Jô reclama ao árbitro Luís Flávio Oliveira o cartão amarelo recebido
por Helvecio Santos
Parece nome de dupla sertaneja, mas não é e também está longe de serem irmãos gêmeos.
Eles são protagonistas de uma cena rara no futebol e aconteceu há cerca de quinze dias na primeira semifinal do campeonato paulista entre São Paulo e Corinthians e, para o que vou argumentar, pouco importa o resultado da partida.
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Ainda no primeiro tempo, numa bola dividida entre o goleiro do São Paulo e o atacante Jô do Corinthians, envolvendo também o zagueiro tricolor, Rodrigo Caio, agarrado à bola, o goleiro rolou no gramado contorcendo-se em dores, vítima de um pisão que levara na batata da perna.
Imediatamente o árbitro pune o atacante com cartão amarelo, o que o deixaria de fora da segunda semifinal.
O atacante argumenta, argumenta, mas de nada adiantou.
O árbitro então caminha em direção ao goleiro para verificar a gravidade do fato e decidir que providências tomar, momento em que o zagueiro tricolor aproxima-se dele e lhe sussurra ao pé do ouvido que fora ele que, sem querer, havia machucado o goleiro.
Atitude de rara hombridade nesse meio, de extrema dignidade e importância nos dias atuais.
Imediatamente o árbitro, num gesto digno e raro em meio à arrogância que grassa no ambiente dos árbitros de futebol, volta atrás, anula o cartão do atacante e, passo seguinte, de público, com não menos dignidade, agradece e aplaude a atitude do zagueiro.
O cartão amarelo tiraria o atacante que é o goleador do Corinthians da outra semifinal, o que seria uma vantagem e tanto para o São Paulo.
Mesmo dizendo que não sabia, o zagueiro falou em entrevista que, mesmo que soubesse, teria tido a mesma postura.
A imprensa trouxe a público que o técnico Rogério, lenda viva do futebol sanpaulino, no intervalo do jogo esgoelou-se, gritou, xingou, chutou baldes, condenando a atitude do zagueiro. Também o seu companheiro de zaga, em entrevista, protestou e condenou o gesto do colega.
Ânimos acalmados, depois da partida o técnico jogou pra plateia e disse que aprovou a atitude do zagueiro. Afinal, ele tem um histórico a zelar e, pelo visto, mesmo que esse histórico seja mantido somente em público.
Num país onde até hoje se glorifica o brilhante lateral esquerdo Nilton Santos, da Seleção e do Botafogo, pelo passinho à frente que nos poupou da marcação de um pênalti, onde se considera esperteza o gol de mão do lateral esquerdo Marco Antônio, que deu título ao Fluminense, onde o Túlio Maravilha virou herói por ganharmos da Argentina com gol de mão e o zagueiro do Flamengo disse e foi louvado, que o bom é ganhar com gol roubado, atitudes como a do zagueiro Rodrigo Caio nos sinalizam um Brasil diferente.
Penso que chegamos ao fundo do poço e ganhar por meios pouco ortodoxos começa a perder o glamour.
O político que desvia dinheiro público, o empresário que paga propina, o motorista que fura o sinal vermelho e usa o aplicativo que lhe possibilita dirigir embriagado, o feirante que rouba no peso da balança, o aluno que cola na prova, o dono de bar que vende cerveja falsificada, o cidadão que compra no camelô mercadoria de procedência duvidosa, tudo isso começa a ficar fora de moda e dar vergonha ou problemas ao suposto “malandro”.
Há dias a TV mostrou um condenado da Lava Jato que usa tornozeleira sendo expulso pelos frequentadores de um restaurante em Angra dos Reis. Também há dias a TV mostrou o senador Lindberg Farias sendo hostilizado no estacionamento de um restaurante na Barra da Tijuca e o mesmo aconteceu com a senador Vanessa Graziotinn num aeroporto de uma capital do Sul.
Também no Rio de Janeiro a esposa do ex-governador Sérgio Cabral, preso em Bangu, cumpre prisão domiciliar e, em frente ao seu prédio, há uma placa pedindo que o motorista buzine caso queira que ela volte para Bangu.
São os novos ventos que sopram no Brasil, onde os espaços começam a se fechar para os “malandros”.
Certa vez Jorge Benjor cunhou a frase: “Se malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só de malandragem”.
Será que caminhamos para um Brasil onde os malandros virarão honestos por malandragem ou se fecharão em suas luxuosas mansões ou apartamentos sem poderem sair às ruas sem serem hostilizados?
Entrevistado, o zagueiro cidadão declarou que esse tipo de comportamento aprendemos em casa, no ambiente familiar e é a mais pura verdade.
Nunca haverá uma sociedade sadia se não tivermos famílias agregadoras, amorosas, educadoras, onde a figura do pai e da mãe não sejam trocadas pela TV, pelo vídeo game ou pelo celular. Nunca haverá sociedade sadia se o afeto for trocado pelo tênis de marca e a ausência dos pais for compensada pelo passeio à Disney.
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