Preto, lockdown e racismo estrutural da pandemia no Pará. Por Mário Henrique
PMs no Pará orientam motoristas em meio a pandemia da covid-19 no estado. Foto: Agência Pará

Um país que antes da pandemia agonizava distanciamentos sociais abissais, com 55 milhões de brasileiros abaixo da linha de pobreza, equivalente a 1/4 da população brasileira, e dentre 13,6 milhões dos mais pobres (miséria), 75% são pretos ou pardos e dentre os mais ricos, 70% são brancos, reflete, a dura realidade do distanciamento social brasileiro.

Mário Henrique *

A pandemia não só escancarou esta realidade, como através de seus bandeiramentos de riscos, como traz nas facetas “despretensiosas” o reflexo estrutural do racismo globalizado, sequenciadas matizes coloridas, selada com a cor preta.

Constata-se nas emissões de decretos estaduais, referendados pelos municípios, uma salada de cores, cada qual com seu significado. A cor vermelha que aprendemos ser sinal de perigo parece não ser suficiente, usa-se o preto mostrando o quadro assustador. Por que associar ao preto sempre o pior, para dizer “a coisa aqui esta preta.”, ” a coisa aqui esta feia”, ou “caos total”?

Enquanto o mundo ecoa “vidas pretas importam”, na contramão se estabelece ao preto o pior estágio de uma pandemia, comparando-o sempre ao caos.

 

Lendo alguns argumentos para implementar confinamento e maiores restrições ao distanciamento social, motivado pelo altíssimo risco de contaminação viral e consequentemente aumento de óbitos, caos generalizado, diz-se assim: “O que é a bandeira preta? O lockdown está previsto no plano de combate do Pará para a pandemia do novo coronavírus como fase mais restritiva dentro de um sistema por cor de bandeiras. A bandeira preta (lockdown), segundo regras do estado, é decretada quando há ‘contaminação aguda, com colapso hospitalar e avanço descontrolado da doença'”.

— LEIA também de Mário Henrique: O mundo se curva ao invisível.

Verdadeira confusão. Lockdown não tem como significado a cor preta. E mostra claramente a tendência preconceituosa de alguns atos administrativos.

Curitiba, como bom exemplo, estabeleceu apenas três níveis de cores: Amarela, Laranja e Vermelha.

Trata-se apenas de reflexões, longe a intenção de execrar absolutamente ninguém. O intuito é contribuir no olhar diferente sobre alguns atos institucionais, principalmente ao estabelecer parâmetros usando cores como referências. E que a cor preta possa ter o tratamento límpido que a cor branca representa no estruturalismo racial.

# Fica a dica.


— * Mário Henrique Guerreiro é professor e geólogo. Ex-prefeito de Óbidos (PA).

📹 Assine o canal do Blog do Jeso no Youtube, e assista a dezenas e dezenas de vídeos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *