Os Zo’é não vivem numa “redoma”

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Foto: Uhuaia
Índios Zo'e - Foto: Uhuaia.com

Da indigenista e comunicóloga Rosa Cartagenes, sobre o post (e comentários) Funai abandona índios Zo’e, denuncia TV:

Caro Jeso,

Decidi me pronunciar unicamente porque citada, assim como o AMAZOÉ -Apoio Mobilizado ao Povo Zo’é e Outras Etnias – associação civil a qual coordeno – de modo descontextualizado e desinformado aqui em sua “esfera”, em postagens anteriores.

No entanto, reitero que minhas considerações são pessoais, enquanto cidadã e indigenista, não representando eventuais posições da FUNAI – órgão oficial com o qual colaboro, mas do qual não faço parte.

Reportando-me à informação oficial, esclareço que o número de membros do povo Zo’é que estiveram recentemente nos Campos Gerais do Erepecurú foi 96 indivíduos, e não 139 – este último “dado”, divulgado pelos referidos “castanheiros” envolvidos.

Gostaria de colocar como premissa inicial o fato, antropologicamente bastante estudado, que as sociedades Tupi são por natureza “sociedades andarilhas” – prática social que alguns chamam de “nomadismo”, “perambulação”, “deambulação” entre vários outros rótulos (rotular é uma obsessão da nossa sociedade). Tal caminhar constante apresenta vários contextos: sociais, econômicos, cosmológicos, mas certamente relacionados ao perfil de auto-sustentação dos povos chamados “caçadores-coletores”.

E os Zo’é são caçadores-coletores-agricultores, de cultura Tupi-Guaraní. Desnecessário discorrer aqui sobre a importância desta auto-sustentação, já que a autonomia produtivo-econômica de qualquer grupamento humano é a base de sua independência em muitos aspectos. Quem conhece ao vivo a eficiência, a tecnologia primorosa e a justiça ecológica de um arco e flecha Tupi jamais questionaria o desnecessário e danoso de uma arma-de-fogo “civilizada” num contexto de vida coletiva auto-sustentável.

Afirmo, alicerçada num convívio de muitos anos, que os Zo’é sempre foram livres em suas andanças, e mesmo estimulados a estas: isto tem sido fator primordial na recomposição de sua de vitalidade cultural e retomada de suas áreas de ocupação geográfica tradicionais.

É em seu livre caminhar e abrir novos caminhos que ocorre a plenitude da vida Zo’é – caçadas, pescarias, namoros, casamentos, alianças , evitações, vida cerimonial. Ao contrário, na época imediatamente após o “contato” promovido pela MNTB (Missão Novas Tribos do Brasil, anos 80), os Zo’é foram progressivamente sedentarizados no entorno da base da referida Missão, atraídos pelas benesses materiais imediatas ali disponibilizadas – roupas, panelas , facas e objetos afins – justamente para mantê-los agregados à influência missionária. Não é uma dedução: é histórico comprovável, e tratava-se de prática política usual de todas as “agências” (inclusive governamentais) que objetivavam o “contato” com etnias em isolamento.

Sedentarizados e congregados, “coisa” totalmente fora de seus padrões tradicionais de ocupação e dispersão territorial, ocorreu a concentração de incidência malárica, tornando-a endêmica. Não se trata de uma acusação: é comportamento epidemiológico cientificamente estabelecido e comprovado em relação à malária e outras endemias. Concentração demográfica é um dos fatores preponderantes para o ciclo de infecção-contágio-propagação de patologias. Adensamento de contato físico e contigüidade geográfica promovem difusão de doenças. Em doenças transmitidas por vetores (no caso, o carapanã), concentração populacional também atrai concentração vetorial: gente= fonte alimentar do transmissor. E soluções dependem de boas práticas em vigilância sanitária, rigorosas e eficazes, bastante dificultadas num contexto de aldeia e floresta.

O discurso dos Zo’é como “prisioneiros” tem sido tendenciosamente baseado em perspectivas proselitistas – à medida que religiosos (de quaisquer credos) são impedidos formalmente pela FUNAI de adentrar a territórios indígenas de povos ou frações consideradas isoladas ou de recente contato. Missionários repetem exaustivamente na mídia que os Zo’é foram “expostos ao mundo” e “isolados do acesso ao evangelho”. E esse eterno rótulo de “isolados” para os Zo’é é de uma improcedência sociológica abissal: como se alguma sociedade humana ficasse cristalizada em tempos ou geografias.

No início de 2010, a FUNAI redimensionou a CGIIRC – Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato, reiterando o reconhecimento público de que as sociedades indígenas, como todas as sociedades humanas, estão sempre e em constante movimento, e as transições e transformações em curso no seio delas não cabem meramente num rótulo de “Isolados”.

Há vários anos os Zo’é são reconhecidos juridicamente como “sociedade indígena de contato recente”. E isto é uma superação jurídica fantástica, pois antes da Constituição atual, a única legislação a respeito – o Estatuto do Índio – só “permitia” 03 categorizações para os “índios” (“índio” também é um rótulo, e inventado por nós): “isolados”, “em vias de integração” e “integrados”.

Qualquer pessoa com mínima sensibilidade social sabe que no Brasil não existe nenhum povo indígena realmente “integrado”, mas existem muitíssimos povos e indivíduos indígenas em processo de franca desintegração! “Integração à comunhão nacional” foi um sonho positivista dos tempos do General Rondon, baseado numa perspectiva evolucionista que, pedagogicamente, povos “selvagens” iriam se “civilizando” até tornarem-se bons e pacatos trabalhadores brasileiros.

Numa sociedade discriminatória e espoliadora, a única possibilidade de integração efetiva do índio é padronizá-lo nos moldes ocidentais de tal forma que destrua toda sua essência cultural e humana diversa. E entregá-lo às camadas mais desvalidas e vilipendiadas da população, aquelas que as estatísticas estabelecem como “abaixo da linha da pobreza”. Um exemplo cabal são os povos Guaraní (de mesma família lingüístico-cultural que os Zo’é), os quais, mesmo após 500 anos de relacionamento com a sociedade nacional, mesmo vestidos, alfabetizados, “educados” e supostamente “integrados ao mercado de trabalho”, continuam massacrados pela jagunçada do latifúndio, escravizados e sob uma violência de direitos tamanha que têm sido classificados pela Comissão de Direitos Humanos da ONU como “sob ameaça permanente de genocídio”*.

Há comunidades Guarani com até 10 igrejas de “seitas evangélicas” diferentes, além da igreja católica, loteando a influência religiosa em meio a sua miséria. É o mais alto índice de suicídio proporcional entre todas as populações do planeta – e os suicídios acontecem majoritariamente entre adolescentes e jovens.

Certamente os Zo’é nunca foram impedidos de saírem de seu território: são homens livres! Lembremos, inclusive, que quem inventou que “seu território” dispõe dos limites físicos ora estabelecidos – no interflúvio dos rios Cuminapanema, Erepecurú e Urucuriana, municípios de Óbidos e Alenquer- também fomos “nós”, ocidentais, e não eles. Pelo menos desde o séc.XVIII há registros etnográficos de intenso trânsito indígena nos chamados Campos Gerais do Erepecurú. Os “brancos” se estabeleceram por lá bem depois disto.

O conceito geográfico-cosmológico dos Zo’é a respeito de limites físicos é muito interessante: o mundo tem “bordas”, mas estas bordas se ampliam na medida em que forem conhecidas…É um belíssimo conceito de “universo em expansão” que seria admirado por qualquer físico e astrônomo pensante! As sociedades Tupí trazem em si esta maravilhosa concepção humana de desejo e amplitude permanente de conhecimento.

Na última década, sobretudo em função da acelerada ocupação e expansão de modelos econômicos predatórios no noroeste do Pará (principalmente monocultura da soja e agropecuária extensiva), os Zo’é têm sido, solidariamente, aconselhados a não ultrapassarem as “bordas fixas” que inventamos para eles. O motivo é evidente: fora de “seu território”, ficam muito mais expostos a inúmeros riscos – do contágio de doenças graves para as quais ainda não desenvolveram imunidade, à exploração de mercenários e aventureiros que costumam integrar as frentes de expansão em território amazônico: garimpeiros, madeireiros, “gateiros”, extrativistas ilegais, traficantes e, inclusive, fanáticos religiosos – alguns dos quais capazes de qualquer tipo de estratégia ou aliança escusa para propagarem sua “fé”.

Tradicionalmente afáveis e cordiais, os Zo’é “normalmente” (mas isto está mudando) conseguem ser simpáticos com qualquer pessoa que lhes apareça no caminho.

O evento recente dos Zo’é nos Campos Gerais assume um triste contorno não pela distância percorrida ou pelo inusitado quantitativo – sabemos de indivíduos e grupos que já “andaram” bem mais longe. Mas por ser resultante de mais um incidente de manipulação direta da credulidade e “ansiedades” de um povo pelos interesses anti-indígenas na região.

Missionários jamais virão a público dizê-lo, mas desde sua expulsão da T.I. têm patrocinado e efetivado diversas invasões ao território Zo’é, sempre com o intuito de aliciá-los e atraí-los para “fora” – onde supostamente poderiam, à margem da lei, “evangelizá-los” à vontade. Para invadirem a T.I., utilizam exploradores regionais envolvidos com todo tipo de ilicitude na região.

Nos últimos anos, têm manipulado como pontas-de-lança indígenas cristianizados de outras etnias do entorno, como os Wai-Wai e os Tiryió, para adentrarem furtivamente aos aldeamentos Zo’é, levando “presentes” (os de sempre: roupas usadas, panelas, plásticos, “comida de branco”, espingardas.. e inclusive algumas epidemias) e sempre os convidando “para fora”. Várias denúncias e documentos comprovatórios a respeito foram ao longo dos últimos anos arrolados junto ao MPF/Procuradoria Geral da República, justamente porque tais “visitas”, totalmente manipuladas, têm trazido aos Zo’é doenças, desequilíbrios políticos internos, estresse social, insegurança e até mesmo mortes. Há muitos anos o MPF acompanha o trabalho junto aos Zo’é, e vários procuradores da República se fazem presentes, avaliando e avalizando a positiva ação governamental ali desenvolvida.

Infelizmente, tudo o que temos é a palavra dos Zo’é contando sua versão do evento como “prova testemunhal”. Mas basta assistir aquelas imagens – uma turba de homens, mulheres e crianças famintos, estropiados, assustados, “travestidos” com andrajos de última hora “gentilmente” doados pelos “castanheiros cineastas”, claramente induzidos à repetição do remoque “Funai não dá…João não dá”… Quanta manipulação e desrespeito com um povo. Nada da beleza, da serenidade e da vitalidade do dia a dia. “De quebra”, a mediocridade da reportagem da TV Atalaia (retransmissora da Record, claro) repetindo que os Zo’é eram índios “aculturados” porque vestidos. Deplorável. E sabe-se que pelo menos um dos referidos “trabalhadores da castanha” ali presentes é relacionado desde os anos 80 com missionários envolvidos no “contato” dos Zo’é, e já foi processado pelo MPF como invasor de terra indígena e aliciador.

A história e a sobrevivência da sociedade Zo’é são questões muito complexas para se resumirem em espaços midiáticos de blogsferas ou do sensacionalismo de TVs. A atuação, inédita, que a FUNAI e sua equipe têm desenvolvido ali não é referenciada em “antropólogos de meia-tigela” ou “jardins antropológicos” de ”índios pobres”: os Zo’é são, ainda, uma sociedade da fartura, da saúde, sem órfãos, sem caciques, sem patrões. Colocar os Zo’é como índios oprimidos, com ou sem roupa, revela total desconhecimento de sua cultura, seu cotidiano e do trabalho árduo e dedicado de mais de uma década que devolveu aos Zo’é sua saúde, sua integridade cultural, seu território tradicional, sua vida em plenitude.

Como diz “A Palavra”: a boa árvore se conhece por seus bons frutos..pelos frutos os conhecereis. Dispor dos índices de saúde apresentados pelo Dr.Erik e atestados por todos os profissionais que ali já estiveram (médicos, sanitaristas, advogados, jornalistas, ambientalistas, documentaristas; “turistas”, nunca) só demonstra um caminho muito positivo de esperança para um povo que poderia estar condenado ao genocídio (como tantos outros) desde seu virtual “contato”. Os Zo’é não têm um quadro excelente de saúde apenas por disporem de atendimento médico exemplar, mas sobretudo porque têm respeitados seu modo de ser e de viver, seus parâmetros sociais, seu pensamento cosmológico e seu conhecimento ancestral, sua diversidade cultural e humana. E temos muito a aprender com eles.

Como toda sociedade humana e diversa, os Zo’é têm seus próprios ritmos, desejos, questionamentos, interpretações e possibilidades. Atualmente, mais de 75% de sua população tem menos de 25 anos – massa explosiva e “hormonal”, com a ânsia legítima de tudo ver, tudo conhecer, tudo querer. As pressões externas e internas têm sido muitas e crescentes, precipitando mudanças, crises e indecisões coletivas. Isto é previsível, histórico e faz parte das relações humanas e político-sociais.

Não existe “redoma”, e os Zo’é estão, e sempre estiveram, em constante transformação. Evidentemente o órgão indigenista oficial e todos os agentes sociais envolvidos têm de repensar, reelaborar e inovar permanentemente em suas ações para relacionamentos interétnicos mais justos e profícuos. Este é um processo constante, e como tudo que é humano, dinâmico.

Certamente, muito há a se refletir, analisar e redimensionar. E muito há, ainda, a se proteger. Não se trata de discutir crenças ou reportar acusações, o que é contraproducente. Trata-se da salvaguarda, inclusive física, de uma minoria étnica em clara situação de desvantagem e vulnerabilidade diante da fagocitose de amplos segmentos que ambicionam seus corpos físicos, terras, recursos naturais, patrimônio cultural e até mesmo suas “almas”.

Aos Zo’é, o pleno direito de serem Zo’é, e o amparo legal do Estado para que este povo construa seu futuro em segurança, com um tempo necessário para o desenvolver de sua própria criticidade e seus caminhos possíveis, sem terem de se transmutar em “mais um” na vala comum dos párias sociais.

Que a sociedade paraense reflita e se informe um pouco mais sobre as graves ameaças aos últimos povos livres da face da Terra, e ao menos remotamente perceba o privilégio de abrigar (e defender) em seu seio um povo único, belo, e ainda não canibalizado pela padronização global.

Atenciosamente,
Rosa Cartagenes**

*Sobre o genocídio Guaraní: https://assets.survival-international.org/documents/208/Survival_Guarani_Report_Portuguese-2.pdf . Sugiro também o ótimo e premiado filme “Terra Vermelha” (La Terra Degli Uomini Rossi/Birdwatchers) para reflexão a respeito – até na videolocadora Fox em Santarém, tem.

**Indigenista, inspetora sanitária (SES-DF) e comunicóloga (UFRJ). Sou colaboradora voluntária junto aos Zo’é desde 1998. Coordeno a associação civil AMAZOÉ, que é tão somente um pequeno grupo de profissionais e amigos que conhecem, respeitam e admiram o povo Zo’é, igualmente comprometidos com o apoio integral a este povo. Enquanto comunicadora, dedico-me à difusão das questões relacionadas à sobrevivência dos últimos povos indígenas autônomos no planeta: https://www.amazoe.org.br/noticiasgerais1.html

Para saber mais sobre os Zo’é:
https://www.amazoe.org.br/textoreferencia/os_zoe_e_a_nova_marcha_para_o_oeste_pib.pdf
https://www.amazoe.org.br/textoreferencia/ensaio_livro_tupi.pdf

Permaneço disponível para informações adicionais em: amazoe@amazoe.org.br


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12 Responses to Os Zo’é não vivem numa “redoma”

  • Num tempo em que organizações como a ONU e o Banco Mundial reconhecem que a situação indígena internacional é de extrema pobreza, discriminação e violação de direitos, reiterar a denúncia desta situação não é preconceito: é denúncia legitimada pelos fatos e pela História da Sociedade Brasileira (https://uniaocampocidadeefloresta.wordpress.com/2010/12/22/povos-indigenas-sao-os-mais-pobres-do-mundo-diz-onu/). Em todos os lugares do mundo, povos indígenas e tribais exerceram sua liberdade plena enquanto foram senhores de suas terras, seus recursos naturais e sua cultura. Posicionar-se a favor da continuidade e integridade da cultura Zo’é em momento algum se constitui como apologia “à idéia que nada precisa mudar com a condição atual dos zo´e”. A visita do então Ministro Tarso Genro à T. I. Zoé, acompanhado pelo presidente da FUNAI e pelo Secretário de Direitos Humanos apenas ratifica uma proposta de trabalho ancorada no princípio jurídico da precaução, que preconiza que a situação de vulnerabilidade de povos indígenas isolados e de recente contato é específica, e precisa de políticas públicas de monitoramento e proteção prévia especiais. A liberdade destes povos existe enquanto vivem plenamente suas culturas, culturas estas que segmentos diversos insistem em classificar como mero “primitivismo”- este sim, discurso pejorativo e discriminatório. Como afirma o conhecido líder indígena Marcos Terena:
    “A pobreza para os povos indígenas nunca existiu. Ela começa a aparecer no momento em que o colonizador leva em conta o potencial energético, o potencial comercial de cada região indígena. Nós queremos mostrar que é possível construir aquilo que a modernidade chama de mundo melhor, através de um compromisso com o futuro, onde os recursos financeiros não sejam a base da moeda da vida, mas seja a base também de um tipo de mundo que queremos deixar para as novas gerações.”
    O papel do Estado neste processo de monitoramento precisa se constituir como salvaguarda efetiva diante de ameaças efetivas. Não há mudança de foco nas reflexões da indigenista, visto que o MPF/PA há anos registra (especificamente, desde 1998) invasões sistemáticas ao território Zo’é, conduzidas com feições de aliciamento – com fins econômicos e igualmente com finalidades religiosas. Historicamente, desde os anos 50, particularmente a MEVA –Missão Evangélica da Amazônia, que sucedeu a americana UFM (Unevangelized Fields Mission, anos 40) entre os índios Uai-Uai, se faz presente na região, e na ausência do Estado dominou amplas frações dos subgrupos Karib, que hoje são manipulados ideologicamente para “evangelizarem” outros grupos indígenas – entre eles, os Zoé. Este tipo de assédio, onde a doação ou barganha de mercadorias são acompanhadas de doutrinação ideológica, tem sido prática corrente na região, resultando na “conversão” de diversos grupos entre os Wayana, Apalai, Katxuyana, Tunayana, Tiriós, entre tantos outros (vide artigo da antropóloga em https://pib.socioambiental.org/pt/povo/waiwai/1138). O “foco” mais recente (última década) tem sido os Zoé, e mesmo os índios Uai-Uai não fazem segredo que têm recebido treinamento específico, inclusive lingüístico, para se acercarem dos Zo’é. Grupos de Tiriós, entre os quais atuam religiosos similares (inclusive ex e atuais membros da MNTB-Missão Novas Tribos do Brasil, da qual, aliás, o Sr.Silas de Lima fez, ou faz parte, dedicado à catequese em língua dos índios Waiampí, do AP).
    Tal assédio contínuo não passa despercebido do MPF, nem tão pouco a exploradores regionais imiscuídos em tais equipes supostamente “evangelizadoras”. É um quadro de pressões externas que passam longe de qualquer possibilidade de “consentimento livre, prévio e informado”(como dita a Declaração de Direitos das Populações Indígenas da OIT), por parte da população Zoé, cujas categorias interpretativas relacionadas ao mundo externo certamente ainda são incipientes e estão em permanente construção. Ao Estado cabe a responsabilidade, exclusiva, de conduzir relações de contato, quando estritamente necessários, conforme o Sistema de Proteção ao Índios Isolado governamental, respeitando inúmeros casos de opção pelo isolamento de sociedades ou frações remanescentes destas, traumatizadas pela violência histórica e extrema de contatos anteriores. E ao Estado também cabe intervir em relacionamentos assimétricos, desvantajosos e danosos à integridade física e social de qualquer povo indígena, particularmente em se tratando daqueles qualificados como em isolamento ou de recente contato, não por uma suposta e preconceituosa “incapacidade” dos indígenas, mas por graus diversos e diferenciados de vulnerabilidade, tanto física quanto social e econômica, que todos os que possuem convívio efetivo e respeitoso com populações indígenas são capazes de constatar. O papel de conselheiro ou tutor, no caso específico de tais populações, não se confunde com paternalismo ou manipulação, sendo a proteção exemplar que é responsabilidade constitucional do Estado no trato de suas parcelas sociais mais desprotegidas, e que tem sido desenvolvida de forma eficiente e louvável pela FUNAI entre os Zo’é. O monitoramento de mudanças sociais internas e o atendimento e avaliação de demandas e anseios desta população indígena também precisam ser amparadas pelo Estado, através da FUNAI e Ministério da Justiça, dando continuidade a políticas de prevenção e proteção aos povos indígenas isolados e de recente contato que são reconhecidas internacionalmente como pioneiras, e entre as quais o trabalho da Frente Cuminapanema entre os Zoé tem se destacado como referência na última década.

  • Faço uma reflexão ao artigo da indigenista Rosa Cartagenes. Ela antecipa em dizer que o que escreve é sua opinião pessoal e não representando a Funai. Percebe-se que ela pensa diferente da política oficial. Ela não mostra apoio à idéia do Ministro da Justiça preparar os zo’e para ‘contatos e relações exteriores’ como eles desejam, evitando a continuidade da situação atual: “para que isso aqui não seja uma vitrine do exótico.” https://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090628/not_imp394203,0.php “O Estado de S Paulo’ Felipe Recondo, convidado da Funai
    Também mostra que escreve para tentar minimizar o impacto negativo que a reportagem da TV Araguaia pode causar na ‘boa imagem’ que ‘construíram’ sobre seu trabalho entre os Zo´e. Tanto assim que procura desviar o foco da reportagem atacando outros, principalmente os missionários. Suas declarações carecem de provas, chega ao ponto de tentar provar acusações usando conceitos da epistemologia científica….
    É respeitável sua opinião sobre o uso tradicional do arco e flexa para caça e que os zo´es não dependem de armas de fogo para caça nas suas atuais condições de vida,
    Rosa faz apologia com frases de efeito retórico rejeitando (senão discriminando) os outros índios em contato permanente com a sociedade: ‘nenhum povo foi ‘integrado’ mas muitíssimos povos estão ‘desintegrados’ (rotulando-os todos de ‘párias sociais’ ou ‘canibalizado pela padronização global’ que vivem ‘abaixo da linha da pobreza’ Faz contraste a isso enaltecendo os zo´e como ‘um povo único, belo’ e um dos ‘últimos povos livres da face da Terra’ e um ‘dos últimos povos indígenas autônomos no planeta’.
    Ora, qualquer pessoa com conhecimento de ambas as situações percebe o absurdo dessas declarações extremas! Será que sutilmente ela está tentando ganhar apoio à idéia que nada precisa mudar com a condição atual dos zo´e? Também vale perguntar o que os outros povos, que vivem bem hoje em contato permanente com a sociedade, pensam desse afrontoso conceito? É preconceituoso e pejorativo e qualquer pessoa que se considera livre e autônoma poderia se sentir ofendida com essas declarações…
    Tenta passar a imagem de uma vida quase paradisíaca dos zo´e mas revela de forma bem superficial que existem questionamentos, conflitos e pressões internas atribuindo-os aos anseios da população jovem ou aos contatos com visitantes.
    Numa primeira leitura seu texto ostenta ser uma apologia irrefutável ao trabalho que desenvolvem entre os Zo´e. Porém, analisando mais se percebe a sofismática intenção de defender o que fazem. Como defesa usa o ataque contra outros com o intuito de mudar o foco do leitor. Assim, os missionários, os ‘antropólogos de meia tijela’, índios guaranis, outros índios ‘descaracterizados’ (chamando-os de párias sociais ou canibalizado pela padronização global) e também acusa a população ião dos campos gerais a quem reputa como manipuladores dos zo´e.
    A propósito, será que essas pessoas foram à aldeia manipular os Zo´e ou foram eles que saíram numa comitiva tão grande de ‘embaixadores’ para reforçar seu desejo: queremos conhecer a sociedade envolvente? Fato que foi exposto e ficou registrado na reportagem sobe a visita do Ministro da Justiça em junho deste ano.
    Vejam bem: mais de 1/3 da população segundo a articulista ou mais da metade segundo a reportagem, incluindo mulheres e crianças para apelar por melhor tratamento da FUNAI. Isso não é comum aos povos tupi-guarani que enviam alguns representantes nestes casos. Será que se cansaram de ‘questionar’ a equipe que atua em sua terra e quiseram mostrar seu descontentamento geral com uma comitiva tão grande? A pequena fala dos zo´e reforça o que foi dito em junho e, por si só, refuta o texto da indigenista.
    A sua principal tese é evidenciar que os Zo’es são livres. É tema recorrente, três vezes mencionado no seu discurso. Será que eles se consideram livres?
    – livres se o texto diz que foram ‘aconselhados’ (pode-se ler ‘manipulados’ ) a respeitar as ‘bordas fixas’ que os brancos inventaram para eles… Pode ser que essas ’bordas fixas’ pareçam aos zo´es uma frontal violação do seu conceito de ‘bordas que se ampliam’ com o conhecimento, não é?
    – livres se tudo indica que foram interrogados pela equipe para saber quantos e quem estava presente nos campos gerais… (Isso fica implícito no fato da autora contestar o número de pessoas corrigindo-o para 96)
    – livres se alguém disse para o jornalista convidado de O Estado que ‘pretendem prepará-los durante dez anos’ para permitir sua aproximação com outras pessoas…
    Que liberdade é essa vigiada, policiada, manipulada por pessoas com visão ‘etica’, julgando-os e interferindo no comportamento deles?
    A autora não é da Funai, mas seu artigo revela que recebeu influência de ‘indigenistas’ com o espírito de controle sobre os nativos. Isso está no DNA da Funai sucessora do SPI. É o espírito paternalista que o órgão nunca perdeu, seja com ‘presentes de contato’ como referiu no texto ou pior: o paternalismo ideológico sobre o povo, tratando-os como crianças incapazes…

  • O texto de Rosa é muito lúcido e esclarecedor sobre a situação atual dos Zo’é. Do ponto de vista antropológico, é uma luz sobre o conceito de nomadismo e sobre o que significa uma sociedade – organizada em torno da caça e da pesca, e da pequena agricultura – ter que, contra o seu próprio movimento interno e suas próprias razões cosmológicas e sociológicas, se deslocar para fora de seu mundo. Não entendo quando dizem que o texto de Rosa é demagógico: ainda que pequeno, no contexto que demanda o espaço da bloguesfera, é uma das melhores análises que já li até o momento sobre o recente acontecimento entre os Zo’é. A situação dos Zo’é, sua procura de contato com o mundo exterior, não poderá ser entendida sem uma análise consistente do ponto de vista antropológico, sem ouvir com atenção os próprios Zo’é. Não é uma simples reportagem de uma equipe de TV que vai trazer qualquer entendimento sobre o caso, o máximo que pode trazer e ampliar, é o preconceito contra esse povo indígena. Pelo que li do texto da Rosa, ela e outros indigenistas que trabalham com os Zo’é não militam para que estes índios fiquem fechados no seu “mundo” (mesmo porque o mundo do povo Tupi e do Povo Karib é um mundo aberto para o exterior, para aquilo que vem de fora), mas, este contato e esta relação com o mundo de fora (sobretudo sabendo que neste mundo de fora, que é sobretudo o nosso, o ocidental, há muita gente malandra, muita gente que só interessa na “alma” ou no “corpo” do índio – veja a longa história da conquista européia, da evangelização, da escravização dos índios; isso começou há mais de quinhentos anos, e, ainda continua), mas este contato deverá ser mediado por um trabalho indigenista e antropológico sério, feito junto com os próprios Zo’é; este contato deles com o exterior hoje em dia não vai ser feito pela força da “palavra” única do cristianismo, ou pela força e pelo poder dos colonos, os tempos, felizmente, são outros, há muita gente, no Brasil e fora daqui, apoiando o trabalho sério que vem sendo feito atualmente com e pelos os Zo’é. Isto tudo não quer dizer que tudo está certo, precisamos refletir criticamente sobre este trabalho, no sentido de melhorá-lo, aperfeiçoá-lo, e isso deve ser feito por aqueles que realmente querem ouvir os Zo’é, e fazer deles os protagonistas deste encontro com o mundo exterior.

    ruben caixeta é professor de antropologia da Universidade Federal de Minas Gerais

    1. Ilmo Sr. Prof. Rubens Caixeta,

      Pelo que vejo, o senhor ainda desconhece o que aconteceu e acontece entre os Zo’é ou está também sendo preconceituoso, por isso saiu em defesa de Da. Rosa.
      Ninguém está questionando o discurso antropológico dela, mas sim o preconceito contra os missionários, pois enquanto o assunto é a atuação da Funai e da ONG Amazoé que ela dirige e controla a área, ela tentou desviar o assunto para os missionários que estão fora de lá há quase 20 anos.
      Concordo com o senhor quando diz que o contato desses índios com a sociedade envolvente “deverá ser mediado por um trabalho indigenista e antropológico sério, feito junto com os próprios Zo’é”. Era isso que os missionários estavam fazendo, mas o processo foi interrompido, porque outros interesses estavam por trás dessa ação.
      O que já está fartamente documentado é que os Zo’é ficaram durante todo esse obrigados a viverem “na idade da pedra” para ser objeto de contemplação de turistas e fonte de lucro para os produtores e comercializadores de sua imagem a preços exorbitantes no Brasil e no exterior. É isso que eles perceberam agora e estão reclamando mudança.

  • D. Rosa,

    é muito interessante o fato da senhora dizer que os Zo’és são livres para andar por onde quiserem e tomarem suas decisões e ao mesmo tempo lhes nega declaradamente este direito de liberdade com o termo “têm sido, solidariamente, aconselhados a não ultrapassarem as “bordas fixas” que inventamos para eles.”, como a senhora mesmo escreveu no texto acima. Ou seja, sua ONG e a FUNAI têm proibido aos Zo’és de se locomoverem e tomarem suas próprias decisões. Nossa carta mágna nos dá a liberdade de falarmos ou difundirmos aquilo que cremos, seja ela oespiritismo, cristianismo, catolicismo (e o governo tem dado total apoio aos padres e freiras e professores que são ligados ao CIMI, mas não dá a mesma liberdade aos outros credos). Então que seja dado aos Zo’és e a todos os outros povos do mundo o direito de escolherem o que querem fazer.
    A senhora acusa estes tais missionários como responsáveis pela doença e morte do povo e quer proibí-los de retornar, mas afirma no texto que tem entrado em contato com o povo um monte de gente, (Dr.Erik e atestados por todos os profissionais que ali já estiveram (médicos, sanitaristas, advogados, jornalistas, ambientalistas, documentaristas; “turistas”, nunca), citado acima. Será que estas pessoas também não estão levando doenças para o meio do povo? Se a presença de outras pessoas é tão nociva à vida deles, por quê a senhora não é a primeira a ficar longe deles? Ao invés disso, está promovendo a entrada de várias pessoas lá!
    Sou um estudante e amante da antropologia. Por isso, em minhas andanças já conheci nações indígenas em vários lugares em nosso país, como no nordeste, no TO, MA, e atualmente moro no MT. Inclusive conversando com pessoas da região e com os próprios indígenas daqui, descobri que havia muitas guerras entre algumas nações aqui e quase dizimaram um povo. Se não fosse a ajuda de moradores da cidade e fazendeiros, seria uma nação a menos no Brasil. Pois não tinham ajuda de FUNAI ou qualquer outro órgão do governo.
    Pare, por favor, com esta demagogia tola! Que seja permitido aos missionários, aos voluntários corajosos da nossa pátria, a entrada em áreas indígenas para cuidar da saúde deles. Pois eles não querem apenas falar de Deus, mas querem ajudar as pessoas como um todo. Se não fosse assim, não teria tantos trabalhos e projetos na área de desenvolvimento cultural, agricultura, alfabetização, etc, feito por estas pessoas. Como já vi em alguns lugares. Conheço algumas tribos que chegaram crentes há muitos anos, mas os índios não aceitaram aquela crença dos crentes. Então que cada povo tenha o direito legítimo de escolher adotar ou não outro modo de vida, seja ele com roupa ou não, com tecnologia ou não…

  • Lamento que pessoas desinformadas estão a falar sobre uma causa tão relevante como esta em que vive o povo Zo´é
    Infelismente neste País os direitos dos indigenas não são respeitados, pois assistir a reportagem exibida pela TV Atalaia e gostaria de saber se aqueles indios tiveram seus pedidos atentidos.

  • Prezada Sra. Rosa,

    Infelizmente ainda há em nosso pais pessoas que mesmo tendo um alto nivel intelectual sao cheias de precoceitos.
    Isso é lamentavel pois o prenceito só constroi o ódio, a intolerancia e a distancia.
    O que o Brasil precisa é de uma sociedade unida, unida em favor dos direitos de todos sejam eles brancos, negros, indios, catolicos,evengelicos e de qualquer outro credo.
    vamos entao deixar o preconceito de lado e ajudar esses nossos irmao pois eles estao precisando de todos nós.
    quer sejamos crentes ou ateus.

  • O problema desses “Missionários” é que eles querem ser os donos de DEUS, não façam isso, ele é todo poderoso, é onisciente ele sabe tudo sobre nós e sobre os Zo`é também.

  • Prezada Sra. Rosa,

    Entendo o seu direito de se defender diante dos fatos denunciados pelos próprios Zo’é. Só lamento sua postura preconceituosa para com os missionários, que foram as primeiras pessoas a socorrerem esse povo quando estavam sendo dizimados pela malária que os assolava, há anos antes do contato formal. Isso fica claro porque, segundo os escritos da antropóloga Dominique T. Gallois no livro Povos Indígenas do Brasil,
    “… mesmo que tenham estabelecido, por sua própria iniciativa, relações de convivência permanente com o posto assistencial há apenas sete anos, os Zo’é já haviam experimentado contatos ocasionais com castanheiros e caçadores de pele há pelo menos 50 anos.” GALLOIS; GRUPIONI, 1991, PIB, p. 291)

    Digo isso, porque conheço essa história desde o início e não como a senhora que chegou recentemente a essa região (1998, como consta no seu texto) e recebeu informações deturpadas a respeito do trabalho dessas pessoas. Sei que há provas documentais suficientes para comprovar que, se não fosse a atuação dessas pessoas, talvez hoje os Zo’e nem mais existiriam. Mas Graças à dedicação deles, os Zo’é que eram apenas 119 pessoas no momento do contato, segundo o seu próprio Site, são hoje cerca de 250. Para entender isso basta ler um trecho do relatório oficial do primeiro médico da Funai a visitar os Zo’e em 1989, Dr. Lauro Moreira Faro:

    “No dia 22.02.89, nos deslocamos para Santarém com a finalidade de fazer um levantamento das condições da assistência prestada pela Missão Novas Tribos do Brasil aos índios (…) Examinamos todos os índios que estavam na missão e constatamos que todos estavam em regular estado de saúde; alegres dispostos, brincalhões (…) Possuem 5 casas e uma cabana onde os índios ficam alojados. Em uma dessas casas funciona uma pequena farmácia que é bem diversificada em medicamentos levando a um atendimento satisfatório (…) Achamos que o trabalho que vem sendo realizado pela missão é muito sério e que eles merecem um reconhecimento pelo amor e dedicação que tem para com os índios …”

    Da mesma forma, impressiona-me que as reclamações dos Zo’é foram dirigidas à Funai e a senhora, que se diz pertencer a uma ONG desvinculadas do órgão oficial , está se defendendo das ações arbitrárias praticadas contra eles. Pior ainda é que, para se defender, procura desviar a atenção do foco das reivindicações da comunidade indígena, acusando pessoas inocentes e que há cerca de 20 anos não têm mais nenhum contato com esse povo.

  • Até que enfim alguém com conhecimento de causa e seriedade falando dos Zo’é…parabéns, Rosa, tanto teu texto quanto teu trabalho voluntário com os Zo’é são maravilhosos…continue na luta, pois ‘tudo vale a pena quando a alma não é pequena”!

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