O Tapajós e os Tigres Asiáticos

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Sociólogo e professor universitário (UFPA), Válber Almeida comenta o post PSTU ao lado de Jordy e Zenaldo:

Caros, chamar um pouco mais à razão e à reflexão lógica um debate que se mostra muito permeado de ideologias e sensacionalismos pode ajudar na organização das ideias. Permita-me, mais uma vez, utilizar o seu espaço para expor algumas questões que me parecem merecer mais atenção neste debate. Farei as minhas observações em blocos, para evitar se estender muito e tornar cansativa a leitura, além de possibilitar um debate mais proveitoso no blog.

Primeira consideração. É importante salientar o aforismo presente no argumento de que o Pará ficará inviabilizado de se desenvolver se perder o domínio sobre os territórios do Carajás e Tapajós e seus recursos naturais. Esse é um dos argumentos mais disseminados pelos senhores do contra, pelo menos aqui na capital, e ajuda muito no cultivo de uma certa insegurança sobre o futuro e um certo terrorismo psicológico (este um recurso que sempre vem às mãos dos que se acham dominadores e colonizadores) na imaginação da população.

O equívoco está, e é a própria lógica histórica que o desmonta, inicialmente, no fato de que, como os próprios próceres da campanha do contra propalam, estes territórios pertencem ao estado desde que ele ainda era chamado de província, há séculos, portanto.

Isso significa que, se houvesse alguma relação entre a posse destes territórios e o desenvolvimento do Pará, então hoje o Pará seria um estado desenvolvido. Mas, do contrário, é um estado marcado por um profundo subdesenvolvimento.

Outrossim, para não ficar apenas neste dado da nossa história e fundamentar melhor a refutação deste argumento, citemos, ainda, para ficar nos casos mais emblemáticos, o exemplo do Japão e, mais recentemente, dos “Tigres Asiáticos”, estes últimos que, apesar de não serem exatamente países desenvolvidos, deram largos passos em direção à conformação de uma sociedade mais civilizada.

Estes são países territorialmente pequenos e largamente dependentes de energia, alimento e matérias-primas de outros países, porque não as possuem internamente.

Isso demonstra, e fortalece a argumentação, que não existe uma relação direta entre grandes territórios, possessão sobre recursos minerais e desenvolvimento.

Assim, estes elementos nos remetem a uma outra questão de fundo: o profundo subdesenvolvimento do Pará não está relacionado à posse ou não de um grande território e grandes reservas de minério.

Como demonstram os estudos sobre desenvolvimento –com a palavra o Núcleo de Altos Estudos Amazônicos e os neoinstitucionalistas-, não é suficiente a posse de capital natural para se desenvolver um país, cidade, estado ou região. É uma soma de capitais –humano, social, cultural, político-, além de questões históricas e geopolíticas que influenciam na construção de um processo desta magnitude social.


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8 Responses to O Tapajós e os Tigres Asiáticos

  • Caro Jeso, segue a minha segunda consideração.

    Muito do subdesenvolvimento do Pará está relacionado à política praticada no estado. E não me refiro apenas à política em nível estatal –da Sociedade Política-, mas também na esfera da política micro, praticada por associações, sindicatos, movimentos populares, fóruns de debate, universidades, instituições de pesquisa, instituições religiosas, imprensa etc. -aquilo que a Ciência Política consagrou com o nome de Sociedade Civil.
    Nesta segunda consideração, começo a contestar o argumento de que são interesses políticos rasteiros que estão por trás do clamor emancipacionista.
    Apesar de rico em capital natural e em patrimônio cultural, o Pará é um estado com baixíssimo capital político e social, elementares na construção de um processo de desenvolvimento efetivo.
    De modo geral, o Pará deixou de ser denominado de província, mas não abandonou a política provinciana.
    Há pelo menos três décadas a universidade vem falando da necessidade de uma nova institucionalidade como modelo de desenvolvimento para a Amazônia, onde se inclui o Pará.
    Tal nova institucionalidade, caracteristicamente sustentável, deveria conjugar investimento maciço em pesquisa científica, expansão do ensino superior de qualidade, promover o uso sustentável dos recursos naturais, estimular o desenvolvimento de atividades econômicas ambientalmente seguras ou de baixa agressividade ao meio natural, promover distribuição de renda, de terra e ampliação de oportunidades sociais, estimular a organização e participação da sociedade civil na atividade política, entre outros.
    O grande político saberia identificar estas grandes potencialidades do seu povo e da sua região e mobilizaria suas forças para viabilizar o desenvolvimento das mesmas.
    Mas, apesar de muito religioso, o Pará não foi abençoado com políticos de grandeza, capazes de liderar o estado na execução de uma política realmente integradora, geradora de desenvolvimento material, ambiental, social e humano conjugado, além de valores coletivos e republicanos sólidos.
    Contrariamente, exacerbou-se, no estado, o pior tipo político, o tipo forasteiro, coronelista, pequeno de ideias e de princípios, fisiológico -é importante lembrar que isso se aplica também à classe política dos candidatos a novos estados do Brasil.
    Por isso, nada foi feito na direção da implantação de um modelo de desenvolvimento eficaz e coerente com a realidade socioambiental do estado.
    Diferentemente, esses políticos se mantiveram associados a um modelo de ocupação econômica do Pará alienígena, autoritário e agressivo; modelo do qual despontaram, juntamente com seus grupos de interesses, também como os grandes e, muitas vezes, únicos beneficiários em nível local.
    Daí porque não ter ocorrido o espraiamento dos ganhos e benefícios materiais deste modelo, os quais poderiam ter se convertido em conquistas civilizatórias de diversas ordens -tecnológicas, sociais, políticas, culturais, educacionais etc.
    Isso explica muito o porquê do degradante subdesenvolvimento do Pará.
    Assim, efetivamente, os interesses políticos menores, que, por ventura, mobilizam alguns políticos viciados dos territórios emancipacionistas, não podem servir de pretexto para que políticos contrários à divisão queiram deslegitimar esta aspiração, mesmo porque os interesses que mobilizam estes últimos não são diferentes dos que mobilizam os primeiros.
    É nesse ponto que recai a importância da sociedade civil, organizada, mobilizada, institucionalizada. É nesse ambiente que residem os interesses e necessidades que precisam ser concretamente satisfeitos para que se gere desenvolvimento efetivo e sustentável.
    Acho positivo quando uma entidade como a UES vem ao público declarar seu apoio à criação do Estado do Tapajós. Mas isso não basta.
    Ao invés de ficar discutindo teses e ideologias, a sociedade civil deveria se engajar inteiramente neste processo que já é inevitável e que tem tudo para dar certo se contar com a sua atuação.
    Portanto, a sociedade civil não pode mais figurar como coadjuvante na construção deste processo. Ela precisa ocupar espaço dentro das esferas de poder, agregar poder e intervir diretamente no modelo de futuro que está sendo gestado para a população destes possíveis novos estados.
    Para isso, estas instituições precisam não somente ser mais republicanas, democráticas e cívicas, mas também precisam se tornar verdadeiros laboratórios de experiências republicanas, democráticas e cívicas.
    Precisam aproximar o povo (sociedade civil desmobilizada) do Estado (sociedade política), levar o discurso e as informações sobre as questões que importam para a comunidade de modo mais sistemático, fiscalizar a atuação do agente público, publicizar a atividade pública, lutar para tornar transparente a atividade pública, estimular, através da mobilização permanente, a participação e o ativismo popular, cultivar, divulgar valores, ideias e ideais republicanos e democráticos, participar do planejamento e zelar pela boa aplicação dos recursos públicos, entre outros.
    Portanto, é preciso que a sociedade civil, desde já, se coloque mais à frente deste processo, que comece a transformar a política destes territórios porque uma forma de se transformar os políticos é transformando a política.

  • A criação de novos estados na região norte será o maior projeto de desenvolvimento na região. Amazônia. Por isso temos que dividir essa imensidão para melhor administrá-la. Por isso como brasileiro que quer o melhor para nossa região e melhor para nosso país, digo SIM>
    Voto 77 duas vezes.

    1. Projeto de burocracia é uma coisa; projeto de DESENVOLVIMENTO é outra abismalmente diferente.

      Ainda não vi meio político separatista sequer falando sobre um projeto de desenvolvimento para as regiões.

  • TAPAJÓS 77 SIM
    CARAJÁS 77 SIM
    e Adeus Pará chega de colonização adeus Belém podem sorarem.

  • Então se vc acha que é do contrário que vc cita que se vai criar réplicas de Hong Kong, Singarupa e Macau (pelo menos é o que ficou subentendido), porquê até hoje não se criou réplicas de Hong Kong, Singarupa e Macau pelo menos em Belém??? Lá se conseguiu o impossível em cima do nada, aqui no pará não se consegue o possível em cima do tudo ou do óbvio.Se temos pouco acesso a tudo (o que todos nós aqui na região oeste estamos ficando velhos de saber disso, e os que já morreram, morreram sabendo disso), é justamente pela falta de representatividade melhor e maior de parlamentares no senado e na cãmara federal. Os recursos só vêm com pressão do parlamentar seja que governo for, e quanto + parlamentar pra pressionar melhor, ou vc acha que São Paulo é rico por acaso. Vc tá fazendo o que os políticos do sul, sudeste adoram fazer que é jamais aumentar a conpetitividade com os estados de suas origens ou base eleitoral. Parabens por vc está ajudando eles, pois assim, se o SIM não passar eles lá no congresso não vão ter a dor de cabeça pra inpedir a todo custo a redivisão do pará porque é péssimo pra eles.Se vc reconhece que temos pouco acesso a tudo, porquê insistir no que origina tudo isso e não se tem nenhuma pespectiva de mudança pra melhor? ou vc acredita nesse slogan de união pelo pará só qdo se fala em redivisão? Temos a solução pros nossos proplemas meu rapaz e está em nossas mãos. Quando digo nossos entenda de todos nós da região norte, mas especificamente nós do estado do pará onde vai haver o plebiscito e onde temos a oportunidade histórica de mudar isso. Se vamos saber eleger quem preta ou quem não presta só vai dizer respeito a cada um dos três estados, ao contrário do que acontece no momento. Agora se vc pensa pelo simples capricho de olhar para o mapa do pará e dizer “olha que legal o pará é grande, tem muita terra” e ao mesmo tempo come picadinho depois chupa manga e faz de tudo pra querer arrotar caviar, aí meu chapa não tem quem mude isso. Nem Freud explica.

  • É claro que a posse de recursos naturais não ditará o futuro econômico de um local, afinal, Dubai, Las Vegas, Ihas Cayman, entre outros exemplos figuram na lista de que é possível aliar solo pouco fértil a crescimento.
    Precisamos identificar porém, uma imensa peculiaridade no caso brasileiro – principalmente do Norte: temos pouco acesso a tudo. Abrir mão do que já temos significa retirar possibilidades do débil, significa tomar a casa própria da classe média baixa (para forçá-la a lutar por uma mansão).
    Sinceramente, não é reduzindo territórios que vocês vão conseguir criar réplicas de Hong Kong, Singarupa e Macau.

    1. O texto afirma inexistir relação de dependência entre tamanho de território e desenvolvimento do ente que o possui, isso significa que o tamanho do território é variável que não dita o desenvolvimento de um lugar/país/estado se for pequeno o território não significará que que o lugar será mais dsenvolvido, sendo grande não significará também a mesma coisa.
      Porém, quanto a váriável adminsitração existe sim relação comprovada entre tamanho do território e mais facildiade ou menor custo para gestão de políticas públicas espacialmente distribuídas.
      O Estado do Pará é certamente muito grande o que cria maiores custos de governança.
      Quanto a “retirarmos o que já temos” como é afirmado, pergunta-se o que se tem? Quem tem? E porque tem? Essas perguntas tem de ser respondidas pelo colega, posto que em termos de polítcas públicas no Estado do Pará tem imperado a lógica das políticas distributivas, pelas quais a totalidade da po´pulação do territorio para os custos dessas políticas, porém seus benfícios temsido contrados pelas elites paraenses na capital e zona metropolitana. Na Educação por exemplo somente uma escola pública em Santarém, a maior cidade do interior, possui sistema de arcondicionado, as demais caem aos pedaços enquanto o governo os governos descumprem um termo de ajuste de conduta firmado com o MP para reformá-las.

      1. Meu amigo Jonivaldo, é importante unirmos esforços e inteligência para defender uma causa tão justa e importante para a Amazônia e para nós, tapajônicos.
        Vedes, não existe exatamente uma racionalidade por trás da argumentação do colega “Anônimo”. Uma hora ele fala que temos “tudo”, outra que não temos “nada”; e procura resolver esta estranha fórmula matemática dele com a idéia de que os nossos representantes “no senado e na câmara federal” não representam, nada. Claro que existe uma confusão lógica, formal e dialética, exata e histórica, conceitual e hermenêutica de base nesse raciocínio. Por isso, convidemos o nosso amigo a descer um pouco do Olimpo da sua ideologia para compartilhar um pouco da vida concreta que tão bem faz à iluminação das nossas ideias e sentimentos.

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