Rachel e Gioconda Peluso

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por Vicente Malheiros da Fonseca (*)

Rachel Angélica Mattera Peluso e Gioconda Rosa Angélica Peluso são santarenas, filhas de italianos que imigraram para o Brasil, atraídos pelo ciclo da borracha. A primeira pianista e compositora; e a segunda soprano lírico. Ambas eram também professoras e moravam juntas. Rachel era membro da Academia de Letras e Artes de Santarém; e Gioconda figura como patrono da entidade.

Aos 7 anos, Rachel participava de um festival no Theatro Vitória, em sua terra natal, sob regência de José Agostinho da Fonseca. De 1920 a 1923, foi pianista da Orquestra Tapajós, dirigida por José Agostinho. Em 1923, a família Peluso mudou-se para São Paulo, onde Rachel obteve diploma de pianista e concertista no Conservatório Carlos Gomes (Campinas). Foi aluna de expoentes da música brasileira (maestros Lamberto Baldi, João Gomes de Araújo e Samuel Santos).

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Há 97 anos, nascia Gioconda Peluso.

Professora, pianista e maestrina, estudou composição, regência, órgão, contraponto, bandolim, violino, violão e canto. Recebeu comendas, medalhas, títulos, diplomas, troféus e condecorações. Compôs o Hino Oficial da Assembléia Legislativa do Estado do Pará, lindas canções, músicas para piano, inclusive peças destinadas a crianças. Rachel nasceu em Santarém (02.05.1908) e faleceu em São Paulo (04.04.2005).

Giconda era soprano. Filha do casal italiano Domingos e Marieta Peluso, iniciou os estudos musicais com sua mãe, que era professora de música. Mais tarde, fez o curso do Instituto Gomes Cardim, de Campinas. Residindo na capital paulista, dedicou-se ao magistério juntamente com sua irmã, Rachel Peluso. Promoveu a divulgação de canções de autores paraenses, entre eles Waldemar Henrique, Jaime Ovalle, Rachel Peluso e Wilson Fonseca. Gioconda nasceu em Santarém em 07.11.1914 e faleceu em São Paulo com quase 90 anos.

Ambas figuram no livro “Música e Músicos do Pará”, 2ª edição, Belém: Secult/Seduc/Amu-PA, 2007, de Vicente Salles.

Rachel e Giconda Peluso eram apaixonadas por sua terra natal, o que se refletia na obra musical da compositora e no repertório da cantora. Assim como Waldemar Henrique, Jaime Ovalle e Wilson Fonseca, as canções de Rachel Peluso, dedicadas a Belém, Círio de Nazaré, Santarém, Brasília, Bahia, São Paulo, falam de amor, de saudade, da natureza, enfim, do belo. Nesse particular, lembram Schubert, Schumann e Brahms.

Em homenagem a Rachel Peluso, o compositor José Agostinho da Fonseca (1886-1945), pai de Wilson Fonseca (maestro Isoca), compôs a valsa “Rachelina”, em 1922, para a qual o poeta paraense João de Jesus Paes Loureiro escreveu um belo texto poético em 1996.

Rachel Peluso foi minha professora de piano, quando estudei em São Paulo, na década de 60 do século XX, no Conservatório Musical “José Maurício”, por ela fundado e dirigido, em companhia de sua irmã Gioconda. Em sua homenagem dediquei-lhe também uma música, a “Valsa Santarena nº 39” (1992), executada, em primeira audição mundial, no Concerto em homenagem ao centenário de nascimento da compositora santarena, em Montevidéu (Uruguai), em agosto de 2008, organizado pelo maestro e pianista uruguaio Julio César Huertas. E para Gioconda Peluso, soprano com projeção internacional, dediquei a “Valsa Santarena nº 41” (1994), também executada no concerto.

O jornal “O Liberal”, caderno Magazine, edição de 20.08.2008 (Belém-PA), publicou a notícia, ilustrada com uma foto em que apareço na companhia de Rachel Peluso, a última vez que a vi, em vida, no ano de 2004, no dia de seu aniversário (96 anos), na inauguração da Sala Rachel Peluso, na Casa da Cultura de Santo Amaro (SP): “Compositora santarena é homenageada no Uruguai”.

A notícia também foi destaque no site do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty): “Montevidéu – Concerto de Música Brasileira”. Veja:
Rachel e Gioconda vinham constantemente a Belém e Santarém, onde se apresentaram em memoráveis recitais de canto e piano.

Em novembro de 1958, Gioconda Peluso, notável soprano santarena, radicada em São Paulo, incluiu peças de autoria de Wilson Fonseca em seu repertório no recital de canto levado a efeito no “Lyceum Club Internazionalle di Napoli”, na Itália. Em novembro de 1959, Gioconda voltar a interpretar peças de Wilson Fonseca em recital no Teatro Municipal de São Paulo.

O ministro Cesar Peluso, Presidente do Supremo Tribunal Federal, tem ligações com o Pará, particularmente com Santarém, pois o ilustre magistrado é sobrinho de Rachel e Gioconda Peluso.

Durante os anos de 1962 e 1963, quando residi em São Paulo (SP), na companhia de meu tio Wilmar Fonseca (autor da letra de “Canção de Minha Saudade”, cuja música é de Wilson Fonseca), estudei piano no Conservatório Musical “José Maurício”, dirigido pelas irmãs professoras Rachel e Gioconda Peluso. Em apenas dois anos consegui fazer um curso intensivo, em caráter oficial, uma vez que já recebera as noções básicas de música, transmitidas por meu pai (Wilson Fonseca), em Santarém, desde tenra idade.

Vale salientar que, por uma concessão toda especial, as irmãs santarenas me ofereceram a freqüência ao Conservatório de Música em condições inteiramente gratuitas, alegando gratidão por ter a Profª. Rachel Peluso dado os seus primeiros passos na música executando piano, ainda muito jovem, em uma orquestra do Prof. José Agostinho da Fonseca, meu avô paterno.

No final do ano de 1963, participei de três atividades promovidas pelo Conservatório Musical “José Maurício”, realizadas no Salão Nobre do Lyceu Coração de Jesus, em São Paulo (SP), onde eu também estudava: integrei a turma de cerca de 50 jovens alunos, cada qual executando, ao piano, peças dos mais variados compositores; fiz parte de uma bandinha rítmica dirigida pela Profª. Gioconda Peluso; e, juntamente com uma aluna do Conservatório, apresentamos um recital com músicas de compositores brasileiros e estrangeiros.

Escrevi artigos que fazem referências a Rachel e Gioconda Peluso.
Confira:
1) “CENTENÁRIO DE RACHEL PELUSO”, publicado no jornal “O Liberal” (Belém-PA), edição de 02.05.2008; e republicado no blog Espaço Aberto (jornalista Paulo Bemerguy):
https://www.orm.com.br/oliberal/interna/default.asp?modulo=267&codigo=339789
https://blogdoespacoaberto.blogspot.com/2008/05/o-centenrio-de-rachel-peluso.html

2) “TEMAS E VARIAÇÕES SOBRE RACHEL PELUSO” – publicado no Jornal “URUÁ-TAPERA – GAZETA DO OESTE” (Belém-PA), Ano XV, edição nº 145, de maio/2007, p. 6:
https://www.uruatapera.com/admin/imagens/edicoes_anteriores/urua_mai07_internet.pdf

Veja no Facebook um álbum de fotos em homenagem a meu avô José Agostinho da Fonseca (*Manaus-AM, 14.11.1886; +Santarém-PA, 11.11.1945), onde apareço na companhia de Rachel Peluso, bem como a capa e o programa musical do concerto, no Uruguai, em homenagem ao centenário de seu nascimento, em 2008 (leia as legendas das fotos):
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.276563175706110.83209.100000572904070&type=1&l=d578331fa9
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.276563175706110.83209.100000572904070&l=d578331fa9&type=1
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=276589552370139&set=a.276563175706110.83209.100000572904070&type=3&l=d578331fa9&theater
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=276599939035767&set=a.276563175706110.83209.100000572904070&type=3&l=d578331fa9&theater
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=299302793432148&set=a.276563175706110.83209.100000572904070&type=3&l=d578331fa9&theater

Rachel e Gioconda Peluso eram duas irmãs inseparáveis. Professoras muito disciplinadas e pessoas maravilhosas. A dupla de irmãs se apresentou em inúmeros recitais de canto e piano, no Brasil e no exterior. Gioconda era uma espécie de “anjo da guarda” de Rachel, pois cuidava das finanças pessoais da família e do Conservatório Musical, a fim de permitir que Rachel mais se dedicasse à música, como compositora e intérprete. São dois anjos que retornaram à orquestra e ao coro do Senhor.

A “Pérola do Tapajós” deve muito se orgulhar dessas duas santarenas que brilharam no cenário nacional e internacional da arte de Euterpe. Salve Rachelina e Gioconda Peluso!

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* Santareno, é desembargador federal do Trabalho, professor de Direito Processual do Trabalho na Universidade da Amazônia (UNAMA). Membro da Academia Paraense de Música. Compositor.


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One Response to Rachel e Gioconda Peluso

  • Comparo as irmãs ‘Raquel e Gioconda Peluso’ com os irmãos ‘Anton e Nikolai Rubinstein’ na Rússia, como grande contribuidores da música, tanto como formação de excelentes músicos e pianista.

    Uma das amigas de ‘Raquel Peluso’ era a exímia pianista ‘Iolanda Gorini’ dona do conservatório Santa Cecília da Capital que fica na avenida Pompéia até hoje, ‘Iolanda Gorini’ comentava que dona Raquel tocava com tanta facilidade, os músculos totalmente relaxados e sem expressões e trejeitos absurdos que surgiram em algumas escolas despreparadas do piano em São Paulo.
    Certa vez, vi pessoalmente dona Raquel tocando a convite do conservatório, ela tocou a ‘Fantasia e Improviso Op.66 de Chopin’, fazia tudo sem o mínimo esforço, os dedos fluíam sobre as teclas e tudo soava perfeito e natural.
    Outra grande musicista, ‘Adelaide Pereira da Silva’, compositora e pianista comentou sobre ‘Raquel Peluso’, certa vez eu estava tendo aula de Folclore brasileiro na Escola Municipal de Música de São Paulo, quando comentei que vi dona Raquel tocar, Adelaide disse entusiasmada: “Ahhhh, minha colega”, Adelaida foi aluna de ‘Camargo Guarnieri’ e dizia que dona Raquel e sua irmã eram dessas pessoas que só tinham música na cabeça e competência de sobra.

    Mas, coitado do aluno que não estudasse, música era algo sério para ela, não viesse brincar e jogar dinheiro fora dos pais, saia um aluno e já entrava outro, dona Raquel perdia a paciência, certa vez pegou o livro de um aluno e escreveu em letras garrafais com caneta vermelha sobre as pautas, ESTUDAR, em seguida com uma só mão atirou no chão há 6 metros de distância e sem piedade o livro, o aluno teve que levantar para ir buscar e já saiu da sala. Quando dona Raquel tomava uma atitude dessa, era um convite para o aluno não vir mais, pois, percebia que tal pessoa nunca iria tocar piano, e dito e feito, esse mesmo aluno hoje com seus 78 anos, usa polegar em teclas pretas o tempo todo, tem dificuldades em tocar qualquer peça fácil de Bach e só arrisca peças populares ao piano, o que dona Raquel abominava,

    Mas, que estudou com ela, diz que ela era severa, porém, não se arrepende nunca de ter passado pelo crivo musical dela,

    Um outro aluno que estudou anos a fio com ela, diz que quando ele entrou na sala, ela chamou todos os alunos do conservatório para ver a tensão muscular absurda que o aluno fazia, e comentava, olhe como ele toca pesado, a mão dele é dura, o ombro levanta e tem dificuldades para fazer passagens rápidas, percebam que ele não usa rotação de antebraço, não faz apoio de mão para descer ou subir. Tal aluno hoje com 82 anos conta até hoje o constrangimento que foi esse dia, todos olhando para ele, inclusive ‘Fausto de Paschoal’ , mas, o aluno humilhado se tornou um dos melhores alunos de dona Raquel, talvez por causa da humilhação, pois é, acho que dona ‘Raquel Peluso’ não dava ponto sem nó.

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