Medo do crime, um desconfortável interesse pelo conforto

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por Josué Viera (*)

josué vieiraO interesse é maior que a certeza, longe da verdade, perto do pre-conceito. Aperfeiçoa a solidão, concebe o imponderável.

Maior dos estímulos sociais, o interesse carrega consigo a semente da descoberta, por estar distante de comprovar as verdades, o interesse como estímulo para a investigação provoca a descoberta pelo pre-conceito, assim. É certeza, passo inicial para se comportar como verdade.

Leia também do autor – A cidade e o habitar.

Trato pre-conceito como o concebível social, como aquele dado que por tão usual e justificável transgrediu o vivido e se porta hodiernamente de simbólico.

Pertencente à tradição, o pre-conceito estimula a compreensão, é dado primordial para o desvendamento. Sem merecer vistas, pouco ou nada confirma, a natureza do pre-conceito carrega uma autoridade e uma tradição; por autoridade entendo que o ele estimula comportamentos, proposituras e sociabilidades correspondentes sempre a tradição, portanto é o saber inicial de nossas experiências de mundo.

Por vezes acreditamos que a melhor forma de ser no mundo é confirmar os pre-conceitos através de nossos comportamentos e visões de mundo.

É batata dizer que gente pobre mora longe; por vezes tão confortável acreditarmos que os jovens detêm apenas o conhecimento das semelhanças, nunca são capazes de mudar, porque são imaturos e instáveis. Bem como, concordarmos que as mulheres amazônidas são antropofágicas sexuais.

Condições de pensamento que sustentam as coesões sociais mais básicas em nossa sociedade, nada contra quem opta manejar apenas com os pre-conceitos, eles são confiáveis, aceitáveis, risíveis, apaixonantes e dão menos dor de cabeça do que a procura epistêmica da condição do jabuti em cima da árvore. Faz Maria-mole pavê… ou o ponto no meio da testa é o lugar mais distante que conheci.

O interesse ao se conceber próximo ao pre-conceito não alude mãos-dadas entre os dois, há na verdade um conflito por territórios simbólicos. Quando atuando o interesse promove o esvaziamento do pre-conceito, desde o enxugamento do objeto por um método em busca de provar e quantificar o erro até ao desvelamento contextual do dado, quando o pre-conceito é visto por dentro e suas formas de mobilidade apontam condições de permanência bem como pontos de mudança.

Ao se revelar condição primeira da compreensão, o pre-conceito fornece fundamentação para o interesse.

Sempre me interessei por condições apócrifas, distantes do visível, do real palpável. A Estética acolheu as minhas primeiras indagações, mas só… forneceu a mim um ponto de encontro, um local em que pudesse refletir sobre a natureza do aparente. O estudo da Ética veio por seguinte, meu alter ego questionava “o que é fazer o correto?”, foi só um empurrão para iniciar o passo seguinte, compreender a norma e a regra, road to nowhere.

Mas foi questionar a ideia de Margem que os meus limites do interesse foram alargados. Um mais um é menos que três; maior que zero. É… foi essa a lógica da expansão. Longe do “vivemos em uma sociedade violenta” e procurando uma medida social entre as sensações e as condições de ser no mundo, é que parte do meu interesse foi lançado para os estudos sobre a vitimização. A ideia do “perdeu playboy!!” foi a ponta de um iceberg aparentemente externo, mas tão profundo que se confunde com as raízes existenciais do Ser.

Somos violentos, adoramos a doutrina do sangue, entre a crucificação de Cristo e a sangria de galinhas num alguidá de barro, preferimos o meio termo entre as duas condições. É difícil mudar a natureza humana, tendemos ao mesmo e ao escrutínio. Mas não é qualquer violência que nos comove ou nos impulsiona a continuar o ato sanguinolento. É um tipo de violência especifica que causa o êxtase, causa o frenesi, provoca o lambuzar nos beiços, é a dor presente na violência.

É o componente da dor que comove ou impulsiona o ato, estimula o interesse, aponta as razões para a descoberta. Quando a dor se desloca da condição da realidade epicurista, ganha ares simbólicos, é o medo, primazia do símbolo da violência, que substitui a dor, é o medo que retroalimenta a condição de procura, formaliza e valida os métodos de sua investigação.

A consciência do medo liberta ou aprisiona, na verdade aprisiona mais do que liberta, porque a verdade sobre o medo é uma prisão sem fim cujos totens da dor e das lamentações reforçam a realidade da violência, a consciência da dor e a verdade sobre o medo. Se cansamos nessa sociedade é por conta de que a ideia de cada-qual-no-seu-quadrado ganhou a consciência do medo.

E por ganhar essa consciência tornamo-nos oompa-loompas terceirizados de nossos sentimentos com o mundo e com os alheios. Reduzimos trajetos entre a casa e o trabalho, bem como àqueles que levam ao lazer.

Precavemo-nos de ruas mal ladeadas, mal iluminadas, nos distanciamos dos descamisados e famintos, porque parece que a dor de barriga do coitado reforça nossa condição dupla de medo, primeiro de não querer se encontrar no lugar dele, e segundo por ele denotar perigo eminente, e outros exemplos mais que reforçam a mesma premissa.

A recondução da realidade pelo medo aprisiona a criatividade e as formas de manifestação individual. Queremos cidades limpas, queremos um retorno em serviços pelos tributos pagos ao Estado, queremos um conforto existencial, queremos a capa do Herói, menos ser um, mas queremos…

Ao menos se o medo fosse uma pessoa esse querer infinito buscaria nos simbolismos uma bênção, libertaria a criatividade pela luz acesa acima da cabeça enquanto nós costuramos as calças para o mundo à 0,40 centavos de real, como aqueles bolivianos, neo-escravos do submundo da moda. A certeza sobre o medo é que ele sustenta uma situação intima mal resolvida, e por não querermos resolver procuramos no modus aparente uma forma de substituição, por isso sempre “queremos” no sentido do “outro” servir.

Como é disperso e subjetivo, o medo estimula comportamentos e reforça uma tradição: de que somos violentos, homo violens. E somos bolivianos antes de estarmos no submundo da moda. Nosso banker: solidão; nossa arma: pre-conceito. E ir além dessa situação é esclarecimento, é interesse, é investigação. Por isso o medo do crime é um desafio posto pela contemporaneidade, tema sem resposta, que dentro de nossa sociedade brasileira muito presente organiza pre-conceitos, alimenta linchamentos, aversões e condutas pessoais restritivas capazes de eliminar ou reorientar as coesões sociais, ponto importante para compreendermos nossa situação de ser no mundo.

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♦ Santareno, é poeta e escritor, além de professor universitário. Escreve regularmente neste blog.


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Santareno, é poeta e escritor, além de professor universitário. Escreve regularmente neste blog.

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