
Abrir um livro, tendo em volta pinturas dos artistas Elias do Rosário e Laurimar Leal, jornais das mais variadas épocas, diversas peças de esculturas e objetos antigos, além de um rico acervo de livros, na grande maioria sobre a região Oeste do Pará, é uma situação proporcionada pelo Instituto Cultural Boanerges Sena (ICBS).
O visitante é imediatamente recepcionado pela palavra “Nhemboé”, vista na frente do ICBS, termo vindo da língua guarani, que significa “pronunciar palavras sagradas da tradição e deixar-se instruir por elas”. Ou como afirma o próprio Cristovam Sena: significa aprendizagem e conhecimento.
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O instituto é um ambiente ideal para pesquisas sobre a história de Santarém e região. Ao lado da biblioteca municipal da Casa de Cultura, é o lugar mais procurado por pesquisadores, alunos e leitores, na certeza de que encontrará o que deseja ou que terá as orientações necessárias para o que busca.
O ICBS surgiu bem pequeno, sob os desejos infinitos e carregados de objetivos do jovem Cristovam, que montou uma pequena biblioteca na sala de sua casa. A ideia era de que esse acervo fosse um instrumento de partilha de conhecimentos para as outras pessoas.

Começou no dia 23 de setembro de 1981. A pequena biblioteca foi, aos poucos, crescendo e tendo reconhecimento de quem buscava por livros e documentos que servissem para fontes de pesquisa. Diante da grande procura, a partir de junho de 1993 o ICBS passou a ter livro de frequência para os visitantes.
Com o aumento do acervo e pela imensa busca que estava tendo, foi preciso que o instituto tivesse um local próprio e que desse mais conforto aos seus visitantes. Foi quando o prédio atual teve sua construção realizada no ano de 1996, engrandecendo mais a sua importância para a educação e cultura santarena e – por que não dizer – amazônida.
Batismo
O instituto recebeu o nome do pai do idealizador, Boanerges Lino Barbosa Sena, um alfaiate que tinha como instrução o primário incompleto, mas que sempre gostou de ler, embora os muitos serviços na alfaiataria o impedisse, ocupando grande parte do seu tempo, de apreciar as desejadas páginas de um livro da forma que quisesse.
Para que pudesse conhecer as obras literárias sem se atrasar nos seus trabalhos, Boanerges chamou seu filho Cristovam e pediu-lhe que sentasse ao seu lado e lesse um livro enquanto costurava. A magia da leitura transbordava em cada detalhe que era vivido pelo alfaiate que amava os livros.

Boanerges Sena era casado com dona Enilda Andrade desde 1941, com quem teve três filhos: Bonifácio, Mariana e Cristovam. Bonifácio faleceu em 1986, quando tinha apenas 44 anos.
Boanerges foi também bilheteiro, cronometrista e membro da Junta Disciplinar Desportiva (JDD), foi torcedor do São Raimundo Esporte Clube e chegou a ser um dos organizadores do Cursilho da Cristandade, da Igreja Católica, onde, segundo Cristovam, chegou a costurar as batinas do bispo dom Tiago Ryan.
Livros em uma carroça de boi
Boanerges foi amigo do telegrafista cearense Otacílio Gentil, que em 1965 precisou voltar para seu estado natal. Diante disso, ofereceu os seus livros para Boanerges comprá-los, algo que o alfaiate fez com muito sacrifício, mas bastante satisfeito. A missão de transportar as obras da casa do cearense até a sua casa coube a Cristovam, que na época, com 17 anos, fretou uma carroça de boi para levar os livros.
Boanerges Sena morreu no dia 26 de março de 1974, com 57 anos incompletos, abatido por um enfisema pulmonar. Cristovam retornou de Belém para Santarém com sua esposa Rute em 1979 e, três anos depois, imortalizou o nome do seu pai ao criar a biblioteca Boanerges Sena.
A biblioteca foi registrada no Conselho Regional de Biblioteconomia em 1986, recebendo o número 114. No final da década de 1980, a biblioteca saiu da sala para o primeiro espaço próprio, construído sobre a cozinha de sua residência, com acesso restrito apenas para alunos. Foi transformado em instituto em 1985.
Divisor de águas e carreira
O ICBS é um divisor de águas na vida e carreira de muitas pessoas. Ajudou na construção de grandes profissionais e ainda é, ao longo de décadas, uma preciosa fonte de buscas para muitos estudantes e pesquisadores.
Para a professora e historiadora Terezinha Amorim, “estar no instituto é muito prazeroso. Lá se respira ciência e cultura. É o lugar onde podemos conhecer a nossa história e fazer memória aos nossos antepassados. O ambiente é muito acolhedor, onde sempre queremos voltar para ver e conhecer a história registrada de diferentes formas, tão bem cuidado”.
Uma das marcas registradas pelo ICBS é o projeto Memória Santarena, que teve início na década de 1980. Essa ideia de Cristovam Sena tem sido uma ação de grande destaque para o universo literário de Santarém dos últimos tempos. O projeto, ainda acanhado, mas promissor, teve início com as filmagens do Zeca BBC em 1988.
Entretanto, foi necessário que aquele registro em vídeo também ganhasse as páginas dos livros, mas que teve o primeiro título publicado somente em 2011, quando Cristovam transcreveu da filmagem original todas as informações, para conseguir a publicação do volume 01 do projeto, sob o título “Zeca: o BBC de Santarém”.
Memória de pessoas
Em 2025, o ICBS lançou em junho o volume 14, com o título “Ubaldo Corrêa, o político”, sem previsão de fim, enquanto o idealista da ação tiver fôlego para dar continuidade. A ideia para o surgimento do projeto foi assim explicada pelo próprio Cristovam:
“Nós temos muitos jornais. Nossa hemeroteca, que é a nossa coleção de jornais, é muito grande e é muito pesquisada. Então, o jornal é a memória da cidade. Logo, pensei assim: ‘Vou criar uma memória de pessoas que não estão nos jornais, para contar as vidas delas, de como foi aqui em Santarém. Criei então o projeto Memória Santarena, contando as histórias nos aspectos sociais, econômicos, políticos, religiosos, esportivos, entre outros.”

No instituto podem-se encontrar obras de grande relevância, como livros, jornais, revistas e artigos, todos tratando sobre as cidades não somente da região Oeste do Pará, como de todo o estado. Viver cada momento e cada metro quadrado daquele ambiente é mergulhar num universo onde se vive uma vida regada de muitos conhecimentos.
O Instituto Boanerges Sena é aberto ao público de 08h às 12h e das 14h às 18h e está situado à travessa 15 de Agosto (desde 2018 a via passou a se chamar travessa deputado Benedito Magalhães), no bairro Santa Clara.
Se o visitante quiser ter certeza de que a obra que procura está disponível no acervo antes de ir ao local, ele pode primeiramente pesquisar pelo endereço eletrônico https://icbsena.com.br, na sessão Acervo Biblioteca, onde clicará na lupa e colocará o título da obra ou o nome do autor. Vendo que a obra estará disponível no acervo, poderá ir a ICBS sem medo de não encontrá-la.
Templo de sabedoria
“Sou um leitor contumaz, daqueles que todo dia tem que ler alguma coisa”, afirmou Cristovam, como uma das razões para que o instituto exista até hoje. Seu amor pela leitura, pela pesquisa e pelo conhecimento faz dele mais do que apenas o proprietário de um instituto particular, mas de um verdadeiro guardião da memória de um povo, do povo santareno.
O Instituto Cultural Boanerges Sena é um verdadeiro templo da sabedoria local, que sobrevive firmemente e de forma independente, encarando as redes sociais e todas as demais ferramentas das novas tecnologias, mostrando que os livros físicos e todas as outras formas de pesquisas manuais sempre serão valiosos e fundamentais para o futuro de todos os amazônidas.

Fonte:
- Entrevista cedida por Cristovam Sena, proprietário do Instituto Cultural Boanerges Sena;
- Artigo “Nhembo’e: Educação escolar nas aldeias Guarani”, de Maria Aparecida Bergamaschi, publicado em 2007.

❒ Silvan Cardoso é poeta, cronista e pedagogo nascido em Alenquer, no Pará. Escreve regularmente no JC. Leia também dele: Alenquer, 143 anos: quem come seu acari não quer mais sair daqui. E ainda: Canhoto, o dono do lanche que virou point em Alenquer; vídeo.
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