
O Dia do Trabalhador chega todos os anos carregado de simbolismo: é a data que marca conquistas históricas, lutas coletivas e a afirmação da dignidade do trabalho. Mas, para boa parte dos servidores públicos efetivos de Santarém (PA), a data tem um gosto amargo — quase irônico.
Enquanto discursos oficiais exaltam o papel do trabalhador na construção da cidade, na prática, o funcionalismo municipal segue convivendo com um cenário de estagnação, desvalorização e ausência de políticas estruturantes.
Vamos direto ao ponto.
O problema aqui não é episódico — é estrutural.
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Salários corroídos e ausência de política de valorização
A inflação não espera. Ela age silenciosamente, mês após mês, reduzindo o poder de compra. Sem uma política contínua de reajuste salarial, o que acontece é simples: o servidor fica mais pobre trabalhando o mesmo tanto — ou mais.
E aqui entra um ponto crítico: não existe uma política consistente de reposição inflacionária no município.
Isso quebra qualquer lógica mínima de valorização. O salário deixa de ser remuneração justa e passa a ser, na prática, um valor defasado que não acompanha o custo de vida real.
PCCR: a promessa que nunca se materializa
Outro gargalo clássico é a ausência (ou ineficácia) de um Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração (PCCR) para as chamadas carreiras gerais.
Sem PCCR:
- Não há progressão clara.
- Não há incentivo à qualificação.
- Não há perspectiva de crescimento.
O resultado? Um servidor que entra motivado e, com o tempo, entra em modo sobrevivência. E isso não é só injusto — é ineficiente para o próprio serviço público.
Sem auxílio alimentação: o básico ainda é luxo
Em muitos municípios brasileiros, o auxílio alimentação já é política consolidada. Não é benefício extraordinário — é o mínimo.
Em Santarém, a ausência desse tipo de suporte escancara um problema mais profundo: a falta de uma política de valorização que enxergue o servidor como agente central da máquina pública.
Porque, no fim do dia, é o servidor que mantém:
escolas funcionando,
unidades de saúde abertas
serviços essenciais em pé
Sem ele, o Estado simplesmente para.
Um ciclo que se repete — e precisa ser rompido
Talvez o ponto mais incômodo seja esse: não se trata de uma gestão específica.
É um padrão que se repete ao longo dos anos. Promessas surgem, discursos mudam, mas a estrutura de desvalorização permanece praticamente intacta.
Isso não é apenas um problema trabalhista — é um problema de desenvolvimento.
Servidor desvalorizado gera:
menor produtividade,
maior rotatividade indireta (desengajamento) e queda na qualidade do serviço público.
Ou seja: a população também paga essa conta.

Samuel Alvarenga é jornalista, servidor público municipal efetivo e acadêmico do curso de Ciências Econômicas da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará).
∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.
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