Insanidade

Meus Eus não cabem em si
Não cabem em mim
Meus Eus já não são meus
São Eus estilhaçados
De um Eu despedaçado
Que ainda restou em mim…

Na insana idade
Em que me encontro
A cidade é o desencontro
Do meu Eu alienado
Com meu Eu engajado
Meu Eu desconcertado
Se debate com meu Eu
Tão concentrado…

Eu e meu Eu jogamos
Um xadrez alucinado
Onde peões manipulados
Tentam vencer o meu reinado
Como se meu Eu, ensimesmado,
Fosse um Eu atarantado
Pelo poder não conquistado…

Na insana idade
Em que me encontro
Já não sei se meu Eu
É meu deus
Meu adeus…

Já não sei se sou castelo
Se sou cavalo
Se sou rainha
Ou se sou rei
Só sei que meu Eu
Está além do além
Do além do meu além…

Eus meus:
amem o amém,
quae sera tamen!

————————————–

* De Jota Ninos, poeta amazônico nascido no Pará (Belém).

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4 Comentários em: Poetas amazônicos

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  • Luana Leão disse:

    “Só sei que meu Eu
    Está além do além
    Do além do meu além…”
    Belo, J. Incrível como me identifico com isso. Rs.

  • Na verdade J.Ninos é o novo heterônimo de Fernando Pessoa que ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, não morreu e mora hoje lá na comunidade do Aritapera e de vez en quando, bate ponto no Fórum de Santarém.
    Parabéns Jotão pelo poema.
    Parabéns Jeso pelo espaço.
    Santarém, saudades!
    Marquinho Mota

  • Milton Mauer disse:

    Já li algo parecido em Fernando Pessoa. Certo: sem a referência de um TU, não há consciência do EU/sujeito. Não deixa o seu EU te pegar de jeito!!!

    1. Jeso Carneiro disse:

      Milton, esse é um tema recorrente, presente no cardápio literário de vários poetas, entre os quais, como vc. mesmo citou, Fernando Pessoa. Que resolveu essa angústia, expressada na poesia de Jota Ninos, criando os heterônimos.