Resgatando dívidas

Publicado em por em Artigos

por Helvecio Santos (*)

Lembro como se fosse hoje!

No domingo anterior fiz meu último jogo vestindo a camisa AZUL do meu LEÃO. 5×0 em cima do América e assim fechamos o 1º turno do Campeonato Santareno de 1970 como campeões. Era final do mês de julho e não houve gesto e muito menos jogo de despedida. Foi melhor e, se me perguntassem, assim preferiria. Despedi-me da camisa 3 como se na semana seguinte estivesse, novamente, no campo de treinamento.

Alguma coisa me movia, alguma coisa me cobrava voar vôos mais altos. Já naquela época tinha a convicção de que devemos sonhar e acreditar que os sonhos podem e devem ser realizados. A vida me fez somar a essa convicção a certeza de que sonho não realizado transforma-se em frustração e esta, por sua vez, em doença da alma que se reflete em males no corpo.

Terminar o segundo grau e jogar no São Francisco foi uma parte dos sonhos, mas o sonhador sonhava mais e para realizar tal sonho era necessário além da força de vontade, economizar o dinheiro que pudesse.

Por favores do Adil, marido da professora Lídia, representante de uma empresa de navegação, consegui carona até Belém, no cargueiro Miromar.

Era noite de quinta feira e lá estava eu. Uma pequena mala nas mãos, meus pais, irmãos e poucos amigos, entre os quais o, agora, já ex-companheiro de zaga, Maromba. Abracei todos, abençoei-me com meus pais, gesto que em casa já fizera com meus avós e, a um chamado de um velho marinheiro, pisei resoluto na rampa em direção ao navio. Procurava não piscar e assim cinzelar em minha memória aquela paisagem.

Quando voltaria a vê-la? Meus familiares, amigos, o trapiche, a Casa Luci, o Mascote, o início da Rua do Comércio, as mangueiras da Adriano Pimentel, tudo que me era familiar e caro.

Por volta de 21:00h, o navio largou amarras.

Fazendo-me Pedro Álvares Cabral, com instrumentos de navegação incrustados n’alma por obra e graça de meus pais, avós e irmãos, os quais jamais me permitiram desviar do rumo traçado pela Estrela Maior, lancei-me em mares nunca dantes navegados, pelo menos por mim, e preparei-me para descobrir um mundo novo.

Tinha então 21 anos!

Debruçado no balaustre do navio vi as luzes da minha Santa Santarém afastarem-se e, como vagalumes, afogarem-se uma a uma no Amazonas, até que o véu da noite definitivamente delimitou o tamanho da minha solidão. Não foi fácil! Uma vontade enorme de pular n’água e lançar braços de volta ao que deixava para trás, pelo menos fisicamente.

Lá pelas tantas uma mão pousou em meu ombro. Era o velho marinheiro que me convidava a entrar nas acomodações do navio. Naquela noite, se barcos encalhados haviam, facilmente desencalharam, tamanho o rio de lágrimas que deitei rosto abaixo.

Para justificar a partida, meu peito estava coalhado de promessas feitas de mim pra mim mesmo, nas quais eu me sustentava.

A angústia era tanta que às vezes me faltava ar!

Não sabia quando voltaria a ver minha cidade, minha família, meus amigos, meu LEÃO, mas era preciso partir. O sonhador sonhava realizar seu ideal!

Jesus disse que “nem só de pão vive o homem” e eu acredito piamente no meu Guia. No meu humilde entendimento, o homem vive de pão e também de ideais. O pão alimenta o corpo, massa opaca, passageiro, finito. O ideal alimenta a alma, facho de luz, eterna, infinita. O pão bota força no corpo. O ideal bota brilho nos olhos. O corpo volta para a terra e a alma volta para Deus, para a luz da face do Pai.

Era necessário partir. Meu ideal chamava, minha alma clamava por alimento!

Foi um longo inverno! Somente quatro anos depois voltei a ver a paisagem que guardei na melhor porção de minha memória.

Hoje, sei, foi um parto muito doloroso que fiz em mim mesmo e talvez por saber a dor desse parto, aí resida a razão porque tanto valorizo minhas idas à Santa Terrinha. No dizer de Neimar de Barros no livro “Sorrindo”, “Aprendi o valor do sofrimento e hoje sorrio das dores”.

Da sabedoria popular sabemos que a distância tudo apaga, mas eu sou exceção à regra. Sou viciado em Santarém e com o mesmo entusiasmo da primeira ida preparo-me para mais uma peregrinação a esse santuário.

Já voltei nas datas mais diferentes mas creio que minha próxima ida é especial, um presentão de Deus e da minha Rosane. Nunca convidei minha mulher a passar as Festas fora do Rio de Janeiro, longe dos seus, pois nunca quis submetê-la a uma dor com a qual tinha feito um pacto de doer em mim o menos que pudesse.

No entanto, este ano minha Rosane resolveu surpreender-me positivamente mais do que já faz e, por volta de maio, sugeriu: Por que não passamos Natal e Ano Novo em Santarém? Surpreso, perguntei: É verdade? Um largo sorriso foi a resposta e no dia seguinte já estava providenciando as passagens. Assim, este ano, depois de 40 anos, passarei Natal e Ano Novo com minha família, que agora também é da minha mulher, e com nossos amigos, graças a Deus, por essas bondades da vida, cada vez mais amigos.

O convite veio se somar a muitas outras coisas boas e foi a gota d’água! Estou no que chamo de CAF e para os leigos na linguagem do coração, traduzo: Crise Aguda de Felicidade.

Com ajuda da minha mulher resgato uma dívida comigo, com minha vida. Vou colorir, 41 anos depois, aquele Natal de 1970 passado entre pessoas estranhas, sonhando com minha família, com os amigos e o título de tri campeão santareno que fomos.

Naquela longínqua noite de julho de 1970 meu vovô José abençoou e, abraçando-me, disse: “Vai! Deus estará sempre contigo, meu filho!”. E não deu outra! Mesmo nos momentos mais difíceis, e não foram poucos, nunca me senti desamparado e como a quem anda sob Seu comando Ele não falha, fui compensado.

O mundo conspirou a favor e hoje sou um homem rico! Alto lá! Antes que pensem erradamente, apresso-me em explicar. Não sou rico de dinheiro, mas rico de gente, de criaturas de Deus. Como minha família é “ligeirinha”, sobrinhos que eram crianças em 1970, hoje são avós. Quanto a amigos, bom, cada viagem a Santarém é uma oportunidade de plantar novas “mudas” e eu aproveito a seara. Assim, a cada volta colho frutos em pencas os quais deposito no celeiro do coração, onde se agasalham e de onde nunca mais saem.

Este ano resgato esta dívida e com certeza outras mais resgatarei. O tempo urge e vai se afastando de nós e embora eu procure retê-lo o quanto posso apoiando-me nas referências que fizeram o que sou, ele não para.

Na árvore de Natal regada há 40 anos colocarei minha família, todos os meus amigos, a pureza das crianças que acreditam que Jesus nasceu, o olhar dos velhos que ainda se sabem crianças e o brilho dos olhos das pessoas apaixonadas, tudo iluminado com a energia nascida do Amor Maior.

Para não fugir ao ritual, pendurarei no galho mais alto a minha cartinha ao Bom Velhinho com um pedido especial: a persistência do nosso povo na luta pelo Estado do Tapajós e finalmente a concretização do corte do cordão umbilical. Acho que não é pedir demais. Avisarei também que os presentes imediatos buscarei por conta própria. Afinal, abraço nunca é demais e o quintal da vida está sempre cheio de estrelas brotadas dessa árvore chamada Jesus!

FELIZ NATAL E UM ANO NOVO TAPAJOARAMENTE AZUL A TODAS AS MULHERES E A TODOS OS HOMENS DE BOA VONTADE!

– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –

* Santareno, é advogado e economista. Reside no Rio de Janeiro. Escreve regularmente neste blog.

Leia também dele:


Publicado por:

3 Responses to Resgatando dívidas

  • Já havia lido este artigo, mas estando no trabalho, lembrei de vc tio, e resolvi procurar neste blog.
    Adoro a forma como escreve. Cheguei a imaginar as cenas dessa uma história de 40 anos, que se resumem em algumas palavras, mas, que nos faz sentir que a conhecemos e compartilhamos cada dia.

  • Excepcional o artigo do Helvécio Santos, mostrando bem o que um santareno sente longe da terrinha e, principalmente, quando retorna a ela. São sensações muito especiais e até poéticas, como mostra o texto, onde, quase sentimos o cheiro da terra.

    1. Quanto tempo, hein Helvecio, somos vizinhos da rua 24 de outubro. Por isso que a 19 anos não perco a ida para Santarem. Hoje moro em Manaus, que é perto, mas não consigo passar sem fazer esta viagem. Como diz a canção “quando estas da terra ausente da vontade de chorar”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *