A rejeição de Messias para o STF evidencia a hipocrisia da direita bolsonarista. Por Joniel Vieira de Abreu

Publicado em por em Brasília, Opinião, Política

A rejeição de Messias para o STF evidencia a hipocrisia da direita bolsonarista. Por Joniel Vieira

Com a rejeição da indicação de Jorge Messias para o STF pelo Senado (por 42 votos a 34), a direita passou a comemorar dizendo que o governo sofrera uma derrota histórica e isso já fica o “alerta” para as eleições de outubro de 2026.

Nesse tom de euforia, o deputado federal por Minas, Nikolas Ferreira, fez vídeo comemorando e emplacando uma fake “que pela primeira vez na história do Brasil” uma indicação do presidente da República teria sido rejeitada [1]. Já o deputado federal, eleito pelo Pará, Eder Mauro, euforicamente disse que “Messias só Jair Messias Bolsonaro [2]”.

Certo ser inegável que com a rejeição de Jorge Messias o governo Lula mostrou fragilidade na articulação política no Senado.

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A isso, diversos fatores são levados em consideração que vai desde a sua própria composição (formado por senadores manifestadamente de direita), investigações em curso no SFT no caso do banco Master sob a relatoria do ministro André Mendonça [3], descontentamento de Davi Alcolumbre com o governo [4], após não ter seu pedido atendido pelo nome de Pacheco, pois Lula já tinha convicção firmada sobre indicar Messias, assim como, também, o pleito eleitoral que se avizinha que por sua vez será polarizado outra vez entre ser de “direita x esquerda”.

No entanto, essa rejeição de Messias também evidencia explicitamente a hipocrisia da narrativa da ‘direita bolsonarista’.

A direita bolsonarista sempre sustentou um discurso de aparelhamento: da fé com a política; os púlpitos das igrejas com palanques eleitorais; das lideranças religiosas e membresia com militança política; das pautas morais religiosas particulares com conivência social secular.

∎ Leia também de Josué Vieira: Povos indígenas do Tapajós e a luta pela revogação do Decreto nº 12.600/2025 e ainda: O caso Damares, Malafaia e as fraudes no INSS: crise de narrativa evangélica para as eleições 2026

Nessa defesa, a direita bolsonarista transitou nas igrejas e cooptou para si o discurso evangélico, chegando a difundir a narrativa que os espaços públicos deveriam ser ocupados por “domésticos da fé” para assim haver a “evangelização do Estado” e consequentemente a “vitória do bem sobre o mal”.

Essa aproximação fez Bolsonaro indicar ao STF o ministro terrivelmente evangélico André Mendonça, que foi bem recebido pelas comunidades evangélicas e um dos acessos para o bolsonarismo ser aclamado dentro das igrejas. Essa mesma narrativa tem seguido os discursos da direita bolsonarista até hoje. Flávio Bolsonaro, após se lançar pré-candidato a presidente, passou a frequentar as igrejas evangélicas com esse mesmo discurso.

No entanto, a derrota de Jorge Messias, articulada e comemorada pela direita bolsonarista, evidencia a hipocrisia dessa narrativa, que dar seu sustento, e tem feito o elo entre as comunidades evangélicas e o discurso político, por se sentirem representadas. A rejeição de Jorge Messias pode ser a evidencia que a esquerda precisava para mostrar que existe uma diferença muito grande entre o que a direita bolsonarista fala e o que, na verdade, pratica e defende.

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Quanto aos requisitos técnicos é indiscutível que Messias preenchia. Meu destaque aqui está nessa contradição de narrativas, pois assumidamente Jorge Messias é evangélico [5], casado e pai de dois filhos e frequenta a Igreja Batista, onde atua como diácono, igreja essa liderada pelo pastor Sérgio Carazza, e a instituição é conhecida por posições conservadoras, inclusive contrária ao aborto [6].

Lideranças evangélicas, como o bispo Samuel Ferreira (presidente da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil do Ministério de Madureira), defendeu o nome de Jorge Messias para ser indicado por Lula ao STF [7]. O bispo e seu vice-presidente da Convenção estiveram circulando nos corredores do Senado pedindo apoio para Messias, inclusive estiveram na CCJ [8].

Jorge Messias não deixou dúvidas que era “terrivelmente” evangélico! Chegou até a dizer: “Para mim, ser evangélico é uma bênção; não um ativo. A minha identidade é evangélica. Todavia, eu tenho plena clareza, de que o Estado constitucional é laico. Há uma laicidade, clara, mas colaborativa, que fomenta o diálogo construtivo entre o Estado e todas as religiões” [9].

Porém, todas essas mobilizações de lideranças evangélicas, assim como, as insistentes afirmações de Messias avocando sua identidade religiosa não foi suficiente para garantir sua indicação!

UM EVANGÉLICO, DIÁCONO DA IGREJA, COM UMA VIDA FAMILIAR NO PADRÃO CONSERVADOR E PROFISSIONAL DE CARREIRA FOI HUMILHADO E LEVADO A CHORAR PERANTE SEUS ALGOZES, QUE ERA FORMADO POR QUEM DIZ SER DEFENSORES DA FÉ QUE ELE PROFESSA E COOPTAM VOTOS DAS COMUNIDADES QUE ELE PARTICIPA [10]!

O ministro do STF evangélico, André Mendonça, se solidarizou com Messias dizendo [11]: “respeito a decisão do Senado, mas não posso deixar de externar minha opinião. O Brasil perde a oportunidade de ter um grande Ministro do Supremo. Messias é um homem de caráter, integro e que preenche os requisitos constitucionais para ser Ministro do STF”.

Essa rejeição, assim como sua comemoração, só evidencia a hipocrisia da direita bolsonarista! Evidencia que não há coerência entre o que se fala e o que se faz! É somente o poder pelo poder!

É frágil a justificativa bolsonarista que a rejeição se deu por ser indicação de Lula! Cristiano Zanin, era o advogado pessoal do Lula foi aprovado, assim como, Flávio Dinho, declaradamente comunista e ex-PCdoB, foi também aprovado, e ambos indicados por Lula e aprovados pelo mesmo Senado que rejeitou o segundo indicado ao STF “terrivelmente evangélico”.

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Flávio Bolsonaro tem reproduzido a narrativa que a rejeição de Messias foi articulada por ele nos bastidores para desgastar o governo do Presidente Lula [12]. Explicitamente, não deixa dúvidas, que nunca a direita bolsonarista esteve preocupada com a defesa e interesses das comunidades evangélicas. O foco sempre foi a manutenção de poder, nem que para isso “sacrificassem” um “doméstico da fé”.

Essa rejeição de Jorge Messias “cai como uma luva” para a esquerda no período eleitoral e dar a Lula a prova real a ser exposta as comunidades evangélicas e suas lideranças da diferença, gritante, entre os interesses da ‘direita bolsonaristas’ e os ‘interesses evangélicos’, pois não se trata de defesa de fé ou ocupação dos espaços de poder por membro de identidades evangélica, mas unicamente, fisiologismo político e o poder pelo poder.


∎ Joniel Vieira de Abreu é pastor evangélico filiado a Assembleia de Deus. Membro da Comieadepa e CGADB. Advogado, doutor em Direito pela UNESA-RJ. Mestre em Educação pela UFPA, especialista em Direito pela UFPA. Especialista em Ciências Sociais pela UFPA. Bacharel em Direito e bacharel em Teologia. Membro Pesquisador dos Grupos: NUPECC/UFPA; CODIDEM/UNESA e GEAM/UFPA. E-mail: jonielabreu@hotmail.com

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.


[1] https://www.youtube.com/shorts/zT4jc_FuifA

[2] https://www.youtube.com/shorts/JPfT8EA1D6g

[3] https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-02/andre-mendonca-e-o-novo-relator-do-inquerito-do-master

[4] https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/10/21/lider-do-governo-no-senado-diz-que-alcolumbre-defendeu-a-lula-indicacao-de-pacheco-ao-stf.ghtml

[5] https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/04/29/sabatina-de-messias-na-ccj-minha-identidade-e-evangelica-mas-tenho-clareza-de-que-o-estado-e-laico.ghtml

[6] https://jovempan.com.br/noticias/politica/evangelico-doutor-e-bessias-quem-e-jorge-messias-escolhido-por-lula-para-o-stf-2.html

[7] https://oglobo.globo.com/blogs/malu-gaspar/post/2026/04/o-cabo-eleitoral-de-messias-que-ja-declarou-voto-em-bolsonaro-e-apoia-caiado.ghtml

[8] https://www.cnnbrasil.com.br/politica/na-ccj-messias-recebe-apoio-de-chefes-de-siglas-religiosos-e-ministros/

[9] https://agenciabrasil.ebc.com.br/it/node/1687683

[10] https://www.gazetadopovo.com.br/republica/messias-chora-ganha-abraco-deputado-oposicao/

[11] https://www.cartacapital.com.br/justica/mendonca-defende-messias-e-diz-que-brasil-perde-a-oportunidade-de-ter-um-grande-ministro/

[12] https://www.gazetadopovo.com.br/republica/governo-lula-acabou-nao-tem-mais-o-respeito-de-ninguem-diz-flavio-bolsonaro/

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