Carnaval santareno: quem vai organizar essa zorra?

Publicado em por em Artigos, Eventos

Imprensa cobre a entrega de trófeu em 1986 a Isaias Sete do Chapeuzinho Vermelho pela Dep. Terezinha Sussuarana (arquivo ICBS)Imprensa cobre a entrega de trofeu em 1986 a Isaias Sete, do Chapeuzinho Vermelho, pela deputada Terezinha Sussuarana. Foto: arquivo ICBS

por Jota Ninos (*)

Blog do Jeso | Jota NinosPassado mais um carnaval em Santarém, a sensação que fica é mesma das últimas décadas: frustração do folião local, como já vem sendo externado em reportagens e artigos nos meios de comunicação. A imprensa local tem sempre duas manchetes já definidas para usar nos noticiários após o término da quadra momesca, que vem sendo realizada na Avenida Tapajós:

1) “Desfile de agremiações é marcado por atrasos”;
2) “Bloco da Pulga é o campeão do carnaval santareno!”.

Estas frases representam tese e antítese de um espetáculo cada vez mais grotesco, ou patético como já disse aqui no blog o médico-carnavalesco Telmo Moreira. E poderia ser resumido com o dito popular “Em terra de cego, quem tem um olho é rei”.

A síntese do carnaval santareno é a de que em meio à desorganização que aqui impera quem é organizado se dá bem… E o Bloco da Pulga não tem culpa de viver o ano todo pensando num carnaval que a grande maioria das agremiações só começa a incorporar um ou dois meses antes da folia momesca.

E antes que alguém diga, eu não tenho muito samba no pé mesmo e nem sou de encher a cara, mas além de cobrir carnavais pelas empresas de comunicação por que passei, já fiz um sambinha para o extinto Bloco Unidos da Cruzada (3ª colocado em 1992) e para o Bloco 710 (da Rádio Rural, que há alguns anos saía ao final do desfile oficial) e também já fui jurado de desfile na Barão.

Foto: arquivo Jota Ninos

Tenho defendido em vários artigos nos últimos anos, que a Prefeitura não deveria gastar nenhum tostão com a porcaria que a maioria dos blocos leva para a avenida e chama de “enredos”. Muito menos com os “blocos de empolgação”, surgidos em meados dos anos 1990 e que, em tese, deveriam ser auto-sustentáveis com a venda de seus abadás e um carnaval “asséptico” que nos remete aos grandes salões.

Isso sem contar o desastre dos atrasos entre uma agremiação e outra, que é coisa que já vem desde quando os desfiles eram mais ricos e vistosos. O pior é que o público não aprende e todo ano fica lá nas arquibancadas se torturando…

Essa é com certeza uma relação sado-masoquista entre o público e as agremiações carnavalescas que nos remete àquela piada de um famoso bar da cidade, tradicional, que faz tudo para expulsar seus clientes com péssimo atendimento, mas todo mundo continua indo lá…rs

Pode até parecer maluquice falar em “organizar a zorra”, já que carnaval é sinônimo de zorra… A questão é que vivemos há muito tempo um dilema freudiano sobre que carnaval se quer para a nossa cidade: uma festa popular onde todo mundo se diverte em batalhas de pó de amido (como em Alter-do-Chão e Óbidos)?

Uma corrente humana correndo atrás de bandinhas nas ruas com fantasias, como em Recife e Olinda? Uma multidão de gente atrás de um Trio Elétrico com seus abadás, como no carnaval da Bahia? Ou um carnaval de enredo que é mais um espetáculo visual, aos moldes do carnaval carioca, pra ser visto das arquibancadas ou na telinha da Globo?

Talvez este seja o primeiro passo para se definir o carnaval do futuro (se é que há um futuro para o carnaval santareno…), dentro de uma premissa de que essa festa tem suas raízes na cultura popular. Nas próximas linhas tento fazer um pequeno resgate histórico do carnaval, pelo que já vi e registrei como jornalista nos últimos 30 anos, enfatizando o enfoque político-partidário que essa festa tem no universo cultural santareno.

Lembro aos leitores que muitas das informações a seguir são partes de minha memória jornalística, podendo haver algumas falhas de informação. Quem tiver dados diferenciados para contestar estarei aberto aos reparos.

A época do carnaval “pão e circo”

Sempre que o debate sobre esse tema envereda pela discussão de que tipo de carnaval Santarém quer, tem logo algum saudosista que relembra dos carnavais dos anos 1970, quando se diz que a cidade tinha um dos melhores espetáculos carnavalescos do norte do Brasil! Pelo que dizem os mais antigos era um “carnaval-magia”, o que justificaria – segundo esses saudosistas – a opção de se manter o formato de “carnaval de enredo” (e não o de “empolgação”) levando-se em conta a gama de artistas e folcloristas que Santarém sempre produziu. Todos são unânimes em afirmar que Santarém já teve até Escolas de Samba de primeira linha e um desfile rico que dava gosto de ver.

A verdade é que era uma época de ouro (dos garimpos) e muito dinheiro público investido nas agremiações carnavalescas por garimpeiros e pelo prefeito de plantão, na velha máxima romana do Panis et Circensis (o famoso Pão e Circo, política criada pelos antigos romanos que previa a distribuição de comida/pão e diversão/lutas de gladiadores, com o objetivo de diminuir a insatisfação popular contra os governantes). Época de prefeitos populistas ligados à ditadura militar que viam no carnaval a chance de fazer demagogia com o dinheiro público, o que acabou acostumando muitos líderes de agremiações a aguardarem ansiosos pelas verbas milionárias que muitas vezes nem chegavam à passarela do samba…

No meio da riqueza toda brilhava a arte de gente boa da cultura regional como a professora e folclorista Romana Leal e seu “Caciques da Prainha”, bloco de enredo que primava (e ainda prima) pela divulgação do folclore regional. Nessa mesma linha havia também o bloco “Mulatas Cheirosas”, liderado pela professora Helena Bezerra (e sua famosa cabeleira cor de violeta), acompanhada da inseparável ex-primeira-dama Eliete Barbosa (viúva de Elinaldo Barbosa). As duas também baixavam com o abre-alas do carnaval, um bloco de empolgação, sem abadá, apenas roupas de palhaço, o famoso (e já extinto) Fofão.

Havia também o irmão de Romana, Laurimar Leal, nosso artista maior, que dava um show na mise-en-scène da “Escola de Samba Ases do Samba” e fazia frente a qualquer escola de samba de outras cidades da Amazônia. A agremiação tinha grande investimento dos prefeitos da época e era tida por muitos como uma agremiação ligada umbilicalmente à Arena (Aliança Renovadora Nacional, braço partidário da ditadura militar).

Sua rival, que não tinha o mesmo brilho, era a “Escola de Samba Chapeuzinho Vermelho”, do folclórico carnavalesco Isaías “Sete” Martins. Essa agremiação representava a oposição à Arena capitaneada pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro) do qual “Sete” viria a ser até vereador, anos mais tarde (já pelo PMDB). O bipartidarismo da ditadura estava bem representado no carnaval santareno…

Sem maior compromisso partidário havia ainda o trabalho de blocos menores que todos os anos desfilavam com pouca estrutura e alguns dizem que eram mais blocos de empolgação do que enredo como o ritmado Bloco Unidos das Acácias e sua bateria impecável; o Bloco da Pulga, do mestre Bendelack, que botava a família toda pra dançar e misturava gente de classe média e de menor poder aquisitivo num bloco que transpirava emoção na avenida, inclusive com bonecos gigantes como o Cabeção e a Mamãe Dolores; ou o Breguelhegue, que era em grande parte bancado pela elite local e se dava ao luxo de ter a presença anual de um sambista do Amazonas, Chico da Silva, que começava a despontar no cenário regional por representar a toada dos bois de Parintins onde começava a se produzir uma das maiores festas amazônicas.

Ele compunha sambas para o grupo iniciando uma parceria profícua com um compositor santareno, o Antonio José (que este ano quer tentar ser deputado estadual pelo DEM – Democratas, partido do “enrolado” Lira Maia) e a parceria dos dois acabou se estendendo para o cenário musical nacional quando Alcione gravou a música da dupla,“Sufoco”.

O conflito político no carnaval

Mas toda essa pompa e circunstância do carnaval santareno começou a perder o glamour em meados da década de 1980. Há 30 anos, quando comecei a trabalhar como repórter, na Rádio Rural, acompanhei de perto os estertores do “carnaval magia” do qual o santareno tinha orgulho. Tempos em que o palco era a Avenida Barão do Rio Branco, mas os famosos atrasos já eram sua marca registrada. Diversas vezes eu e muitos colegas da imprensa passávamos horas embaixo de chuva (geralmente), aguardando a passagem de um bloco ou escola para narrar o que víamos.

E muitas vezes já não víamos quase nada. A pobreza de alguns blocos denunciava que dinheiro público tinha sido desviado descaradamente… Houve um ano que um tal de Bloco da Serrinha recebeu uma fortuna em dinheiro para apresentar um enredo amazônico e o que se viu na avenida foi um bloco de sujos com foliões totalmente embriagados, que provavelmente torraram toda a grana recebida…

Para entender tudo isso, é preciso revisitar a recente história do Pará para fazer uma contextualização política pós-Jader sobre o nosso carnaval.

O dinheiro fácil da Prefeitura começou a rarear em meados da década de 1980, já que não havia mais recursos “a fundo perdido” que jorrassem do então governo militar, via coronel Jarbas Passarinho, que bancava alguns de seus pupilos arenistas como Paulo Lisboa e Ronan Liberal (pai do vereador Ronan Liberal Jr., do PMDB). Ronan tão agradecido à montanha de dinheiro que recebeu (e uma grande parte muita gente até hoje quer entender onde foi parar, como aquele do famoso Projeto Cura que deveria fazer a Prainha virar uma nova Suíça…), brindou o coronel Passarinho dando seu nome ao prédio da prefeitura (de forma ilegal), sendo que todos os prefeitos depois dele, continuam sendo covardes e não retiram o nome ilegal do frontispício (até hoje aguarda-se uma posição do MP sobre isso).

O ouro dos garimpos, aos poucos, também sumia. Em 1985, Santarém saía da Área de Segurança Nacional e 19 anos depois da eleição de Elias Pinto (pai do jornalista Lúcio Flávio Pinto), candidato populista do MDB que desbancou o arenista “sangue-azul” Ubaldo Corrêa, novamente o santareno podia escolher seu prefeito de forma direta. Ronan Liberal que tinha sido eleito vereador pelo MDB, em 1966, apoiando Elias Pinto, agora era o candidato ligado ao “partido da ditadura” e enfrentava outro velho colaborador de Elias, Ronaldo Campos (pai do neocomunista e blogueiro JK). A Arena tinha virado PDS – Partido Democrático Social e o MDB acrescentou um “P” ao nome, com o fim do bipartidarismo decretado pelo general João Batista “prendo-e-arrebento” Figueiredo.

Surgia no cenário político nacional a “Nova República” sonho de democracia liberal de Tancredo Neves, presidente civil eleito pelo Colégio Eleitoral formado por deputados e senadores (eleição direta pra presidente só aconteceria em 1989) e que tinha no Pará como seu representante o já eleito governador, em 1982, Jader Barbalho (PMDB), que levou novamente ao poder uma família considerada “Baratista”, movimento populista liderado pelo interventor e governador dos anos 1950, Magalhães Barata que liderou o PSD – Partido Social Democrático (transformado depois em MDB e PMDB no final da ditadura).

Apoiado por Alacid Nunes, outro coronel arenista (agora no PDS) que era governador do Pará e inimigo figadal de Passarinho, Barbalho chegou ao poder e tinha em suas hostes um líder tido também como “baratista” que o representava em Santarém, o então deputado federal Ronaldo Campos. Ronaldo venceu a disputa contra Ronan, que teve também como coadjuvantes o ex-prefeito de Belterra, à época líder sindical Geraldo Pastana, que arriscava a primeira candidatura do recém-criado Partido dos Trabalhadores (PT) e a ex-deputada peemedebista, já falecida, Terezinha Sussuarana, que se lançou pelo minúsculo PMB – Partido Municipalista Brasileiro.

Desde os tempos do prefeito Elias Pinto, Ronaldo posava de líder da oposição contra os arenistas liderados pela família Corrêa. Mas a liderança de Ronaldo Campos no PMDB era contestada por outras figuras que não aceitavam o despotismo do então prefeito eleito (1986/1988). Entre elas estava o jovem Geraldo Sirotheau, que tinha alguns adeptos entre a bancada peemedebista na Câmara Municipal. Geraldo se identificava com os movimentos culturais, entre eles o dos blocos carnavalescos.

Depois de tentar, sem sucesso, sua primeira investida em uma candidatura para deputado estadual em 1982 (ele tentaria outras oito vezes, no futuro, tendo conseguido somente um mandato de vereador, em 1992), Geraldo tentou liderar o bloco de vereadores peemedebistas alguns com raízes no alacidismo e que migraram para o partido com a aliança a Jader, para contestar a liderança de Ronaldo e assumir o PMDB. Entre eles estavam o professor Raimundo Navarro (pai do vereador Dayan Serique, do PPS – Partido Popular Socialista), os contabilistas Argemiro do Valle e Arnaldo Lopes, o comerciante já falecido de Mojuí dos Campos, José Walfredo (que acabou saindo do partido e fundando o PFL –Partido da Frente Liberal, hoje chamado de DEM). O bloco foi derrotado tanto na eleição interna, quanto na eleição de Oti Santos para a presidência da Câmara Municipal (com apoio de Ronaldo) e isso criou um mal-estar entre os peemedebistas e que se refletiria,inicialmente, no carnaval de 1986, primeiro ano de mandato de Campos.

No meio do caminho havia um canteiro

Apesar de estarem sob o manto de Jader Barbalho, Ronaldo e Geraldo já não se bicavam depois do episódio de briga interna. Sirotheau era amigo do então secretário de cultura do estado, o jornalista e escritor já falecido Acyr Castro e tinha sido nomeado à essa época como representante regional da Secdet – Secretaria Estadual de Cultura, Desportos e Turismo. Isso havia irritado Ronaldo Campos que via um inimigo potencial com um cargo ao qual ele não havia opinado e muitas ingerências foram feitas para que Sirotheau perdesse o cargo, como acabou se materializando.

No início de sua gestão, Ronaldo criou a Secretaria Municipal de Cultura (que antes era ligada à Secretaria Municipal de Educação) e colocou para comandá-la o historiador João Bento Veiga dos Santos, um comunista não-assumido publicamente que vivia uma fase mais ranzinza de sua vida e era tido como pessoa inflexível para negociar. João Santos saiu anunciando que a Prefeitura pretendia reorganizar o desfile na Avenida Barão do Rio Branco e descontentou alguns carnavalescos. Estava inaugurada a eterna cizânia entre carnavalescos e secretários de cultura…

A atitude do secretário deu o mote para que Geraldo juntasse um grupo de amigos de classe média envolvidos com a cultura local (muitos deles peemedebistas) para criar uma nova ONG cultural: a ASAC – Associação Santarena das Agremiações Carnavalescas, que contava com líderes de vários blocos e escolas de samba. Presidida pelo próprio Geraldo, a ASAC pretendia dar uma voz unificada das agremiações no debate com a gestão Ronaldo Campos. Se não me falha a memória, desse grupo faziam parte o atual prefeito Alexandre Von e o músico João Otaviano Matos Neto, além do meu amigo e grande repórter Sampaio Brelaz (que inclusive foi o segundo presidente da ASAC).

A ASAC resolveu aumentar a tensão no ano seguinte (1987) quando anunciou que pretendia romper com a prefeitura e organizar o carnaval, inclusive definindo que o desfile oficial seria na Avenida Presidente Vargas que corta a Barão transversalmente, mas foi surpreendida pela atitude do prefeito que mandou quebrar o asfalto da avenida no meio, anunciando que ali seriam construídos canteiros centrais! Os tais canteiros só ganhariam forma algum tempo depois, logicamente. O gesto foi entendido como declaração de guerra contra a ASAC e, por conseguinte, contra Geraldo. Mas apesar de ter tentado se opor ao despotismo do prefeito, no final Ronaldo Campos ganhou a queda de braço com Geraldo Sirotheau e realizou o carnaval no mesmo lugar e mais ou menos do jeito que queria o historiador João Santos. Blocos ligados à ASAC acabaram sucumbindo ao prefeito e não entraram no confronto político.

Este e outros episódios levariam Geraldo e seu grupo a sair do PMDB e entrar no PDT – Partido Democrático Trabalhista, que era comandado pelo ex-vereador Raimundo Pacheco e pelo professor Anselmo Colares. O PDT e o PT acabariam se juntando para enfrentar Ronaldo Campos e Ronan Liberal, nas eleições de 1988, na famosa APS – Articulação Popular Socialista. Mas isso é uma outra história…

O dragão da Saudade e a chegada das micaretas

Vale registrar que em 1987, apesar da briga entre prefeitura e a ASAC, aconteceu um dos carnavais mais bonitos de Santarém, segundo contam aqueles que continuam defendendo o desfile de enredo. Foi o ano em que o estreante bloco Unidos da Saudade, capitaneado pelo recém-falecido advogado Tito Viana, um dos aliados de Geraldo Sirotheau na ASAC, desceu a Barão do Rio Branco com alegorias gigantescas (entre elas, o tal Dragão todo branco, de boca aberta), belos destaques e um samba que contagiou a avenida falando do Dragão da Inflação, metáfora usada para descrever a crise econômica vivida pelo país. Até hoje me lembro de parte do refrão do belo samba: “Bicho feio te afasta de nós…” (Seria uma referência ao maior desafeto dos amigos de Sirotheau? rs).

Eu estava lá cobrindo e nunca esqueço como todos os jornalistas acharam bonita a apresentação que acabou dando prêmio ao bloco e uma quase-certeza de que agora o carnaval entraria nos eixos. Muita gente chegou a dizer que a Unidos da Saudade humilhou as escolas de samba que já não apresentavam nada de bom, e que provavelmente tomaria o lugar delas. A Ases do Samba parou de desfilar e em seu lugar o Bloco Amigos do Jabá resolveu virar escola, coisa que a Unidos da Saudade não ousou (pelo que me lembro…). Anos depois o Jabá acabou tirando a escola da avenida, por considerar que não valia a pena o investimento.

Em 1988, a tensão entre prefeitura e ASAC chegou ao extremo, quando as agremiações resolveram realizar o desfile fora da Avenida Barão do Rio Branco utilizando a Mendonça Furtado, mas os problemas de organização não foram sanados totalmente. Então, chegaram os anos 1990, com a novidade que vinha do nordeste: as micaretas, ou carnavais fora de época. Trios elétricos gigantes vinham da Bahia, as pessoas compravam abadás e todo mundo ia atrás num carnaval que se vendia como organizado e diferente do que se praticava na época momesca. Essa ideia contagiou muitos brincantes, que viam nesse tipo de carnaval uma solução para a bagunça dos desfiles. E começaram a ser organizados os primeiros blocos de empolgação dentro dessa filosofia comercial. Um dos primeiros blocos criados foi o Garotos da Coroa, depois a Fogueteira e tantos outros.

Os dois tipos de blocos não falavam (e não falam até hoje) a mesma língua. Mais recentemente, com o crescimento do número de blocos de empolgação, houve o racha na ASAC e foi criada a LIBES – Liga Independente de Blocos de Empolgação de Santarém. Passam-se administrações, de Lira maia a Maria do Carmo e Agora Alexandre Von, e o problema continua. Secretários de Roberto Vinholte a Nato Aguiar, todos respeitados como expoentes da cultura ou produtores culturais. Mas até hoje ninguém conseguiu chegar ao consenso de como se quer o carnaval.

Na verdade, todos apenas deixam rolar o calendário, porque até hoje falta às administrações municipais discutir uma política cultural de forma mais séria, não somente através de um ou dois encontros com todos os agentes culturais. Ao invés de política cultural, o que se vê é apenas uma política de eventos, na área cultural. Era preciso que esse debate se fizesse de forma setorial: no carnaval, por exemplo, ao terminar um desfile reunir todos os envolvidos e começar a discutir como fazer para mudar o carnaval no próximo ano, ou quem sabe, de forma gradual, nos próximos anos? Há muitas contribuições para o debate, seja dos saudosistas do belo carnaval de enredo, seja do pragmatismo econômico do carnaval de empolgação e de outros modelos de carnaval. Uma coisa é certa, se isso não acontecer, ainda veremos os mesmos desfiles ocorrendo de forma desorganizada e aos poucos contaminaremos (se já não contaminamos) o carnaval mais solto de Alter do Chão…

Quem sabe o Bloco Fuleragem, que há anos fecha o carnaval sem lenço e sem documento, sem abadás, e sem compromisso de ser enredo ou empolgação, sem necessidade de ganhar prêmio ou apoio financeiro, como se fosse um descompromissado carnaval de salão que sai às ruas, sem qualquer vinculação com toda essa zorra, seja a própria zorra necessária de acontecer?

O carnaval, antes de tudo, é uma festa popular para se extravasar e se travestir, para fugir da dura realidade do dia-a-dia. Sua institucionalização em desfiles com prêmios, em entidades organizadoras, de nada adiantará se for pra deixar o público a ver vazios.

– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –  – –

* É jornalista e escreve regularmente neste blog.


Publicado por:

19 Responses to Carnaval santareno: quem vai organizar essa zorra?

  • Para esclarecimento J. Ninos, a senhora Eliete Barbosa, não é viúva do ex-prefeito Elinaldo Barbosa, e sim sua irmã mais velha. Sua viúva chama-se Nazaré Barbosa, genitora do Abdon Barbosa, que trabalha no IML e dono de Cursinho Pré-Vestibular.

  • Só pra informar: a Professora Romana, não era irmã do Laurimar Leal. O marido dela, seu Roque Leal, pelo que sei, também não. Sou pelo carnaval estilo do fuleragem. Fantasia à critério de cada participante.

    1. Guy Fawkes, o cara da foto que você satiriza como sendo “Caetano Veloso de bigodinho”, é o radialista santareno conhecido no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 como Euládio (ou Eládio) Belisário, que começou atuando na Rádio Rural de Santarém. Depois foi morar no Rio de Janeiro onde hoje é um dos consagrados radialistas da programação matutina carioca usando o nome de MÁRIO BELISÁRIO, atuando na Rádio Tupi (https://www.tupi.am/).

  • Jota uma cidade com 300 mil habitantes não pode ser criticada baseada nos blocos da Asac, modelo em decadência a mais de 25 anos, hoje Santarém tem inúmeras formas de se brincar o carnaval e se fosse bem administrada pelos órgãos competentes possivelmente poderíamos dizer que seria a única da Amazônia a ter todos carnavais, pois veja só, se vc gosta do carnaval do mela mela tem em Alter, se gosta carnaval de salão temos também, carnaval com trio elétrico com o pipocão tem o da Libes, bloco de bairro tem vários entre os demais sito Camaleão Elétrico do Laguinho, Porco Életrico do Aéreoporto velho e por ai vai, O Carnavelinho um sucesso a toda a família e o Fuleragem outro sucesso, se vc quiser um carnaval esperitual tem o Cristoval, se é evangélico tem os retiros das igrejas, se não gosta de carnaval tem dezenas de praia do Tapajós para curtir um descanso outra seja tem pra todos os gostos, só não tem como aguentar criticas a todos que querem brincar o carnaval pela merda de quatro blocos de enredo.

    1. Paulo Costa, o que defendo é que se não houver discussão sobre isso, de nada adiantará as alfinetadas neste ou naquele modelo, nesta ou naquela agremiação. O Poder Público Municipal deveria tomar pra si o papel de moderador chamando todos envolvidos para debates, até que se chegasse a um consenso mínimo de que fórmula adotar.

  • A história da felicidade carnavalesca de ninguem, não pode ter datas, pois contraria a verdadeira história e te torna um saudosista que se atreve a conhecer a verdade.

    O caminho é Fulerar, sem lenço e sem documento mesmo. Extravasar vai vem!

  • Li com interesse o artigo, por ter vivido quase todo o período abordado. Mas os dois últimos parágrafos dizem tudo. O caminho é esse! O próprio carnaval carioca, que serve de caricatura para o que temos hoje, já está seguindo nesse rumo!

    A saída é FULE(I)RAR o carnaval santareno!!

    Saudações tapajônicas,

    Nilson Vieira

  • 1) “Desfile de agremiações é marcado por atrasos”;
    2) “Bloco da Pulga é o campeão do carnaval santareno!”.
    3) “Polícia registra vários esfaqueamentos no Carnaval na Orla de Santarém”

    Faltou a 3ª frase do fato que também se repete todo ano ano na Marquês do Tapajós.

  • Memória fotográfica, Ninos. Eu, menino, vivi muitos desses desfiles. Hoje esse arremedo que se chama carnaval santareno chega a constranger pelo mau gosto e pela desorganização. Também não conheço uma fórmula para mudar isso, mas tenho certeza de que não será com dinheiro público somente. O primeiro passo ainda é uma ampla discussão com todos os atores desse evento. Se ficar tudo para cima da hora de novo, o constrangimento não será menor em 2015.

  • Ainda há uma réstia de luz no fim do túnel. o nosso carnaval tem que ser repensado, tanto o da cidade como o da vila balneária de Alter do Chão, há de acontecer troca de idéias entre e principalmente pessôas que conhecem e dominam o assunto. não podemos colocar a organização deste evento que já foi maravilhoso, nas mãos de pessôas que não enxergam um palmo além do nariz.estamos esquecendo que este evento já foi outrora uma das marcas de como a nossa cultura é rica e bela. deixemos de lado os nossos orgulhos, nossas desavenças políticas e nos unamos para salvar este que é realmente um evento do povo. temos uma bela orla e não entendo porquê insistimos em copiar os outros. nosso rítmo é o universalmente conhecido Carimbó e não escutamos nada que tenha ligação com esse ritmo tão alegre, queremos copiar o Boi de Parintins e os desfiles em avenidas. não podemos esquecer que se a pulga todo ano é campeã, é porque tudo é fruto do esforço de quem gosta da agremiação, e quem não ganha é porque não se organiza, fica esperando que o poder público repasse dinheiro para em um mês quando muito querer se organizar. nosso carnaval genuinamente é aquele de orla, rua, de praças e de bandinhas . por favor deixem o carnaval Bahiano para lá, deixem o boi para lá. e venham juntar-se a alegria, alegria que é o nosso carnaval como os de antigamente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *