ainda é furar a bolha do primeiro mandato, já que candidatas já eleitas costumam passar a receber recursos em patamares equivalentes aos dos colegas homens nas disputas seguintes.
Acesse a leitura na íntegra da matéria original no portal Unicamp: Partidos dificultam a participação feminina na política.
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