Apolinário: canto de desespero
por Ericson Aires (*)
Se há a Santarém que padece, há também a Santarém que vive. E essa Santarém que vive é do Mestre Apolinário Oliveira, artista plástico, e, agora, Cidadão Santareno, título recebido na terça-feira (15), pela Câmara Municipal, um reconhecimento tardio, mas oportuno.
Apaixonado por Augusto dos Anjos, o artista plástico santareno Apolinário Oliveira, 47 anos, é umas das pessoas mais controvertidas da região. Sempre envolvido em polêmica, falastrão, não teme os poderosos desta cidade.
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Apolinário é o verdadeiro artista mambembe das calçadas esburacadas que gritam de dor e se esvaem no tempo.
Filósofo das ruas, seus versos sempre atentos captam uma cidade perdida, uma cidade que se perde no horizonte da lembrança do que nunca foi. Seu canto é de desespero.
Canta a dor que dói diariamente, mas que todo mundo finge não existir. Apolinário assina várias obras conhecidíssimas na região, como a estátua de Sant’Ana (Óbidos),que até hoje divide a cidade pelas formas da expressão facial de mãe e filha, fruto do subjetivismo do artista.
A Santarém de Apolinário é a que grita o silêncio dos varzeanos em nossas periferias – os passageiros do seu trem -, do cheiro forte, dos sons ásperos das palavras mal pronunciadas, das vidas que ninguém se importa.
Uma Santarém sombria, que ninguém ama porque ela mesma não consegue amar a si mesma. Então ela foge, “em fuga”, como o rio foge procurando correr liberdade. Mas Apolinário não foge, apesar do seu constante canto de desespero.
Canta a dor que dói diariamente, mas que todo mundo finge não existir. Ele canta a vontade de libertar as coisas que não conseguem se libertar, pois, como disse o Ferreira Gullar, “o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não têm voz”.
Somos fãs desse artista polêmico, que além de artista plástico, é pai de família e poeta, como ele mesmo se apresenta.
“A dor do povo é dor doída demais, e ninguém cura, ninguém cura porque sabe que o povo curado não pode ser dominado, mas a vida um dia nos pagará a dor que ninguém pensa em curar…A dor controla a felicidade!”
Um salve à Santarém de Apolinário!
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* Coordenador do Sebo Porão Cultural.
ESSE CIDADÃO É MUITO ENROLADO NOS SEUS NEGÓCIOS ISSO SIM. POR ISSO TA ESQUECIDO, QUEM MANDA ENGANAR OS OUTROS.
Bonita homenagem, parabéns ao cidadão santareno Apolinário.
Bonita homenagem ao artista, parabéns ao autor pelo belo texto!
Artista invisível, mas que de suas mãos e de sua alma surgem obras notáveis de inquestionáveis belezas, detalhes e valores; artista invisível lembrado por poucos em apenas certos momentos. Pelos cantos da cidade contempla-se e encanta-se por uma obra de Apolinário. Mas o que vem à mente quando se pensa no artista?