1º de maio: o trabalhador celebrado — e o servidor municipal esquecido em Santarém. Por Samuel Alvarenga

Publicado em por em Opinião, Política, Santarém

1º de maio: o trabalhador celebrado — e o servidor municipal esquecido em Santarém
Servidores públicos em uma ação social da Prefeitura de Santarém. Foto: PMS

O Dia do Trabalhador chega todos os anos carregado de simbolismo: é a data que marca conquistas históricas, lutas coletivas e a afirmação da dignidade do trabalho. Mas, para boa parte dos servidores públicos efetivos de Santarém (PA), a data tem um gosto amargo — quase irônico.

Enquanto discursos oficiais exaltam o papel do trabalhador na construção da cidade, na prática, o funcionalismo municipal segue convivendo com um cenário de estagnação, desvalorização e ausência de políticas estruturantes.

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Vamos direto ao ponto.

O problema aqui não é episódico — é estrutural.

Salários corroídos e ausência de política de valorização

A inflação não espera. Ela age silenciosamente, mês após mês, reduzindo o poder de compra. Sem uma política contínua de reajuste salarial, o que acontece é simples: o servidor fica mais pobre trabalhando o mesmo tanto — ou mais.

E aqui entra um ponto crítico: não existe uma política consistente de reposição inflacionária no município.
Isso quebra qualquer lógica mínima de valorização. O salário deixa de ser remuneração justa e passa a ser, na prática, um valor defasado que não acompanha o custo de vida real.

PCCR: a promessa que nunca se materializa

Outro gargalo clássico é a ausência (ou ineficácia) de um Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração (PCCR) para as chamadas carreiras gerais.

Sem PCCR:

  • Não há progressão clara.
  • Não há incentivo à qualificação.
  • Não há perspectiva de crescimento.

O resultado? Um servidor que entra motivado e, com o tempo, entra em modo sobrevivência. E isso não é só injusto — é ineficiente para o próprio serviço público.

Sem auxílio alimentação: o básico ainda é luxo

Em muitos municípios brasileiros, o auxílio alimentação já é política consolidada. Não é benefício extraordinário — é o mínimo.

Em Santarém, a ausência desse tipo de suporte escancara um problema mais profundo: a falta de uma política de valorização que enxergue o servidor como agente central da máquina pública.

Porque, no fim do dia, é o servidor que mantém:
escolas funcionando,
unidades de saúde abertas
serviços essenciais em pé

Sem ele, o Estado simplesmente para.

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Um ciclo que se repete — e precisa ser rompido

Talvez o ponto mais incômodo seja esse: não se trata de uma gestão específica.

É um padrão que se repete ao longo dos anos. Promessas surgem, discursos mudam, mas a estrutura de desvalorização permanece praticamente intacta.

Isso não é apenas um problema trabalhista — é um problema de desenvolvimento.

Servidor desvalorizado gera:
menor produtividade,
maior rotatividade indireta (desengajamento) e queda na qualidade do serviço público.

Ou seja: a população também paga essa conta.


Samuel Alvarenga é jornalista, servidor público municipal efetivo e acadêmico do curso de Ciências Econômicas da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará).

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

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