Brava como uma onça

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por Oti Santos (*)

Santarém vivia a sua mais sombria e injusta penitência política, pouco mais de um ano do triste episódio da terceira sexta-feira de setembro de 1968, quando o povo, em pacífica marcha, queria testemunhar a reintegração do prefeito Elias Pinto e que o lamentável desfecho, do amplo conhecimento popular, foi o tombamento mortal de quatro pessoas, uma delas o brigadeiro Haroldo Veloso, meses depois, e pelo menos outras duas com cicatrizes perenes, vitimadas pelas balas desferidas por homens da Polícia Militar do Estado.

O município experimentava um novo clima eleitoral, com o pleito para um mandato tampão de dois anos à Câmara Municipal, programado para o dia 15 de novembro de 1970. O país palmilhava os atemorizantes anos de chumbo da ditadura militar, sob o comando do marechal Costa e Silva. Por aqui, medo e luto. Não havia motivação para a política, muito menos ousar filiar-se ao MDB para a disputa do pleito e, além do mais para um mandato pela metade.

Nesse clima desanimador, a dizimada oposição em Santarém foi à luta, e eis que conseguiu a adesão ao rol dos poucos remanescentes da envolvente campanha eleitoral do “Barra Limpa” de 1966, (quem diria?), de uma professora guerreira, autêntica portadora da revolta dos santarenos que um ano antes, por decreto dos militares, perdiam por tempo indeterminado o direito de escolher pelo voto o seu gestor.

E não deu outra. A professora Terezinha Sussuarana, única mulher candidata pelo MDB, conquistou uma das onze vagas e logo na posse, foi eleita para a primeira Secretaria da Mesa Diretora, presidida por Edson Serique. Dali em diante, passou a ter cadeira cativa no Parlamento municipal por oito anos consecutivos (foi maciçamente sufragada nos pleitos seguintes de 1972 e 1976).

Dentre todas as suas virtudes, a que mais me impressionava era a coragem de dizer. Pois embora professora da rede estadual de ensino, seu destemor em responsabilizar o coronel Alacid Nunes pelos acontecimentos sangrentos havidos em Santarém, à época em que governava o Estado era de arrepiar.

A partir de 1977 passei a conviver com a “Teca”, também eleito no pleito do ano anterior. Comungando dos mesmos ideais de liberdade e democracia para Santarém e para o Brasil. Estava ali ardorosamente a integrar, contando com a sua experiência e destemor, a bancada da minoria. Éramos cinco e a Arena contava com seis vereadores. Aliás, tive o privilégio de ser seu líder. Fui o último a desempenhar essa missão, como principal porta-voz da oposição às administrações dos prefeitos nomeados.

Além dessa convivência, também estivemos juntos na Comissão Executiva Provisória do MDB de Santarém homologada em fevereiro de 1977 pelo Diretório Regional. Ela, na condição de presidente e eu como vice-presidente da legenda oposicionista no município.

Nesse período, a pressão das ruas, sob a bandeira do MDB, já descortinava um horizonte novo: a redemocratização, a anistia e as Diretas Já. O partido, com o ocaso do bi-partidarismo a nível nacional, por sugestão do grande líder Ulisses Guimarães, colocava um “P” à frente para prosseguir na sua caminhada histórica.

Na Câmara, na intransigente defesa das suas convicções, das camadas mais humildes da sociedade, dos professores, dos jovens e do bairro da Prainha a “Teca” era capaz de ir às últimas conseqüências. Ignorava o decoro parlamentar constantemente e desafiava os poderosos de plantão não interessando as esferas do Poder Executivo, dando muito trabalho ao Presidente daquele período, o também professor e homem de confiança da Arena, mestre Antonio Pereira.

Os recursos por ela utilizados para obstruir a pauta, a ordem, o discurso da situação e até a votação de uma matéria indesejada eram sempre inusitados, de improviso e eficazes. Normalmente, afrontando o rito regimental e para qualquer revés intentado por parte dos arenistas diante dos seus posicionamentos, talvez pelo fato de ser única (mulher) espetacularmente passava à condição de vítima. E ferida, a companheira se transformava e os trabalhos eram encerrados, pois a Sussuarana não levava desaforos.

Não há como esquecer sua reação, por ocasião de um pronunciamento que fazia em defesa da implantação de um poço artesiano numa comunidade do planalto santareno, quando equivocadamente expressou “poço artesanal”. Imediatamente, aparteada em tom jocoso por um adversário (uma professora discursando) que se propôs a corrigi-la, abruptamente retrucou, arremessando ao piso um cinzeiro de vidro que estava sobre sua bancada: Artesiano ou artesanal, o interessante é que acabe com a escassez de água daquele povo.

Os cinzeiros eram distribuídos habitualmente pelo servidor Zeca Santos a quando do início das sessões, independentemente de ser fumante ou não o vereador daquela legislatura.

Sua bravura como mulher, mãe exemplar de oito filhos, professora e combativa vereadora a levou a nos representar na Assembléia Legislativa, juntamente com Ronaldo Campos e Everaldo Martins, este eleito pela Arena em 1978. E o restante do mandato de 1979 a 1982 ao qual renunciou para ser deputada, passou a ser dignamente desempenhado por seu substituto, o suplente Arnaldo Lopes.

Após esse mandato, sem obter sucesso em 1982 no seu projeto de reeleição, que para ela se deu pelo fato de haver se transferido para Belém se afastando da base eleitoral. Terezinha ainda desempenhou com desenvoltura a função de agente do extinto Funrural na região, por indicação do seu amigo pessoal, ex-senador e então deputado federal João Menezes.

Ao retornar para Santarém e trocar o PMDB pelo PMN, demonstrou novamente que continuava afoita a desafios. Foi candidata a prefeita no pleito de 1988, vencido por Ronan Liberal e, finalmente, à Assembléia Legislativa dois anos depois pela mesma legenda do saudoso professor Agostinho Linhares.

O relato, além de testemunhar o muito que aprendi por conta da sua coragem, determinação e lealdade, me encorajando a dar os primeiros passos como vereador, vindo de Belterra com a responsabilidade de representar bem a então Vila das Seringueiras, também vale como despedida a uma companheira que se foi esta semana, surpreendendo a família e os amigos que se preparavam para celebrar os seus oitenta anos.

Terezinha, obrigado pelo grande legado. Valeu!

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* Ex-vereador, jornalista e advogado. Foi o 1º prefeito de Belterra.


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4 Responses to Brava como uma onça

  • Quero agradecer as manifestações de carinho e solidariedade pelo falecimento de minha genitora, Teresinha Sussuarana, um pouco tardio, mas em virtude de que em uma semana termos dois falecimentos na família, o que ocasiona uma dor maior, assim como um tempo maior de recuperação – se é que há recuperação para esse tipo de sofrimento – vindas de amigos próximos, colegas, ex-aluno(a)s, vizinhos e de tantos outros. Queria poder externar todas as palavras carinhosas proferidas pelo deputado estadual Alexandre Von e pelo deputado federal Dudimar Paxiúba, quando lembraram daquela mulher guerreira, destemida, corajosa, que enfrentou os tubarões da ditadura civil/militar, juntamente com outros políticos, para podermos hoje em dia termos essa Liberdade de expressão, arduamente conquistada e que alguns querem amordaça-la, comprometendo toda uma geração de políticos na verdadeira acepção da palavra.

    Muitos não sabem, mas quando minha querida mãe foi vereadora por dois mandatos em Santarém/PA, não havia pagamento de subsídios aos vereadores; o vereador nada recebia para fazer política e enfrentar aquele regime de exceção daquele período tenebroso na História do Brasil; ser político era ser altruísta. O Vereador deixava seus afazeres profissionais, particulares, de lazer e, no caso de minha mãe, os domésticos, para representar os santarenos que, como disse Oti Santos, “…perdiam por tempo indeterminado o direito de escolher pelo voto o seu gestor.”
    Ser político e de oposição naquele período era ser corajoso, destemido, bravo, impoluto, mas ser tudo isso e ainda ser mulher, fazer política e de oposição, era quebrar paradigmas!!
    QUANTAS mulheres em Santarém/PA tiveram a coragem que a professora Teresinha Sussuarana teve para deixar de cuidar/zelar de seus oitos filhos para lutar por melhorias por sua cidade? Quantas mulheres naquele período enfrentaram um governador em nome da memória de Santarém?
    Tenho orgulho, e muito, de quem ela foi e o que representou e ainda representa para mim. Sua solidariedade para com o próximo, principalmente àqueles que precisavam de um cantinho quando iam a Belém, à tratamento de saúde, ou para estudar; sua coragem, sua determinação, seu apoio e porque não dizer, de seus ralhos (e aqueles safanões na nuca quando fazíamos alguma malcriação); safanões esses que invariavelmente me faziam “beijar” o chão, mas que também me fizeram levantar e seguir em frente, com mais respeito e dignidade.
    Devemos homenagear nossos entes queridos, amigos, e todos os que fazem parte de nosso meio, em vida, dando-lhes abraços, bom dia, boa tarde, boa noite, muito obrigado, um sorriso e apoio. Procurei fazer tudo isso com minha mãe ainda em vida. Agora, resta-me levar seus ensinamentos e repassá-los aos meus descendentes.
    Agradeço ao Dr. Oti Santos pelas memoráveis lembranças daqueles tempos corajosos vividos por eles.
    Agradeço à Câmara Municipal de Santarém pelo envio da guirlanda em memória de minha querida mãe e professora!
    Agradeço ao Jota Parente, Dayan Serique, Miguel Neto, Paulo Sérgio, Walfredinho e tantos outros (desculpem alguma ausência), pelas palavras de carinho!
    Quanto à Prefeitura não prestar homenagem à Professora Teresinha Sussuarana, não me causa espanto. Se a gestora municipal não homenageia seu pai, com uma boa administração, nada poderia esperar!!!
    Finalmente, agradecer a Deus por permitir que ela vivesse com a gente por muito tempo. Que Deus a tenha a seu lado!!
    Norton Sussuarana
    Servidor do TRT 8ª Região – Itaituba/PA.

  • Prezado Oti Santos,

    Gostaria de agradecer em nome da familia Sussuarana as belas palavras que escrevestes sobre minha mãe. Sinto não ter comentado antes, mas não estava em condições para tal…

    Um Abraço Fraternal,

    Marco Sussuarana

  • Parabéns, Oti, pelo excelente resgate histórico quer permeia o texto. Quanta informação preciosa destilastes por essas linhas. Deves escrever mais e mais, socializando o que guardas na memória e no baú riquíssimo em anotações.

  • Grande guerreira é muito pouco pra grande mulher que ela foi, minha avó foi exemplo dentro e fora de casa, era danada que só ela. Lembro quando ela dizia que só com ESTUDO, EDUCAÇÃO e um SORRISO nos lábios conseguiamos seguir adiante. Muito do que sei e aprendi foi seguindo seus passos e seus conselhos e garanto que deu muito certo! Ajudou até seus últimos dias todos os filhos e netos, não desemparou, sempre acolheu. Lutava, caia e levantava e se renovava sempre. Chorava e sorria, mas nunca perdeu o gosto ou o amor pela vida, apesar de ter tido um início de vida muito difícil, mas ela VENCEU e valeu, valeu muito a pena porque ela deixou marcas profundas e inesquecíveis em quem viveu ou conviveu com esta SENHORA de ALTÍSSIMO VALOR, minha AMADA AVÓ. Onde quer que esteja sei que deve estar muito “invocada” porque ela dizia que queria viver até os 100 anos de idade, mas sei também que deve ter compreendido os desígnios e a vontade de DEUS. Vó querida descanse em paz e não se preocupe com quem deixou por aqui, porque como você mesma dizia: “As coisas no final sempre darão certo, é só não ter medo e enfrentar”. Você já ensinou e nós aprendemos! Deixo aqui meu pequeno relato de quem foi Teresinha Sussuarana, minha avó, minha amiga, minha mãe. Vó, você foi muita amada e deixará saudades…

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