Em carta aberta, pesquisadores da Ufopa manifestam apoio a Haddad, ufopa
Um dos prédios da Ufopa em Santarém

Pesquisadores da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará), com sede em Santarém, oeste do Pará, fizeram duras críticas ao candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL), acusando-o de incitar violência contras mulheres e minorias, entre outras condutas públicas.

A manifestação foi feita em carta aberta, distribuída ontem (15), nas redes sociais. É subscrita por 42 pessoas, entre homens e mulheres.

Nela, os pesquisadores apontam Fernando Haddad (PT) como alternativa democrática para o momento político que o país vive.

“Mas isso não exime, de modo algum, o Partido dos Trabalhadores de inúmeros erros e equívocos que cometeram”, ressaltam.

Eis a íntegra do documento.

Carta aberta de pesquisadores/as da Ufopa em defesa da democracia

Nós, estudantes abaixo assinados/as, vinculados/as aos Programas de Pós-Graduação da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa): Recursos Naturais da Amazônia – PPGRNA, Recursos Aquáticos Continentais Amazônicos – PPGRACAM, Sociedade, Ambiente e Qualidade de Vida – PPGSAQ, Ciências da Sociedade – PPGCS, Educação – PPGE e Sociedade, Natureza e Desenvolvimento – PPGSND, manifestamos o nosso repúdio às manifestações públicas violentas e antidemocráticas vindas dos  candidatos Jair Bolsonaro e general Hamilton Mourão, e declaramos nosso apoio à chapa de Fernando Haddad e Manuela D’Ávila para a Presidência da República.

Jair Bolsonaro (PSL) já fez várias homenagens públicas ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex- chefe do DOI-CODI do II Exército, um dos órgãos atuantes na repressão política, durante o período da ditadura militar no Brasil (1964-1985).

O coronel Ustra, em 2008, foi reconhecido pela justiça brasileira como torturador[1]. O referido coronel já torturou mulher grávida e levou filhos para ver a mãe sendo torturada.

Jair Bolsonaro homenageou o coronel Ustra em pronunciamento na tribuna do Congresso Nacional durante a primeira fase de votação do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Roussef[2].

Depois, em novembro de 2016, ao depor no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, devido a processo aberto contra ele, declarou que Ustra é um herói nacional[3]. Não podemos, jamais, relativizar tais declarações, que, em sua essência, consistem em apologia à tortura.

O candidato do PSL construiu sua trajetória política em direção oposta à defesa dos direitos humanos e à promoção da igualdade de raça, gênero e etnia. Seus discursos incitam a violência contra mulheres, indígenas, população negra, população LGBT.

Violência contra pessoas que têm posicionamento político divergente ao seu. Em comício na cidade de Rio Branco, Acre, Bolsonaro pegou um tripé de filmadora e o usou como uma metralhadora de brinquedo enquanto dizia: “vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”[4].

Não se trata de ser ou não filiado/a ou simpatizante do Partido dos Trabalhadores, mas achamos inadmissível um candidato que postule a presidência da República de uma das maiores democracias do mundo usar desse lugar de fala para incitar a violência e legitimar discurso de ódio. 

Entre as nossas grandes preocupações com esse projeto político antidemocrático está a proposta de extinguir os ministérios do Meio Ambiente e de Ciência, Tecnologia e Inovação e reunir essas pautas no Ministério da Agricultura.

No entendimento deles, é preciso acelerar a implantação dos projetos de desenvolvimento que são hoje inviabilizados por ambientalistas e acadêmicos.

O plano de governo de Bolsonaro prevê alteração brutal nos processos de licenciamento ambiental para beneficiar os ruralistas e uma forma de produção de alimentos voltada à exportação. Uma das ações prioritárias é desarquivar o projeto do complexo hidrelétrico do Tapajós – projeto esse que foi arquivado pela luta do povo do Tapajós, com destaque para o povo indígena Munduruku.

A Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente e do PECMA emitiu uma carta dizendo que o meio ambiente está em perigo no Brasil caso Bolsonaro seja eleito[5].

A proposta de extinção do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação vincula-se a concepção explícita no plano de governo de Bolsonaro[6] que as universidades precisam estar alinhadas aos interesses das empresas e formar futuros empresários (ver páginas do plano de governo – 46, 47, 48, 49 e 72)[7].

Por isso, talvez, Bolsonaro queira “extirpar a ideologia de Paulo Freire” da educação pública, para favorecer a transmissão de conhecimento exclusivamente tecnicista em detrimento do conhecimento crítico. Está escrito no seu plano de governo (p.49): “Os melhores pesquisadores seguem suas pesquisas em mestrados e doutorados, sempre próximos das empresas”.

Não é esse entendimento que nós, estudantes de pós-graduação da primeira universidade federal com sede no interior da Amazônia, temos sobre fazer pesquisa. Precisamos ter espaço para a ciência básica e o pensamento crítico.

Igualmente preocupante é a proposta enunciada por Bolsonaro aos meios de comunicação, de transferir recursos do ensino superior para a educação infantil. Essa falsa dicotomia precisa ser rechaçada: são as universidades que formam os professores da educação infantil, e é sobretudo na Universidade PÚBLICA que se produz conhecimento voltado ao desenvolvimento da educação em todos os níveis.

Vale lembrar, por exemplo, que, na gestão de Fernando Haddad no MEC, foi implantado o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (PARFOR), através do qual as universidades públicas ofertaram formação superior a milhares de professores da rede pública, colaborando para o desenvolvimento da qualidade do ensino público (inclusive da educação infantil).

A nossa Universidade Federal do Oeste do Pará foi criada em 2009 a partir do Programa de Expansão das Universidades Federais – REUNI. Parte significativa dos/as alunos/as de graduação da Ufopa são indígenas, quilombolas e estudantes de baixa renda que acessaram a universidade e se mantêm nela por meio de auxílio implementado via programas sociais – como o Sistema de Cotas e o Programa Nacional de Assistência Estudantil.

Essas políticas públicas de educação foram criadas quando o candidato a Presidência da República Fernando Haddad era Ministro da Educação. Na sua gestão (2005-2012) foram criadas 18 novas universidades federais, 173 campus universitários e 360 unidades dos institutos federais.

Foi criado o ProUni (Programa Universidade para Todos) e o número de alunos/as no ensino superior, entre 2003 a 2014, aumentou de 505 mil para 932 mil. O orçamento para a educação quando assumiu a pasta era de R$ 20 bilhões e aumentou para R$ 100 bilhões em 2012, quando deixou o ministério.

É inegável os impactos positivos na vida das pessoas mais pobres desse país com as políticas sociais implementadas nos governos petistas. Mas isso não exime, de modo algum, o Partido dos Trabalhadores de inúmeros erros e equívocos que cometeram.

Cada um/a de nós tem diferentes críticas aos governos Lula e Dilma. Não estamos aqui nos posicionando em favor da chapa PT/PCdoB sem críticas a esse projeto político. Porém, confiamos na biografia de Haddad e Manu por se mostrarem fiéis aos princípios democráticos em suas vidas públicas.

Estamos vivenciando um momento grave na história do país. Enquanto estudantes de pós-graduação na Amazônia brasileira, temos obrigação de nos posicionar e lutar contra qualquer tipo de violência, autoritarismo, opressão e supressão dos direitos sociais.

NÃO ao retrocesso e ao obscurantismo! Em defesa da educação pública e da democracia, no dia 28 de outubro, votaremos 13!

Santarém, 15 de outubro de 2018

1) Adria Oliveira dos Santos, PPGCS/UFOPA, RG. 3723717
2) Aline da Paixão Prezotto Santos, PPGSND/UFOPA, RG 4639211
3) Antônio José Mota Bentes, PPGSAQ/UFOPA, RG 4331737
4) Carla Marina Costa Paxiuba, PPGSND/UFOPA, RG 3878825
5) Carlos de Matos Bandeira Junior, PPGCS/UFOPA, RG 5155363
6) Cauan Ferreira Araújo, PPGSND/UFOPA, RG 21042114-5
7) Cristiane Vieira da Cunha, PPGSND/UFOPA, RG 4602913
8) Dárlison Fernandes Carvalho de Andrade, PPGSND/UFOPA, RG 4818858 PA
9) Darlisson Fernandes Bento, PPGRNA/UFOPA, RG 5296450
10) Erick Coelho Silva, PPGRNA/UFOPA, RG 5865608
11) Ericleya Mota Marinho Lima, PPGSND/UFOPA, RG 5472035
12) Fabiana Gomes Fábio, PPGCS/UFOPA, RG 17432480
13) Fabio Edir Amaral Albuquerque, PPGSND/UFOPA, RG 3559870
14) Francisco Egon da Conceição Pacheco, PPGE/UFOPA, RG 3886712
15) Glauce Vítor Da Silva, PPGSND/UFOPA, RG 5330327
16) Ib Sales Tapajós, PPGCS/UFOPA, RG 5668918
17) Ítala Tuanny Rodrigues Nepomuceno, mestre em Ciências Ambientais
PPGRNA/UFOPA, RG 5783469
18) Kerlley Diane Silva dos Santos, Mestre em Ciências Ambientais PPGRNA/ UFOPA,
RG 5277311.
19)João Ricardo Silva, PPGE/UFOPA, RG 5803303
20) Kátia Solange do Nascimento Demeda, PPGSND/UFOPA, RG 3260693
21) Lays Diniz dos Santos, PPGCS/UFOPA, RG 6594389
22) Livia Medeiros Vasconcelos, PPGCS/UFOPA, RG 98002381878
23) Luana Lazzeri Arantes, PPGSND/UFOPA, RG 8634079
24) Lucas Cunha Ximenes, PPGSND/UFOPA, RG 6041790
25) Luis Alipio Gomes, PPGSND/UFOPA, RG 2403867
26) Maike Joel Vieira da Silva, PPGCS/UFOPA, RG 3188506
27) Marcelo Araújo da Silva, PPGCS/UFOPA, RG: 6048431
28) Marcelo Moraes de Andrade, PPGSND/UFOPA, RG 3074791471
29) Marcelo Praciano de Sousa, PPGSND/UFOPA, RG 52.420.497-4
30) Mariana Feijó Flôres Maini, PPGCS/UFOPA, RG 200560126
31) Naiana Marinho de Souza, PPGSND/UFOPA, RG 2002415-0
32) Nery Júnio de Araújo Rebelo, PPGSAQ/UFOPA, RG 5743678.
33) Raimunda Lucineide Goncalves Pinheiro, PPGSND/UFOPA, RG 1334100
34) Raquel Araújo Amaral, PPGCS/UFOPA, RG 2461716
35) Renan Luís Queiroz Rocha, Mestre em Recursos Aquáticos Continentais
Amazônicos/ICTA-UFOPA, RG 5905957
36) Robson Jardellys de Souza Maciel, PPGSND/UFOPA, RG 2047151-3
37) Rubens Elias da Silva, Professor PPGCS/PPGSAQ/UFOPA, RG. 2145756 SSPPB
38) Sueley Carvalho Costa, PPGE/UFOPA, RG. 4792013
39) Terezinha do Socorro Lira Pereira, mestre em Educação, PPGE/UFOPA, RG 2678587
40) Vanessa Leão Peleja, PPGSND/UFOPA, RG 606262-3
41) Victor Martins Guedes, PPGRNA/UFOPA, RG 6431551
42) Wandicleia Lopes de Sousa, PPGSAQ/UFOPA, RG 262160

[1]https://www.jota.info/justica/stj-confirma-decisao-que-reconheceu-ustra-torturador-09122014
[2]https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/04/160415_bolsonaro_ongs_oab_mdb
[3]https://g1.globo.com/politica/noticia/2016/11/bolsonaro-diz-no-conselho-de-etica-que-coronel-ustrae-heroi-brasileiro.html
[4]https://www.youtube.com/watch?v=FYErb6oriiU
[5]https://www.diretodaciencia.com/2018/10/11/plano-de-bolsonaro-poe-meio-ambiente-em-perigodizem-servidores-do-ibama-e-icmbio/
[6]https://divulgacandcontas.tse.jus.br/candidaturas/oficial/2018/BR/BR/2022802018/280000614517//p
roposta_1534284632231.pdf
[7]https://www.diretodaciencia.com/2018/09/26/bolsonaro-propoe-fechar-ministerios-de-meioambiente-e-ciencia-e-tecnologia/”

Leia também:
Bolsonaro é explicitamente fascista. Por Lúcio Flávio Pinto


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12 Comentários em: Em carta aberta, pesquisadores da Ufopa manifestam apoio a Haddad

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  • Gabriela Moraes disse:

    Que triste, A UFOPA deveria ser uma instituição não partidária. Apoiar o PT agora é se tornar cúmplice de toda a corrupção que o partido está envolvido.

  • Erick disse:

    “Vai acabar a mamata!” “Vão ter que trabalhar”
    kkkkk
    Pesquisadores se sentem até um artistas globais com esses comentários.

  • Malenna Clier Farias disse:

    Muito orgulho desses estudantes que, conscientes da atual conjuntura política em nosso país, escolheram o lado da democracia! A abertura para Jair Bolsonaro é a forma mais medíocre de apagar a memória de uma história brasileira. Um povo que, colonizado, reprimido e sofrido não devia anseiar atualmente os moldes mais obscuros da política, como os posicionamentos aqui comentados. Sugiro, pra quem não conhece esses pesquisadores e acham que pautas locais não estão em suas atividades acadêmicas (são suas próprias pesquisas sem dúvida), buscar informações sobre a atuação da Ufopa no Oeste do Pará. Tenho orgulho de ter sido aluna da Ufopa e de te-la Ocupado em 2016, porque sabíamos o quanto o futuro da educação pública como um todo estava ameaçado. E agora, mais que nunca precisamos nao deixar que apreciadores da tortura, do facismo velado, ocupem cargos políticos. A população precisa entender que não trata-se de uma disputa eleitoral comum, nossa democracia, tão recente conquistada pelas manchas de sangue do povo brasileiro, está em jogo. É pela não privatização do Brasil, pelos povos da Amazônia, pela vida das mulheres, pelo livre direito de amar e e se expressar, pela não retirada direitos trabalhistas, estudantis e da classe pobre. Tudo isto o é que está em jogo. Não deixemos o ódio vencer, precisamos virar esse jogo e proteger a democracia. Parabéns aos estudantes pela carta que inspira coragem para seguir em dias tão turbulentos. Não paremos! #HaddadManu13

  • Rui Teixeira disse:

    Eles já se esqueceram das longas greves que fizeram prejudicando os alunos e retardando a conclusão do cursos de muitos. Tudo por causa de reajuste salarial durante o governo do PT. Agora se posicionam a favor da mesma quadrilha que saqueou o Brasil e não atendeu as suas reivindicações.
    Vocês são professores, mestres, e não títeres a serviço de um partido que já sabemos como vai atuar na política nacional. Acordem!

  • Pedro disse:

    Vai acabar a mamata

  • Michael Tenório disse:

    Agora vai fazer uma diferença danada na vida da Dona Dalva, vendedora de bombons na rua que foi assaltada 3 vezes. Bolsonaro 2018, não tem erro.

  • j0rge moraes disse:

    até que enfim !!! o apoio chega quando a inês está quase morta!!!!

  • Pereira disse:

    Que ele faça o que quiser, vote em quem quiser, agora influenciar alunos, aí já é abusar, e os que são contra como ficam???

    A bosta desse PT, nunca trouxe nada de benefícios, para os professores, porque não reenvindicaram quanto o PT, esteve no poder por quase 16 anos..

  • João disse:

    Cadê a carta de apoio ao Hélder Barbalho, que o PT está apoiando aqui no Estado, ou por ser uma federal não se preocupa com as questões locais? Por isso digo ufopa estranha no ninho na sociedade Santarena.

  • João disse:

    É por essas e outras que a ufopa é uma estranha no ninho no meio da sociedade Santarena. Foca em interesses pessoais e partidários esquecendo que o seu principal objetivo seria a produção de conhecimento para o melhoramento da vida do homem da Amazônia.

  • CAIO CARVALHO disse:

    Resultado do aparelhamento Comunista e misturado com ideologias, inclusive a de gênero.

  • JOSIVALDO SILVA DO NASCIMENTO disse:

    TEM QUE APOIAR O FALSIHADAD MESMO PQ O BALSONARO GANHANDO TERÃO QUE TRABALHAR.