A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao rio Tapajós no dia 2 de novembro foi cercada de simbolismo. Diante das águas verdes e cristalinas, Lula exaltou a beleza do rio e falou sobre a importância de proteger a Amazônia, dizendo que o governo tem o dever de cuidar do meio ambiente e das futuras gerações.
Foi um discurso bonito e necessário. Mas é impossível ignorar a contradição que surge quando lembramos que o mesmo presidente que enaltece o Tapajós é quem assinou, meses antes, o Decreto nº 12.600 de 28 de agosto de 2025, que inclui os rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND).
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Esse decreto, na prática, abre espaço para a privatização e exploração desses rios, sob o argumento de “modernizar” a navegação e atrair investimentos. O problema é que, por trás dessa promessa de eficiência e desenvolvimento, existe um risco enorme: transformar rios vivos que sustentam ecossistemas complexos e comunidades inteiras em simples corredores de escoamento de grãos e minérios.
O rio Tapajós é um símbolo potente. Ele não é apenas um curso d’água, é morada de povos indígenas, ribeirinhos e de uma exuberante fauna e flora. É parte de uma teia de vida que mantém o equilíbrio climático e ecológico da região. Ao abrir suas margens para projetos privados, o governo coloca em risco tudo isso e pontencializa as ações predatórias na Amazônia.
Entre 1985 e 2023, a Amazônia perdeu 14% da sua cobertura vegetal, o equivalente a mais de 50 milhões de hectares de floresta nativa, segundo dados do MapBiomas (2024). Essa perda não é apenas um número: são florestas transformadas em pastagens, rios assoreados, biodiversidade desaparecendo. Cada hectare destruído representa um pedaço da Amazônia que deixa de cumprir seu papel vital no equilíbrio climático do planeta.
Por isso, é legítimo e urgente questionar o modelo de crescimento que continuamos a seguir. Não basta discutir quanto o país cresce, mas como ele cresce e para quem. Um sistema que prioriza a acumulação dos lucros enquanto socializa a destruição não é sustentável nem ambientalmente, nem socialmente. Precisamos de um novo olhar sobre o que chamamos de “desenvolvimento”: um olhar que efetivamente coloque a vida no centro das decisões.
O discurso de Lula no Tapajós poderia ter sido o marco desse novo olhar. Mas, ao mesmo tempo em que fala de proteção, o governo autoriza medidas que colocam os rios em risco. Essa incoerência é o ponto central. Não há como defender a Amazônia apenas com palavras. É preciso coragem para romper com um modelo econômico que transforma a floresta em negócio e os rios em sorvedouros de exportação.
Se o presidente realmente quer ser lembrado como um defensor da Amazônia, precisa alinhar o discurso às ações. E isso só será possível quando o governo – e o Brasil – compreender que o futuro do país está nos fluxo das águas que ainda resistem e que cultivam a vida.

∎ Felipe Bandeira é docente do curso de Gestão Ambiental – ICTA/Ufopa. Economista (Ufopa) e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp. Leia também dele no JC: Governo Lula, mercado e responsabilidade social e Lula venceu as eleições: o debate sobre o seu programa econômico. Além de Talvez essa história fale sobre você.
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